sábado, 3 de fevereiro de 2018

Noite Sinistra

Pouco antes da meia-noite, Heleninha acordou passando mal. Sentia um insuportável enjoo que lhe revirava o estômago e uma dor aguda na região do abdômen que a fazia suar frio. Levantou-se no escuro e tateando as paredes foi até o quarto ao lado. Gritou pela mãe.

Ao ouvir o chamado da filha de cinco anos, Celina sentou-se sobressaltada na cama. Acendeu de pronto o lampião e deu com ela, parada à porta:
— O que aconteceu, menina? perguntou com voz trêmula. Quase me mata!

A menina, apertando a mão contra a boca, não conseguia falar. Tomada por uma forte onda de engulhos que lhe subia à garganta, saiu correndo porta afora e tomou o rumo do quintal. Queria livrar-se das horríveis náuseas que a deixavam tonta.

Já totalmente desperta e recomposta do susto, a mãe foi atrás da garota. Naquela noite de sexta-feira, a lua era cheia e derramava sua brancura de leite sobre o vasto terreiro cercado de arbustos. A menina estava sentada numa pedra de amolar ferramentas, debaixo de um pé de figo, ao lado do jirau. Ao ver a mãe, balbuciou debilmente:
— Era a janta. Já melhorou...
— Então, fique aí mais um pouco, disse a mulher. Esse ventinho da noite vai lhe fazer bem. Vou lá dentro aprontar um chazinho que é bom pra esses males.

Celina passou pela horta e colheu algumas plantas que sabia serem tiro e queda naqueles casos de má digestão. Engraçado, pensava ela a caminho da cozinha, parecia que estava adivinhando que aquelas costelas fritas que a menina comera antes de dormir, não iam lhe fazer bem. Agora, ali estava o resultado.

Com os ramos na mão, ela foi até o fogão. Atiçou algumas brasas ainda acesas sob a cinza e pôs água para ferver. Quando o líquido já soltava fumaça, entornou-o sobre as folhas numa gamela. Cobriu a infusão com um pano e foi até a janela de tábuas que dava para o terreiro onde deixara a filha.
— Está pronto, Heleninha, gritou. Vem beber...


Mas, estranhamente, embora tivesse chamado alto, lá dos lados da figueira não se ouviu nenhuma resposta.
— Heleninha! insistiu. Está me ouvindo?

Novamente o silêncio se fez. Incomodada, Celina saiu correndo. Será que a menina tinha piorado? Quem sabe sofrera até um desmaio. Mas qual não foi a sua surpresa: o lugar onde a menina estivera encontrava-se completamente deserto. A mãe não sabia o que pensar. Estaria a filha lhe aprontando alguma brincadeira? Era bem dada àquele tipo de travessura...
— Cadê você, sua peralta? repetia Celina parada no mesmo lugar. Isso não tem graça!

Como não obtivesse o menor sinal da menina, ela agora estava começando a ficar seriamente preocupada, pois já cismava com o pior. Corria a esmo ao redor da casa, no meio do pomar, para os lados do chiqueiro, dentro da horta, gritando a plenos pulmões:
— Heleninha! Heleninha!

Porém ao redor só havia o silêncio da noite, de vez em quando quebrado pelo ruído das galinhas se mexendo no poleiro do pé de jenipapo; ou os rumores de um ou outro animal na coberta do curral. Meu Deus, pensava já entrando em pânico, onde a filha teria ido? Sempre fora muito medrosa. Ficava apavorada só de ouvir as estórias que o avô contava sobre lobisomens que em dias de sexta-feira, sob a força da lua cheia rondavam as madrugadas, à caça de criancinhas para devorar. A menina, por si só, jamais se afastaria sozinha do terreiro, disso ela tinha certeza!

A lua clara no céu iluminava os arredores até os limites da mata onde a vista alcançava. Por alguns minutos, Celina ficou ali parada, olhando a imensidão da paisagem sem saber o que fazer. Não tinha ideia de que providências tomar diante do sumiço inexplicável da filha. Afinal, fora tudo tão rápido, apenas o curto prazo em que estivera na cozinha. O mais estranho era não ter ouvido nenhum barulho e ali, no lugar em que a menina tinha estado não havia quaisquer vestígios que indicassem o possível ataque de algum animal feroz. Se acreditasse nas estórias fantásticas que ouvia contar a respeito de seres sobrenaturais que perseguiam ou desapareciam com suas vítimas, diria que estava vivendo uma de verdade.

Completamente desorientada, a mulher entrou em casa. Seus olhos pousaram sobre a estampa do quadro da santa de devoção, pendurado na parede da sala:
— Minha Nossa Senhora, orou baixinho, valei-me nessa hora de aflição. Cadê Heleninha? Oh, minha santa, onde está minha filhinha?

Sentiu-se sufocar. Foi para o alpendre, sentou-se num pequeno banco de madeira. Só então, percebeu que nem tinha se lembrado do marido. O imprestável, àquelas horas, devia estar bem tranquilo, à margem de alguma lagoa, às voltas com suas varas e anzóis. A verdade é que andava cansada daquelas andanças de Tobias, sempre a deixando sozinha com a menina naqueles ermos, para ir atrás de pescaria que nunca rendia um peixe sequer!

Quando se casou, Celina nunca poderia imaginar que aquela seria sua vida. Tinha deixado a fartura e o ambiente alegre da fazenda dos pais para viver na dificuldade. Naquele lugar soturno, onde nunca passava um vivente, o marido levantara um casebre sem conforto. Era ali que, há muitos anos, moravam sem conseguir nada mais que juntar algumas cabeças de gado; criar alguns bichos de terreiro e tocar minguados roçados de onde tiravam a sobrevivência. Tobias sempre fora um homem de poucas ambições. Com seu jeito arredio e de pouca conversa, bastava-lhe a mesmice daquela vidinha rotineira ali do sítio.

Ao nascer Heleninha, Celina ainda tivera a esperança de convencê-lo a vender as terras e irem morar perto da família, mas fora em vão. Ele dizia-lhe que não tolerava montoeira de gente por perto e ela que tirasse da cabeça aquela ideia amalucada de fincar moradia perto dos pais! O homem era mesmo dado ao isolamento, ao sossego do seu canto e à solidão das margens dos rios e lagoas, onde gostava de pescar seus peixinhos, à noite.

Agora, estava ela ali naquela aflição com o desaparecimento de Heleninha. Não sabia nem onde procurar pelo traste para que repartisse com ela aquele aperto de ir atrás da menina. Só mesmo Nossa Senhora dos Desamparados para socorrê-la naquela agonia.

De repente, movida por estranho impulso, a mulher reagiu. Não ia ficar ali parada, pensou, se lamentando pelo marido perdido nos matos sem ter hora pra voltar, enquanto sua filha, certamente, corria perigo. Levantou-se decidida, foi até a frente do curral e laçou o cavalo tordilho que, em pouco tempo, arriou. Sem pensar duas vezes, tomou os rumos da fazenda Recanto das Garças: ia buscar socorro na casa do compadre Januário, padrinho de Heleninha.

Ao fim de uma exaustiva cavalgada, bateu palmas e chamou à porta da sede da fazenda. O compadre, ainda em roupas de dormir, abriu a janela com o lampião suspenso diante da cara sonolenta. Ao reconhecê-la, àquelas horas tardias, o homem já foi vendo que coisa boa não podia ser. Ali mesmo da porteira, ainda ofegante pela corrida, ela foi logo explicando tudo. O fazendeiro, sem perda de tempo, de imediato, foi gritando pelo filho Dionísio. Foi o prazo de selarem os cavalos e os dois homens, acompanhados de alguns cães de caça, bateram em retirada atrás de pistas do misterioso acontecido.

Os últimos vestígios da madrugada já se anunciavam quando Januário e o filho deixaram-se cair desanimados num tronco estendido junto ao colchete da entrada da casa. Celina, com o rosto desfigurado pelo desespero, aguardava por notícias. Quando olhou os rostos desalentados dos dois homens, compreendeu logo: podia esperar pelo pior!
— É, comadre, disse Januário, reviramos tudo e nada, nenhum sinal. Até a capoeira, não ficou uma só moita de capim, pé de pau, toca ou buraco que não tenham sido vasculhados. Isso não tem explicação...
— Credo, parece até coisa do outro mundo! completou Dionísio, fazendo o sinal da cruz. Nunca vi caso mais esquisito.

A mulher, em estado de choque e os nervos em frangalhos, não conseguia mais verter lágrimas, tal era o inchaço que lhe cobria os olhos:
— Agora, é esperar, disse ela com voz sumida. Quem sabe quando o dia clarear de todo...

Naquele momento, ouviram o som de um assovio tranquilo e fino de alguém que subia pelo trilho da capineira. Os três se entreolharam. Era Tobias que chegava da pescaria. Vinha lépido e lampeiro sem suspeitar, nem de longe, do episódio ocorrido em sua ausência. Não demorou muito e o viram aparecer por detrás dos pés de tangerina, com uma vara de anzol aos ombros e o embornal de algodão, atravessado no peito. Ao ver os três ali fora da casa, em hora tão avançada, estacou de repente. Fez uma cara de quem não estava entendendo o que via e permaneceu parado no mesmo lugar.

Já supondo o susto do compadre, Januário foi logo adiantando:
— Se achegue, homem, que aqui não tem notícia boa.

Tobias caminhou até onde estavam. Manteve um olhar de interrogação, mas não disse uma só palavra. A mulher, então, vencendo o estupor que a invadia, num fio de voz entremeado de soluços, explicou:
— É a menina, Tobias. Sumiu que ninguém sabe onde foi parar.
— Heleninha? disse ele devagar. Como foi que aconteceu?

Súbito, com os olhos pregados em Tobias, Celina foi acometida por uma violenta vertigem e teve que apoiar-se no mourão da cerca para não cair. O mundo pareceu girar a sua volta diante do que, horrorizada, acabava de ver: presos entre os dentes do marido, ela tinha reconhecido alguns fiapos de cor violeta que lhe eram inconfundivelmente familiares. Tinha certeza, eram os fios do tecido da camisa de baeta que Heleninha vestia naquela noite, antes de desaparecer. Enfim, todo o mistério se clareava. A mulher já não tinha a menor dúvida. Estava diante de um verdadeiro lobisomem!


Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - fotografia de Nicodemos Rosa de Pitangui MG ) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

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