sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Mistério na Estrada de Ferro

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Eram dez da noite quando Dona Celeste pegou a sineta sobre a mesa e a fez tilintar avisando que a aula já estava encerrada. Os alunos se levantaram, pegaram suas coisas e foram saindo. Os estudantes daquela escolinha de zona rural moravam todos bem retirados e a professora, vendo que um forte temporal se avizinhava, tratou de dispensar a turma um pouco mais cedo. 

A escola, que tinha apenas uma única classe, reunia alunos de diferentes idades e fora criada para os filhos dos colonos trabalhadores nas lavouras de café das fazendas próximas. Era naquela construção de tijolos vermelhos, ao lado da pequena estação onde o trem noturno fazia parada à meia-noite que os rapazes e moças das redondezas iam estudar as lições de Dona Celeste.

Amaralina, filha de um dos mais antigos agregados da fazenda Boa Vista, foi a última a sair da sala. Viu todos os colegas montarem seus cavalos e rapidamente bater em retirada rumo às suas casas. A tempestade que se anunciava ia ser das bravas! Ela, no entanto, tinha que ficar por ali, à espera do pai que sempre vinha buscá-la. O caminho até a Boa Vista era longo, deserto e perigoso.

Dona Celeste apagou o lampião, passou a trave na porta e montou também o cavalo rosilho que mastigava na cocheira, debaixo da mangueira à porta. Amaralina, então, viu-se sozinha sob o avarandado da fachada da escola. Enquanto isso, intrigada, pensava: o pai demorava demais, teria acontecido alguma coisa? Ele não era de se atrasar...

A moça correu os olhos lá pelas bandas da Lagoa Bonita e ficou apreensiva. Uma enorme e pesada nuvem negra parecia misturar céus e terras. Ia ser uma chuvarada daquelas! O ruído surdo dos trovões fazia tremer o arame farpado que cercava a escola; e os relâmpagos traçavam chispas de fogo nos tons de chumbo da noite.

Cada vez mais, Amaralina se inquietava. Diabos! O pai não aparecia e o temporal ameaçava desabar a qualquer momento. Por ali não se via vivalma acordada àquelas horas e nem havia pouso por perto, onde pudesse se abrigar. Foi então que decidiu: não ia ficar ali parada esperando o pior acontecer. Seguiria pelo caminho por onde o pai já devia estar chegando, assim pouparia viagem ao coitado. A garota apertou contra si a sacola de algodão em que guardava os livros das lições e pôs-se a andar. Tirou os sapatos a fim de ganhar mais ligeireza e enveredou pela estreita estradinha, margeada pela sombra escura das plantações de café. Amaralina tinha medo da noite. Detestava andar sozinha! Por isso, quando Amaro, seu pai, a fizera frequentar o curso noturno ela só aceitara com aquela condição: ele teria que buscá-la todos os dias à saída das aulas. Porém, justo naquela noite, algo dera errado. Ela só esperava que ele aparecesse logo pelo caminho.

Os ruídos noturnos mexiam com os nervos da garota. Tinha pavor do pio das corujas, do canto dos urutaus e dos voos rasantes dos morcegos sobre sua cabeça. A mãe, antes de morrer, uma vez lhe contara que alguns bichos eram de mau agouro e anunciavam quando alguma desgraça estava por acontecer. Por isso, agora quase correndo, ela se arrepiava toda quando ouvia aqueles rumores no meio do cafezal.

No negror da escuridão, Amaralina não enxergava quase nada. Apenas o clarão momentâneo dos relâmpagos iluminava buracos e tocos de árvores caídos no meio do caminho. Meu Deus, pensava ela, onde andaria o pai que não chegava para tirá-la daquele apuro? Teria sofrido algum acidente com o cavalo? De repente, reconheceu o lugar onde estava. Viu que já se aproximava da ferrovia que deveria atravessar para chegar às terras da Boa Vista. Sentiu um frio no estômago e um tremor nos joelhos. Aquele lugar a aterrorizava e, mesmo à garupa do cavalo, agarrada ao pai, ela sempre fechava os olhos quando passava por ali. Conhecia as estórias sinistras que contavam sobre aquele local.

Foi um pouco antes do cruzamento da estrada com a linha de ferro que ela avistou o facho de luz apontando nas trevas. Graças a Deus, disse para si mesma, enfim, o pai chegava para livrá-la do aperto. Respirou aliviada e gritou bem alto:
— Estou aqui!! 

Porém, não obteve nenhuma resposta. Para sua surpresa a luz se apagou bruscamente e tudo mergulhou novamente na escuridão. Continuou correndo às cegas em direção ao cruzamento. O coração parecia explodir dentro do peito, tal era o medo que a invadia! Sentiu, então, o impacto das primeiras gotas de chuva atingindo-lhe a cabeça, grudando-lhe o cabelo e a roupa no corpo. A terra solta da estrada agora era uma lama pegajosa que lhe pesava os pés, impedindo-lhe os movimentos. A enxurrada escorria forte à altura de seus joelhos e ela pensou que não ia resistir. Estava apavorada. O zumbido furioso do vento assobiava nos ouvidos de Amaralina deixando-a desorientada. De repente, como se tivesse sido empurrada por uma força invisível ela perdeu o equilíbrio e estatelou-se no meio do aguaceiro. Então, viu diante de si novamente a luz que há pouco pensara ser a lanterna do pai.
A moça soltou um longo grito de horror. A imagem que vislumbrou no meio da chuva, por trás do clarão, mostrava dois vultos distintos e ela logo compreendeu: eram os fantasmas da estrada de ferro! A última cena que viu foram as sombras de um homem e de uma mulher, ainda muito jovens, trajando roupas escuras. Em seguida, perdeu os sentidos e caiu sobre um amontoado de madeira empilhada ao lado da linha.

Há muito, ali por aquelas bandas, corria aquela estória de meter medo em qualquer vivente. Contavam que tudo começara quando um jovem casal apaixonado, por motivo de desavenças de família, fora impedido de viver seu amor. Os dois, então levados pelo desespero, haviam feito um pacto de morte. Pouco antes da passagem do trem da meia-noite, estenderam-se abraçados sobre os trilhos de ferro. Assim que a poderosa máquina apitou na curva, a tragédia estava feita, já não poderia mais ser evitada. Ali, contavam as pessoas da época, ficaram espalhadas pela estrada as partes dos corpos despedaçados. Desde então, os espíritos eternamente entrelaçados passaram a habitar o lugar, assustando os caminhantes ou os passageiros do trem noturno.

Um estrondoso trovão fez tremer as bases de pedra da casa no alto do morro, Amaro sentou-se sobressaltado na cama! Olhou o relógio e viu que já era quase meia-noite.
— Meu Deus! disse alto para si mesmo, levantando-se de um salto e esfregando os olhos. Dormi demais.

Seu primeiro pensamento foi para Amaralina. Onde estaria àquela hora? Profundamente preocupado, o homem saiu correndo sob a chuva. Afundando as pesadas botas no barro do curral, saltou sobre o cavalo que, já selado, dormitava numa coberta ao lado da casa. Partiu em disparada rumo à escola.

Quando se aproximou da linha de ferro, o homem teve um estranho pressentimento. Tinha certeza de que algo terrível acontecera à filha: não podia perdoar-se pelo atraso, principalmente naquela noite tenebrosa. Sabia o quanto a menina era amedrontada. A coitadinha, certamente, estaria passando maus momentos sob aquele temporal. Quando um relâmpago clareou a sombra escura sobre os mourões de madeira, ele logo soube que era ela.
— Amaralina! gritou, com voz trêmula. Sou eu! De um pulo, desceu do cavalo e, lutando contra a chuva torrencial que parecia não ter fim, tocou no vulto negro. Mas qual não foi a sua surpresa: não havia ninguém. A sombra era apenas o casaco escuro da moça e a sua sacola de livros encharcados...

Naquele momento, o trem apitou na curva. O homem, de um salto, recuou para o barranco. Por pouco, não fora tragado pelo impacto da massa de ar deslocada pelo monstro de aço que, imerso na chuva, desfilava imponente seus intermináveis e negros vagões.

Parado à beira da linha, Amaro acompanhou com o olhar a passagem das inúmeras composições da máquina. Foi, então, que viu pela janela iluminada do último carro, um jovem e sorridente casal que lhe acenava: um cavalheiro e uma dama, ambos vestidos de negro. E numa visão de segundos, estarrecido, ele não queria crer, mas viu também ao lado dos dois passageiros, o belo rosto de Amaralina. Seria mesmo ela? Ele jamais chegaria a saber...

Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - fotografia de Marselha Rufino em Itumirim MG ) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

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