quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Encontro com Isadora

Naquela noite clara de céu enluarado, Dilermando, retireiro da fazenda Cachoeira, arredores da vila de Santana, tinha ido levar uma carga de rapadura na venda de Afonso. Como era de costume, ficara por lá até tarde, apreciando umas talagadas da boa pinga do alambique do Sobral e proseando com o povo do lugar.

Sentado no tamborete de couro, junto ao balcão, enrolando o pito de palha e pondo a conversa em dia com a peonada ali reunida depois da lida nas roças, ele nem vira o adiantado da hora! Só quando um galo cantou lá pros lados do grotão dera acordo de si. Apressado, pegou o embornal com as encomendas da patroa, dona Esterlina e, montando o cavalo Ventania, ganhou a estrada da fazenda.

Pela vontade de Dilermando, o cavalo bem que poderia ir num passo mais apertado, mas parecia que o coitado, meio quebrado pela longa espera amarrado ao mourão em frente ao empório, não estava muito disposto a uma corrida àquelas horas.

O retireiro, como era já de seu feitio, ia assoviando, só para entreter-se na solidão daqueles caminhos, pois homem de ter medo ele não era! Desde moleque, criado solto pelos pais, antigos colonos ali na Cachoeira, ele nunca tinha sido de perder um terço, uma quermesse ou qualquer que fosse o festejo acontecido em Santana ou nas imediações.

E se tinha uma coisa que nunca o atrapalhara nas suas andanças, era a falta de companhia. Corria tudo era sozinho mesmo, com a graça de Deus! Chegava quando queria, ficava enquanto lhe apetecia. E se o acontecimento não era de seu agrado dava meia volta e batia em retirada. Pulava no lombo do Ventania, cortava cerrados, atravessava córregos e em dois tempos tomava o rumo da casinhola onde vivia com seu gato preto de nome Picumã.

Enquanto a montaria trotava no seu passo ritmado, Dilermando, no meio do seu assovio fino e manso, ia lembrando de Natalino, peão da fazenda Monte Alegre, que vivia de atazaná-lo com os casos de assombração acontecidos nas terras da Cachoeira.
— Facilita não, homem! advertia-lhe o companheiro, sempre que o via ali na venda. Um dia a casa cai e a alma penada que vaga ao léu naquelas redondezas acaba lhe cercando.
— Pois que venha! rebatia Dilermando, na sua valentia. Ainda danço é um arrasta-pé com a condenada no meio do pasto!

O rapaz sabia muito bem qual era a aparição a que Natalino sempre se referia quando se encontravam. Era o fantasma de Dona Isadora, a quem antes pertenciam as terras da Cachoeira. Os mais antigos contavam que há muitos anos houvera ali uma pendenga entre a viúva e o Coronel Macário, dono da fazenda vizinha. A briga se dera por causa de uma divisão de terras. A mulher não se cansava de espalhar aos quatro ventos que o homem lhe tinha passado a perna. Mandara construir uma cerca que lhe tomava uma boa fatia de terreno, deixando-a amargar no prejuízo.

Diziam que a querela tinha durado por muitos anos e a viúva Isadora não suportava a cara do fazendeiro! Era ódio mortal! Não se conformava com o golpe que ele lhe aprontara. O finado marido, dizia ela, nunca fora homem de engolir desaforo. Se estivesse vivo, o desgraçado do ladrão haveria de ver só. Passava-lhe era chumbo grosso nas canelas que era para aprender a não pôr a mão no alheio! Mas ela, coitada, sem filho que lhe tomasse as dores, ia ficar mesmo era só no ora-veja. Não era doida de medir forças com aquele brutamontes armado até os dentes e cercado de capangas.

O pesar maior da viúva, diziam, era por conta do pau-de-óleo frondoso e de grande porte, com sua copa verdejante, ao sabor do vento, esbanjando sombra aos viajantes e caminheiros fatigados que passavam pela estrada. Aquela sempre fora uma árvore de estimação. Indignada, lá de seus terrenos, ela sempre parava o cavalo e ficava admirando a árvore em sua densa folhagem. Mas agora, estava do outro lado da cerca do Coronel Macário! Um gosto acre subia-lhe a garganta; um nó apertava-lhe o estômago. O peito parecia explodir com raiva tão grande e a vontade que tinha era de esganar o salafrário que a roubara. Tinha desejo de vingança e ânsia de morte sempre que o via de passagem acompanhado da jagunçada.

Com o passar do tempo, Isadora foi se acabando em amargura e um mal terrível lhe tomou o corpo em chagas. Sentiu que a morte lhe rondava. Foi então que, antes que o desfecho se desse, mandou um recado ao coronel: ele que não pensasse que ia se ver livre dela. Ia morrer, mas jurava que não arredaria pé de suas terras. Se ele tivera o pau-de-óleo em vida, ela o teria depois da morte! Haveria de fazer morada por todo o sempre no que lhe pertencia de direito. Ele que se preparasse para encontrá-la sempre ali, nas divisas da fazenda.

Aquelas estórias rodavam mundo. Tinha gente que jurava de pé junto que a viúva voltara mesmo para cumprir sua promessa de assombrar o pau-de-óleo. Ficara por ali, vagando ao deus-dará, até que numa noite, quando o Coronel Macário retornava do povoado, ela o cercara no caminho, bem em frente à fatídica árvore. Ninguém podia afirmar com certeza sobre o fato, mas o certo é que o homem, no dia seguinte, tinha sido encontrado morto, caído junto à porteira que fazia as divisas das terras da Cachoeira. E do seu cavalo preto, nem sinal!

E Dilermando, que nunca tinha sido homem de perder tempo com aquelas asneiras de aparição, nunca dera trela ao que diziam. Para ele, tudo não passava de grandes tolices que lhe entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Quando Natalino lhe dissera que seu compadre Zequinha tinha dado de cara com a visagem do mal-afamado trecho de caminho, ele dera boas risadas. Aquilo era pra quem amarelava por qualquer coisinha; tinha graça um homem destemido como ele cismar com estórias de fantasmas...

Distraído em seus pensamentos, o retireiro nem tinha percebido que chegava próximo ao malfadado pau-de-óleo. Mais um pouco e ele entraria nas terras da Cachoeira. Só estranhou quando o Ventania, sem qualquer aviso, estacou de repente. Intrigado, o homem se avexou: o que se dava agora?! Ouviu então um rangido esquisito que lhe provocou um estupor. Foi aí que, atônito, com o coração a saltar-lhe pela boca, ele firmou os olhos na estrada e viu: a porteira à sua frente estava se abrindo sem que nenhuma vivalma lhe pusesse a mão!

Dilermando, diante da porteira escancarada, pensou que estava tendo uma alucinação, mas o clarão límpido da lua não deixava dúvidas. Alguma sombra, um vulto escuro, acabava de transpor as terras da fazenda Cachoeira. Logo em seguida, a porteira, sem que nada visível a tocasse, se fechou com o mesmo ruído de ferro rangendo e o estalido seco das tábuas se encaixando no batente de madeira.

O homem, paralisado por um medo que invadia cada pontinha de seu corpo, não conseguia controlar seus ossos que batiam sem parar numa violenta tremedeira. Tentou atingir o animal com a espora no intuito de fazê-lo disparar. Porém, Ventania não saiu do lugar! Empinou-se nas patas traseiras e soltou um longo relincho. Depois, como se tivesse levado uma pancada, fez um movimento brusco e atirou longe o cavaleiro que estatelou-se no meio do capim! Livre do dono, o cavalo deu meia-volta e, disparado numa louca carreira, retornou pelo caminho em que viera.

Ainda zonzo pela queda, Dilermando quis levantar-se. A cabeça girava e o corpo doía. Devia ter quebrado alguns ossos, pensou. Mas o pior ainda estava por vir. Julgou delirar quando ouviu alguns gemidos e uma espécie de sussurros vindos do mato. Por mais que tentasse, o retireiro não conseguia atinar com o que pudesse ser. De repente virou-se para o alto da árvore. Levantou os olhos para os últimos galhos e o que viu haveria de ficar gravado para sempre em sua memória: lá estava, suspenso sobre as folhagens, um caixão escuro que se destacava em meio à luz resplandecente do luar. Tinha forma retangular e da parte dianteira parecia elevar-se uma espécie de gases luminosos, translúcidos que se evaporavam em contato com a atmosfera.

Dilermando, que não conseguia despregar os olhos da horripilante visão, pensou que fosse enlouquecer. Porém, de repente algo incrível se deu: sem mais nem menos, o caixão pareceu flutuar e num segundo desapareceu no ar. Em seu lugar só restou uma fumaça azulada que, como se tivesse sido tragada pelas folhas do pau-de-óleo, sumiu também. Então o homem teve certeza: tinha encontrado Isadora que, cumprindo sua antiga promessa, viera habitar para sempre as terras que lhe pertenciam...

Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - pintura do artista plástico José Rosário  ) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

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