quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Dia da Fazeção de Quitandas lá na roça

Na varanda ao lado da casa, o forno de barro era aceso... As chamas crepitavam! Estariam no ponto, assim que as massas estivessem prontas. Vovô Joãozinho, além de carregar a lenha e acender o fogo, esperava com toda a paciência, as ordens de Vó Geralda, avisando a hora retirar as brasas e cinzas. A tampa do forno era escorada com um tronco de madeira pesado e o suspiro se tampava com um tijolo embrulhando em trapos molhados.

Um feixe de ramos preso na ponta de um bambu era a vassoura usada para varrer o forno, já no ponto. O perfume de alecrim do campo se espalhava pelo terreiro todo. Isso envaidecia as quitandeiras que espremiam com um pano furado, nos tabuleiros bem untados, os biscoitos. Com as mãos, davam forma ao pão de queijo, na cuia do coité, enrolavam as broinhas de fubá de moinho, a caminho de mais uma fornada.


Folhas de bananeira verde para embrulhar os joãos deitados, feito com mandioca ralada, queijo e rapadura. Bolo de fubá com erva doce. Quebra-quebra de polvilho, broa de fubá de canjica.
Quando as quitandas feitas com polvilho acabavam de assar, era a hora dos pães da Vó Maricota, eu a chamava de “Madrinvó.” Naquele tempo, ali por perto, só ela sabia lidar com a farinha de trigo... Pão sovado, roscas de queijo, ou da rainha, ela deixava brilhantes passando melado em cima.

Enquanto escrevo, ainda sinto aquele aroma que se espalhava pelo quintal afora, tentando a meninada ansiosa. Custávamos a esperar aquelas delícias esfriarem. Os mais velhos diziam que se comesse quente, dava dor de estômago e queimação... Dava nada! Era só assoprar...

Na casa de meus avós havia um cômodo escuro onde ficavam amoitadas as latas de quarta, daquelas que o povo da roça comprava para guardar biscoitos, manteiga, e carne de lata. As de minha avó, clareadas com areia fininha da serra, brilhavam feito alumínio.


Inúmeras vezes entramos naquele quarto de mansinho... Os pequenos seguravam e o maior subia em dois tamboretes empilhados para alcançar a prateleira. Sempre foi um verdadeiro teste de equilíbrio não deixar as latas cheias caírem. Não fazer barulho, não entornar tudo no chão.

Não era fome! Vó Geralda nunca negaria nada aos netos... Era só coisa de criança levada. Era vontade de comer biscoitos escondidos. Bom demais sair aquela cambuia de crianças pela estrada afora com os bolsos cheios de sequilhos e os braços cheios de pulseiras feitos com argolas de biscoito de polvilho...

Aquelas mulheres de minha infância tinham mãos de fada e esbanjavam esses dons no dia da fazeção de biscoito. Eram artesãs lidando com grandes fornos de barro, esquentados a lenha, detalhe que justificava em parte, a excelência de seus quitutes. Essas construções, até hoje têm lugar de honra em muitas fazendas e sítios, pois confere sabor peculiar às iguarias.

A modernidade tão cedo irá substituir a alvenaria por algum artefato de última geração.
Nunca vi caderno de receitas das coisas gostosas que passavam aos tabuleiros em dezenas de formas, redondo, comprido, argolinhas, rosquinhas... Eram segredos guardados naquelas cabecinhas cobertas por lenços brancos, se alternando naquela labuta que findava só depois que o sol entrasse pela porta da serra.

*Imagens de grandes mulheres, herdeiras dos segredos das deliciosas quitandas da Serra da Canastra.
(Homenagem a todas as quitandeiras da Serra da Canastra) 
(texto e imagens: Maria Mineira)

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