quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Coisas de Minas

Autoria de Marina Alves *

"Minas é o mundo, o mundo da gente"... Assim como todo e qualquer lugar é o mundo para quem nele nasce ou vive. Sem negar, é claro, que o mundo continua a existir, belo, amplo e diverso — para além desse mundo mais perto — é em nosso berço de nascença que a gente se procura e se encontra.

Eu me procuro e me encontro mesmo é em Minas. Ainda que meus olhos passeiem por esse Brasilzão tão grande e bonito. Ainda que meus andares percorram e façam paradas nos muitos (e belos!) Estados deste nosso rincão, é para Minas que o coração volta correndo quando bate a saudade pelos ventos da montanha.

Em Mim-nas corre sangue amineirado, e eu não poderia fugir, nem se quisesse. Por que sou Minas em tudo. No meu jeito desconfiado de chegar, nas sílabas engolidas no final, na economia dos gerúndios... Na mansidão arrastada da fala, que pode até nem ser percebida, enquanto estou entre iguais, mas que saindo da Aldeia a coisa muda: basta eu ver uma entrevista na TV, naquele cantar arrastadinho, que digo logo: "É minêro!". E não tem erro, sempre é. Sabe aquele jeito de sempre parecer que ainda vai dizer mais alguma coisa quando tudo já está dito? Pois então, é coisa aqui das alterosas, e pode até ser que alguém dê jeito, mas é custoso!

"Custoso!" Esta é uma das muitas palavras que correm Minas. É uma das minhas, entre tantas outras, que andam junto com o "Sá" que encurta o senhora, o "Trem" que serve pra dizer quase tudo e, pra coroar, o "Uai", marca registrada, patrimônio tombado da mineiridade: quem se declarar mineiro e não disser "Uai" é "persona" suspeita, já começa a ser olhado meio de lado.

Drummond, poeta genuinamente mineiro, traduziu muito bem a riqueza da figura mineira, e não exagerou nem um tantinho. Quem já leu "O Sotaque da Mineira" sabe que é mesmo daquele "jeitim"... Ali tem muito, não só das mineiras, mas, em Geral, de quem tem um pé nas Gerais. E pode escrever, que não dá outra: quem convive com um bom mineiro acaba ficando "igualzim, igualzim"... Quando vê já tá esparramando "uai e trem pra toda banda". E é capaz que só "os de fora", consigam perceber, porque a gente nunca se enxerga na própria mineirice. Mas é certeza: o "mineirês" é contagioso!

Um "cadiquim" de cada coisa vira um mundão de coisas que fazem Minas. E nestas terras onde o mar é só lagoa e o sol flerta com os montes, ferve e efervesce o melhor da alma mineira, com o seu feijão tropeiro com torresmo e couve, o pão de queijo saindo do forno, o doce de leite, e o queijo fresco em fatia servido com café quentinho, no aconchego das cozinhas.

Também não é possível levar muito a sério, certos "trens" que mineiro diz. Aquele jeito de perguntar "quantos dias de prazo?"— pedir sempre um "minutim" ou dizer que "é logo ali", ainda que o ali seja longe pra chuchu, é tudo verdade. A mais pura verdade. Na hora de explicar caminho, então o "cê vai reto toda a vida" também é coisa de todo dia. Eu mesma já falei muito isso e vai ver ainda falo sem me dar conta, porque não sou eu quem falo, é Minas que fala em mim...

*Marina Alves é escritora, natural de Lagoa da Prata MG

Um comentário:
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  1. Ainda vão, ou vamos, escrever muito sobre Minas e isto será só um começo ou um recomeço dentro da historiografia mineira.

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