domingo, 14 de janeiro de 2018

Sigura, sinão ele pula!

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O fazendeiro Mário Adolfo ia casando a filharada e exigindo que todos morassem em suas terras. Queria toda a família sob seu domínio. Homem genioso e rude, às vezes até meio trapalhão. Com a idade, os problemas aumentaram. Quando contrariado, ia logo bradando:

— Oceis num sabe du que ieu sô capaiz! Vô cabá dano um fim nessa vida marvada qu’eu tenho... Minha famia veve pa mim dá disgosto! Oceis mi contrareia dimais. Credo!

Dona Alzira, a esposa, era de uma bondade sem fim. Não descuidava do marido e pedia sempre aos netos:

— Põe sintido no avô doceis qui ieu tive uma sonharada ruim essa noite. Num dexa ele suzin não. Fico cum medo dele fazê uma arte qu’ele memo!

Quando o homem se enfurecia, tomava o rumo do paiol, onde guardava suas cordas. Todos sempre atentos, após qualquer briga seguiam-no e vigiavam pelas frestas. Viam quando ele amarrava as cordas, subia no tamborete e ajeitava a forca no pescoço. Não sendo bobo, armava o pulo quando os filhos já iam saltando pra dentro do paiol, segurando suas pernas, impedindo que se enforcasse. Ou, então, algum deles cortava a corda com uma foice ou machado que ficavam ali, propositalmente, guardados. A vida ali era assim nessa peleja. Uma das despesas da fazenda era com a compra mensal de cordas.

Fazia já algum tempo que Dona Alzira descobrira que o marido costumava afanar mantimentos da própria despensa, escondendo-os numa gruta à beira do rio, para abastecer as panelas de algumas senhoras de vida incerta, em suas idas à cidade. No intuito de manter a harmonia familiar, ela se mantinha calada, redobrando os cuidados com a saúde do marido.

— Ô Maradorfo, meu veio, num fica assim não! Ieu fiz um chazim de camumila procê, vem cá! Bebe! Ocê tem qui se acarmá, home. Num dianta ficá assim qui nóis morre e num leva nada desse mundo, memo...

Mesmo com tamanha dedicação, ela também era vítima da brabeza do marido. Um dia, sem querer, apanhou-o na despensa a encher um saco de aniagem com os tais mantimentos. Envergonhado, Mário Adolfo não teve alternativa e o jeito foi esbravejar, desviando a atenção para os filhos:

— Oceis mi sigura gente!... Mi sigura, sinão ieu hoje faço uma bobage ca Arzira... Ô diaxo de muié atentada, sô! Ela veve pa modi mi amolá! Será qui ieu num tenho sussego nem pa arrumá a dispensa qui essa dismazelada num cuida?! Aqui tá uma miada danada. Tá chei de rato!

Disse isso e pegou o cavalo. Saiu a galope, sem ser visto.

Uma das filhas, preocupada, deu o sinal assim que viu que o pai não aparecia para o almoço. Foram primeiro ao paiol. Procuram pelos arredores da fazenda e nada de achar o homem. Foi quando Adolfinho, o neto mais novo, entrou na cozinha correndo.

— Ô vó Zirinha! Ieu tava lá no curral brincano e o vovô Dorfo passô lá e deu um abraço ni mim e falô que tava dispidino, pruquê ia pulá lá de riba da cachuera do Cerradão...

Foi um alvoroço! Gente correndo pra todo lado! Aquele dia parecia que ele ia cumprir a ameaça. A fim de evitar a tragédia, saiu dali uma multidão: filhos, genros, noras e alguns netos. Todo mundo correndo a pé. Serra arriba, lá se foram! Dona Alzira não quis ir, alegou que o reumatismo a impedia de acompanhar a carreira do povo. Entregando o caso a Deus, pegou seu terço e foi rezar no silêncio do quarto.

Ouvia-se ao longe o barulho da cachoeira. Os mais jovens correndo na frente. Alguns, perdendo as forças, iam ficando para trás. Logo depois da curva, avistaram o cavalo solto, pastando calmamente.

As filhas, chorando e já sem esperança de achar o pai vivo, gritavam em desatino:

— Paiêêê! Num faiz isso cum nóis não! Nóis jura qui num contrareia mais o sinhô! Pelamordedeus! Num pula não!

Nestas alturas, em meio à choradeira das mulheres, os genros haviam se apartado da turma, para discutir a partilha das terras do sogro.

— Ieu fico cum aquela fazenda lá do chapadão, disse o Osvaldo.

Ao que Odorico foi logo retrucando:

— Veiaco, hein?! Tá iscoieno a mió procê, né?

Gertrudes, uma das noras, tratou de cortar o assunto:

— Oceis ispera amenos nóis interrá o home pa dispois parti os trem dele, uai... Já imaginaru se os fio dele iscuta isso?!

Foi quando um dos netos gritou:

— O vô Maradorfo tá aqui! Tá vivim! Ieu achei ele!

Avançaram os passos e avistaram o homem acomodado em uma pedra, bem no alto, onde as águas ferozes encontravam o precipício e caíam de uma altura de quase duzentos metros.

Tranquilo, o velho Mário Adolfo cortava um pedaço de fumo de rolo com o canivete, tendo ao lado um embornal com uma vasilha de café e uns pães de queijo. As botinas ao lado, na pedra. Os pés descalços balançando ao vento. Ele nem deu confiança àquela pequena multidão.

Disfarçando a decepção, um dos genros lhe diz:

— Grazadeus qui o sinhô inda num pulo, meu sogro! Nóis chegô bem in tempo de invitá essa disfeita qui o sinhô ia fazê cum nóis, sô!

O velho sogro olhou o genro de soslaio e respondeu:

— Pó pará cum essa cunversa pa boi drumi, qui ieu cunheço munto bem os genro amoroso qu’eu tenho. Tá mi iscutano, Osvardo?!

Os outros seguraram o riso ante a descompostura que o sogro passou no Osvaldo e ficaram calados.

— Pai do céu! O sinhô quais qui mata nóis tudo de tanto susto! A mãe tá lá em casa numa agunia di dá dó, tadinha!

Sossegado, o fazendeiro fechou o canivete, acendeu o pito de palha, acomodou as costas no barranco do rio e falou para todos ouvirem:

— Uai, cambada! Oceis deve de tá tudo variano... Intão acharo qu’eu sô besta ou caduco? Pensaro qui ieu ia intrá nesse mundão de água fria com os pé quente das butina e cum corpo suado de tanto andá a cavalo, subino essa serra? Ieu tô é isperano refrescá os pé e o corpo quente, pa adispois ieu pulá da cachuêra! Pa mode qui, sinão, inda pego u’a gripe ou inté uma constipação...

Maria Mineira
*Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro:“Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra” de Maria Mineira. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo facebook ou pelo e-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br

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