terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Pote de água

Na roça não tinha água encanada e nem cisterna. Mais tarde é que fizeram uma e a gente retirava a água no sarilho, uma engenhoca que era sustentada por dois troncos no formato de Y e o balde descia amarrado a uma corda. Era só rodar a manivela, puxar o balde e pronto, já tinha água.

Mas antes de termos isso na roça, a água da casa vinha de uma mina d água, que ficava a uns 100 metros de distância. Minha avó ia e voltava todos os dias, várias vezes, com lata cheia de água na cabeça. Não era fácil, ainda mais para uma senhora de idade, mas a roça tem sua poesia, mesmo na dureza do trabalho. Era lindo ver minha avó carregando água ou trouxas de roupas. O sacrifício era penoso, mas a alegria com que ela fazia as coisas e cuidava da casa era uma emoção só.

Minha avó, como toda mulher da roça, era forte e de fibra. Gostava da vida que tinha e não reclamava, trabalhava e muito. Sempre tinha algo a nos oferecer, mesmo que fosse apenas um sorriso.

Assim era minha avó. Lavava roupas, cozinhava, arrumava a casa, buscava água na mina, sempre cantando e sorrindo.

Uma vez, chegou com o pote e eu estava na cozinha. Ela colocou a água num outro pote de barro, que ficava no canto, era a água de beber da família. Olhou pra mim, perguntou se eu estava com fome, balancei a cabeça positivamente e ela me deu um biscoito de rapadura com café. Primeira vez que eu comi desse biscoito, adorei. Não dispenso ainda hoje.


Extraído do livro Doces Momentos de Arnaldo Silva. Quem se interessar pelo livro, entre em contato com o escritor pelo e-mail arnaldosilva@bdonline.com.br

Um comentário:
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  1. Voltei à minha infância, revi a minha avó, tal qual... Parabéns, Arnaldo.

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