segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O dia da fazeção de pamonhas lá na roça

Nunca me esquecerei do dia da “fazeção” de pamonhas. Meu avô plantava a roça de milho, a uns duzentos metros da casa e, a boa colheita dependia da chuva na hora certa. Íamos, vovô e eu, apanharmos o milho. Ali, cultivava-se também mandioca, inhame, cará, plantados na parte menos fértil do terreno. Segundo ele, o milho era cultura mais exigente e precisava de terra vermelha sem cascalho.

Era bom chegar cedinho à roça, a tempo de ver o orvalho ainda escorrendo nas folhas de taioba. Amoitadas entre os pés de milho, eu encontrava as melancias - daquelas compridas da casca rajadinha- que eram as mais doces. Mais adiante estavam as abobreiras. Lindas com suas flores amarelas, escondendo enciumadas, as abobrinhas de um verde que nunca mais encontrei noutro lugar.

Alastrando-se à cerca, havia o cará do ar e as buchas. O maracujá mais teimoso, também dela saía e se enroscava na porteira, enfeitando-a com suas flores, roxas e brancas. Eu me embaraçava num cipó de nome bonito, que era praga por ali, a “corda de viola”, meu avô ia cortando, porque estragava todo o milharal.
O milho estava no ponto de pamonha quando as bonecas secavam o cabelo. Vovô dizia que o milho era uma planta abençoada, pois mesmo depois das ramas secas, ainda servia de suporte para o feijão ou a palhada alimentava o gado.
Ao chegarmos à casa com o milho, um adulto era responsável por cortar a cabeça da espiga com o facão. Um bando de crianças tirava o cabelo delas. Então a mulherada separava as palhas e fazia os amarrilhos. Todos se acomodavam como podiam, no chão ou nos bancos em volta da montanha verde, no chão da varanda.
Tudo arrumado, começava a ralação! Ralos grandes, gamelas, bacias. Minha mãe ficava com a tarefa mais difícil, escorava o ralo na barriga, segurava com uma mão e com a outra ia ralando uma a uma as espigas. Espirrava caldo de milho para todo lado. Certa vez, enquanto mamãe parou para beber água, fui escondida tentar ajudar, porém na primeira tentativa ralei as pontas dos dedos e tingi de vermelho parte da massa. Nunca mais me atrevi.

Quando já havia massa suficiente para começar, era costume fazer assim: minha avó coava a massa amarelinha na peneira de taquara, alguém trazia uma vasilha com banha quente de porco - que chiava ao cair na massa- então, misturava-se bem e uma parte era adoçada com açúcar ou rapadura e a outra era temperada com sal, linguiça e pimenta. As mulheres mais treinadas faziam um copo com a palha do milho, colocavam um bom pedaço de queijo, mais uma palha e amarrava bem apertado, fazendo uma cinturinha na pamonha. Era preciso esperar o tacho de água ferver, antes de enchê-lo de pamonhas. Depois se cobria com as palhas verdes, tendo o cuidado de cozinhar as salgadas separadas das doces.
Quando a palha amarelava, era sinal que estava pronto. No mesmo dia, eram feitos bolos de milho. Era só untar os tabuleiros, colocar mais queijo ralado na massa já pronta e levar ao forno para assar.
Outra iguaria feita com o milho verde era o mingau, conhecido também por curau, para ele eram usadas as espigas mais duras. Bastava adicionar leite fresco à massa e coar num pano limpo, acrescentando açúcar e levando ao fogo até o ponto desejado.
Na casa de meus avós, o dia de mexer com o milho verde nem se fazia outro tipo de comida. Era milho cozido, milho assado na brasa, pamonha e bolo de milho o dia inteiro.

Engraçado, que hoje em dia, encontram-se pamonhas o ano inteiro, no entanto elas não têm o mesmo gosto daquelas da roça, que só eram feitas certo período do ano. Acho que aquele sabor se chama saudade e me acompanhará sempre.


Texto e fotos de Maria Mineira - São Roque de Minas
Autora do livro:“Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra” de Maria Mineira. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo facebook ou pelo e-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br

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