quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A volta de Isabel


Tudo aconteceu numa pequena cidade do interior de Minas Gerais, quando ali chegou em férias, um rapaz vindo de São Paulo. Chamava-se Teodoro. Cansado da vida na grande metrópole, ele viera atraído pelas belezas naturais que ficara sabendo existirem naquela tranquila cidadezinha.

O rapaz chegou pela manhã e hospedou-se numa das várias pousadas que havia por ali. Descansou um pouco e à noite saiu para conhecer alguns pontos do lugarejo. Foi quando descobriu um barzinho agradável para se distrair e ouvir música.

Teodoro entrou e ocupou uma mesa aos fundos. Foi logo atendido por um garçom risonho e simpático. Estava no fim do primeiro drinque quando viu entrar uma bela moça que, devagar, observava tudo ao redor como se procurasse por alguém.

O rapaz, ao vê-la, sentiu uma sensação diferente a lhe percorrer o corpo e logo se encantou por aquela singular beleza: cabelos louros bem tratados lhe escorriam pelos ombros; belos olhos escuros; lábios bem desenhados e um corpo perfeitamente delineado dentro do vestido preto! Porém o que mais chamava atenção naquela jovem era a pele muito branca, extremamente delicada e fina, cuja textura chegava a ser quase transparente sob o colorido das luzes. Era lindíssima!

Teodoro percebeu também que não era o único a se encantar pela moça. Ela atraía olhares curiosos de todos por ali. Ele pensou, então, que talvez ela não fosse da cidade, por isso sua entrada no bar causasse tanta sensação.

Quando a orquestra começou a tocar, ele viu que a moça recebera vários convites para dançar, mas permanecera de pé, parada onde estava. Recusara todos eles com uma inclinação de cabeça e um gesto elegante de mão.

Foi então que ela viu Teodoro. Olhou-o por alguns instantes e, firme, caminhou em sua direção. E qual não foi a surpresa do rapaz quando ela lhe disse:
— Vamos dançar?

Um tanto sem jeito, ele levantou-se e a acompanhou até a pista, no meio do salão. Primeiro, ele ficou meio constrangido sendo alvo dos olhares de tantas pessoas, mas em poucos minutos, já completamente à vontade, valsava nos braços daquela que o fascinava de uma forma estranha.
— Gostei de você, disse ela. Meu nome é Isabel e adoro dançar assim!
— Você é mesmo leve como uma pluma. Costuma vir sempre aqui?
— De vez em quando, respondeu a jovem. Saio pouco. 

 Dado um intervalo na música, os dois voltaram para a mesa e Teodoro pediu drinques que ela recusou, dizendo que não bebia. Conversando, ela contou que morava a algumas quadras dali; disse ter uma família maravilhosa que ele, com certeza, adoraria conhecer. A mãe, então, era uma pessoa adorável! Será que ele gostaria de visitá-los no dia seguinte? Teodoro não podia acreditar. Aquela moça gostara mesmo dele! Além de escolhê-lo entre tantos ali, agora o convidava também, para conhecer sua família. Seria um desses casos de amor à primeira vista? Seu coração batia descompassado, estava achando tudo surpreendente demais. Depois de certo tempo na mesa, Isabel pareceu ansiosa e demonstrou uma repentina pressa em ir embora, era quase madrugada.
— Por que não vem comigo? disse. Assim saberá onde moro, quando for almoçar conosco, amanhã.

Quando chegaram à rua, caía uma chuva fria e fininha, mas Isabel preferiu que fossem caminhando, afinal, morava tão pertinho dali. Diante da sugestão da moça, Teodoro foi até o carro onde pegou seu casaco para agasalhar a jovem que agora estava trêmula com o frio da madrugada.

Seguiram pela rua conversando. A casa de Isabel ficava mesmo muito próxima. Ali no portão se despediram e, depois de fazê-lo prometer mais uma vez que voltaria para o almoço, ela desapareceu no pequeno jardim que cobria a entrada da casa.

Teodoro rodou pela cidadezinha, meio confuso. Não conseguia tirar aquela jovem de sua cabeça. Isabel atingira seu coração como ninguém ainda o fizera!

Com ansiedade, o rapaz viu o dia amanhecer e contou cada minuto até que chegasse meio-dia. Diante do portão de madeira branca, ele respirou fundo. Era ali que ele a trouxera na noite anterior.

Tocou a pequena sineta da entrada. Ouviu passos arrastados do outro lado. Uma senhora de cabelos grisalhos presos num coque, trajando roupas caseiras, o atendeu. Ele a cumprimentou e ela respondeu. Porém, quando perguntou por Isabel, teve a impressão de que ela iria desfalecer:
— Como?! disse ela com voz trêmula. O senhor tem certeza?
— Claro! Respondeu firme, Teodoro. Acompanhei-a até aqui, ontem à noite. É sua filha, não é? Convidou-me para almoçar com vocês, hoje...
— Sim, é minha filha, ou melhor, corrigiu rapidamente, era minha filha. Isabel morreu há dez anos num acidente de automóvel, perto daqui. Tinha dezenove anos. — Não é possível, ainda ontem...

A mulher, percebendo-lhe a confusão, abriu a porta por completo e convidou-o a entrar. Pegou sobre um console, ali na sala, um porta-retrato que mostrava uma Isabel feliz e sorridente.
— É essa, não é? tornou a mãe.
— Sim, gaguejou Teodoro, é essa mesma, acompanhei-a até o portão, ontem à noite.

A mulher assumiu uma expressão de seriedade, balançou levemente a cabeça com ares incrédulos e convidou:
— Venha comigo.

Sem dizer nada, ele a seguiu em direção oposta a casa. Depois de caminharem em silêncio por uns dez minutos, Teodoro avistou a pequena capela do lugar. Ao seu lado deparou com um cercado de muros caiados onde se abria um velho portão de ferro. O rapaz sentiu o gelo de um arrepio e um nó a apertar-lhe a garganta: ali era o cemitério!

A senhora entrou e, com passos decididos, encaminhou-se para as sombras de algumas árvores no canto do muro. Foi então que Teodoro viu algo que jamais esqueceria enquanto vivesse! Ali estava a lápide com o nome de Isabel e a data de seu falecimento, ocorrido há dez anos. Ao lado de uma cruz de marfim, ela sorria numa foto de rara beleza.

E mais: ali estava também, cuidadosamente dobrado sobre a laje, o casaco que ele lhe emprestara para guardá-la dos chuviscos da noite...
Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - pintura do artista plástico Rui de Paula  ) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

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