terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A prisioneira

Aos vinte e cinco anos, Clarisse tinha tudo para ser uma linda mulher. Porém quem a visse, tranquilamente lhe daria duas vezes mais a idade que tinha. Trazia ainda os cabelos louros e finos, mas despidos de qualquer brilho! Ao redor dos bonitos olhos azuis, profundas sombras; a pele antes tão sedosa perdera o viço; os lábios tão atraentes ganharam marcas enrijecidas.

Aquilo nada mais era que sinais de sofrimento. Desde que se casara, há cinco anos, somente ela sabia o que passava nas mãos de um marido tirano, autoritário e ciumento aos extremos. Ernesto só podia ser doente, pensava ela. Não poderia ser normal aquela sua obsessão, sempre com medo de ser traído ou enganado.

Quando se conheceram na cidadezinha onde moravam, ela tinha apenas dezoito anos. Ele então bem mais velho, já trabalhava na Capital e só vinha visitá-la nas folgas mensais da firma. Nessas ocasiões, quando a encontrava, queria saber tudo o que ela fizera em sua ausência. Perguntava sobre todos os lugares onde havia ido; com quem saíra; com quem falara. E ela, em sua ingenuidade romântica, chegava a sentir-se lisonjeada, pensando que tudo se devia ao grande amor dele por ela.

O fato é que depois de algum tempo juntos, Clarisse já não tinha mais amigos, pois ele implicara com todos. Deixara também o escritório em que trabalhava, depois que ele cismara que o patrão a olhava de uma forma diferente. Por fim, a obrigara a abandonar a faculdade, alegando que estudos não lhe fariam falta, pois teria tudo que precisasse assim que se casassem.

Os pais da moça assistiam a tudo com grande preocupação. Não viam com bons olhos aquele namoro e por vezes tentavam alertar a filha:
— Cuidado, Clarisse, dizia a mãe. Ernesto é muito possessivo. Quer ser o seu dono, mandar na sua vida. Por que você permite isso?!

Porém a moça estava perdidamente apaixonada. E depois, pensava ela, tirando aquelas manias de ciúme que o namorado tinha, ele era um perfeito cavalheiro. Dava-lhe presentes caros, adivinhava-lhe as vontades, satisfazia todos os seus desejos! Tinha certeza de que com o tempo ele mudaria. Quando estivessem casados, morando na Capital, numa vidinha só deles, tudo seria diferente.

Assim, quando Ernesto fez o pedido de casamento, Clarisse não teve dúvidas em aceitá-lo. Os pais é que não gostaram nem um pouco daquela novidade. No fundo, sempre esperaram que aquele namoro não fosse muito longe. Cansado de presenciar o ridículo comportamento do futuro genro, o pai da garota não escondia sua desaprovação:
— Clarisse, por minha vontade você jamais se casaria com Ernesto. É um homem muito esquisito, não vai fazê-la feliz.

Mas naquela ocasião, sob a euforia da ideia de casar-se, ela o desafiou:
— Como é que você pode saber, papai? De qualquer forma, acrescentou, sendo ou não de sua vontade, vou me casar.

Percebendo o firme propósito da filha, os pais se convenceram de que nada havia a ser feito. Ela já tinha escolhido o próprio destino e nada a faria mudar de ideia. Restava-lhes apenas concordar. E foi assim que, após a cerimônia realizada na capela da cidade, Clarisse, enfim casada, seguiu com o marido para a Capital.

Logo nas primeiras semanas juntos, a moça já sentiu o que seria sua vida dali por diante. Encerrada no nono andar de um prédio de apartamentos, ela passava o dia na mais completa solidão. Quando o marido voltava do trabalho, à noite, repetia-se a estória que ela já conhecia muito bem.

Ernesto, sem dominar sua ansiedade, queria saber tudo o que ela fizera. Vasculhava seus pertences, cheirava suas roupas, olhava seus sapatos, queria se certificar de que realmente ela estivera em casa o dia todo. Quando verificava suas coisas e confirmava a normalidade de tudo, recomeçava: se não saíra, quem havia telefonado? Recebera alguém durante o dia? Conversara com algum vizinho? Era uma tortura, um inferno!

Porém o pior foi quando um dia, ao chegar do trabalho, Ernesto encontrara um rapaz parado diante de sua porta. Cismara que ele havia saído de sua casa, que estivera com Clarisse. Completamente fora de si, queria que a mulher confessasse a suposta traição! Diante da fúria do marido, ela ainda tentava mostrar-lhe o absurdo que estava pensando. Mas ele não a escutava. Estava cego de raiva e pela primeira vez, a agrediu brutalmente. Aquela reação do marido deixou Clarisse profundamente abalada. Ela desconhecia por completo aquele lado irracional do homem com quem se casara.

Porém depois daquele dia, Ernesto passou a espancar a esposa por qualquer coisa. Usava de tanta violência que as marcas lhe ficavam por muitos dias pelo corpo todo. Às vezes, ela tinha vontade de fugir, pedir socorro aos pais ou aos vizinhos, mas as ameaças terríveis que sofria tiravam-lhe qualquer poder de reação. Vivia aterrorizada, tensa, totalmente amedrontada entre as paredes daquele apartamento.

Com o tempo as coisas foram ficando cada vez mais sérias. Ela via os pais apenas de vez em quando. Sempre na presença do marido e, se falava com eles pelo telefone, evitava deixar que percebessem o que se passava. Seria melhor que não soubessem, ela pensava.

Certo dia, Ernesto chegou a casa avisando que estaria fora por mais ou menos vinte dias a serviço da empresa. Mas ela não achasse que ia ficar livre dele. Já tinha pensado em tudo! Enquanto ele estivesse fora, ela iria ficar presa no depósito dos fundos do apartamento!

Clarisse chegou a pensar que ele só quisesse assustá-la, não teria coragem para tanto! Mas ele não lhe deixou dúvidas:
— Só vai sair quando eu voltar. Levo a chave comigo! — Ernesto, você está louco! ela exclamou. Não pode fazer isso comigo. Não tenho me sentido bem, preciso de um médico...

De fato, há alguns dias, ela vinha tendo dores fortíssimas pelo corpo. Receava que a vida confinada naquele espaço restrito e deprimente do apartamento estivesse lhe causando um grande mal.

Mas ignorando os apelos da esposa, antes de sair para viajar, Ernesto a trancafiou no pequeno cubículo ao lado da cozinha. Ali, ela dispunha apenas de um lugar onde pudesse dormir e um pouco de água e alimentos; o suficiente para que sobrevivesse.

Naquele minúsculo compartimento escuro e sem ventilação, Clarisse sufocava. Não podia aguentar tanta humilhação e sofrimento! O corpo entregou-se a um estado depressivo e já não tinha ânimo para beber ou comer. Estirada sobre o colchão, ela deixou-se ficar sem a menor noção do tempo que passava. Desejou a própria morte, mas nem para isso tinha mais forças.

Alguns dias depois, quando mal abria os olhos, Clarisse viu-se ardendo em febre. Voltara a sentir dores agudas e respirava com dificuldade. O ambiente gelado fazia com que tivesse acessos prolongados de tosse, o que a enfraquecia ainda mais. Queria gritar por socorro, mas estava no limite de suas resistências. O corpo já não via mais razão para viver. Por fim, seus movimentos paralisaram por completo e depois de agonizar por várias horas, à meia-noite, Clarisse morreu.

Exatamente no momento em que a mulher deu seu último suspiro, Ernesto sentou-se trêmulo e assustado na cama do hotel onde estava hospedado desde que viajara. Acabara de ter um pesadelo terrível! Suando frio e ainda meio tonto, pareceu-lhe ouvir batidas na janela do quarto. Era como se alguém tocasse o vidro com as pontas dos dedos. Seria o vento que rugia lá fora e agitava qualquer objeto por ali, provocando aquele barulho?

Levantou-se devagar e sem acender a luz encaminhou-se para a janela. Afastou a cortina e espiou. O quarto em que estava, dava fundos para um grande jardim com árvores antigas. De fato, a força do vento açoitando as folhas provocava ruídos sibilantes e formava bizarras sombras no ar. Apenas isso...

Já mais tranquilo, Ernesto cerrou a cortina. Tudo não passara de ruídos da ventania ou efeitos do pesadelo que tivera há pouco. Porém quando ia deitar-se novamente, ouviu outra vez aquelas batidas insistentes. Agora não era imaginação, escutara nitidamente. Intrigado, voltou à janela e o que viu deixou-o completamente petrificado!

Por mais que não quisesse ver, ele não conseguia desviar os olhos: lá estava Clarisse, sua mulher, debaixo da figueira! No meio da escuridão, ela se destacava vestida de branco, os cabelos louros soprados pelo vento. Aterrorizado, ele viu quando ela caminhou em sua direção. Vinha devagar, em meio a um clarão branco de luz; os braços estendidos e o rosto banhado de lágrimas.

Ernesto quis gritar, mas sentiu a garganta seca e não conseguiu soltar um único som. Parada a alguns metros da janela, a sombra luminosa da mulher cravou nele seus olhos chamejantes. Seus lábios se moviam como se quisessem dizer alguma coisa. O homem não suportou mais! Cobriu os olhos com as mãos, mas não pôde evitar os murmúrios lamuriantes que lhe chegaram pelo ar como se saíssem das profundezas:
— Agora, será você o prisioneiro, estarei sempre ao seu lado, Ernesto...

Dominado pelo pavor, o marido de Clarisse compreendeu tudo: a mulher estava morta e viera para torturá-lo. Sentiu que o ar lhe faltava e escorregou pesadamente sobre o tapete no chão do quarto. Havia desfalecido, pois não pudera com o horror que tomara conta de si. Quando horas depois recobrou os sentidos, ele teve plena consciência do que representava a horrenda visão daquela noite: nunca mais iria se livrar de Clarisse! Dali pra frente, enquanto vivesse, ela seria seu eterno tormento...
Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa -autoria de kasia derwinska  ) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

Um comentário:
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  1. Parabéns pelo belo conto que tem todos os ingredientes para ser verdadeiro. abraço

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