segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

A passageira

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Bem longe de romper o dia, ainda com as estrelas no céu, Francisco atravessava a cidade onde morava em direção à estrada que o levaria ao município vizinho. A distância percorrida por ele todos os dias era de quase cinquenta quilômetros. Tinha que sair bem cedo para abrir a loja comercial da qual era sócio, às sete em ponto.

Logo que saiu da zona urbana, próximo à curva do jatobá, ele viu a moça. Estava lá, como sempre à espera de sua carona. Como todos os dias, estava linda! O tempo estava frio e ela trajava um comprido casaco preto de gola levantada até o pescoço. Os cabelos claros, levemente soltos sobre os ombros, contrastavam com a roupa escura, acentuando ainda mais o seu ar misterioso. Calçava botas pretas de cano alto e levava debaixo do braço a inseparável sacola de couro quadriculado.

Aquela rotina já durava alguns meses. Assim que via o carro do rapaz, ela acenava com a mão fazendo sinal para que parasse. Sentava-se em silêncio no banco traseiro e punha-se a observar fixamente a estrada. Perto do rio ela saltava e, sem olhar para trás, embrenhava-se por um estreito caminho ao lado da ponte.

Francisco ficava intrigado com aquela estranha passageira que arrumara. Quem seria?! Por que faria todos os dias aquele trajeto?! Para onde iria, ali perto do rio?! Tinha vontade de perguntar-lhe sobre aquelas coisas que o deixavam curioso, mas algo nela o intimidava profundamente. Só conseguira saber que o nome dela era Luísa. No começo, até tentara fazer-lhe outras perguntas, mas ela respondia secamente, ou fingia não ouvi-lo, e ele, constrangido, desistira de travar com ela qualquer conversa.

Algumas vezes o rapaz sentira-se profundamente perturbado com a presença da linda mulher. Sempre que entrava no carro, ela trazia consigo um arzinho gelado que ele nunca sabia direito se era do frio da madrugada, ou se vinha do delicioso perfume que a impregnava. Na verdade, o moço sentia-se fascinado por aquela inusitada companheira e nunca conseguia passar por ela sem parar! Na penumbra do interior do carro, por vezes, sentado à direção, ele tentava reparar-lhe o rosto com mais atenção. Porém, ela sempre se esquivava do foco do espelho retrovisor como se adivinhasse a intenção daquele motorista curioso, com quem, já deixara bem claro, não queria qualquer tipo de conversa. Fechava-se no mais absoluto mutismo e quando chegava a sua parada, limitava-se a dizer com indiferença:
— É aqui...

Foi numa madrugada de segunda-feira que, pela primeira vez depois de muitos meses, Francisco dera pela ausência de Luísa, ali no ponto da curva do jatobá. Ele já se acostumara tanto com a moça que não pôde deixar de estranhar. O que teria acontecido para que não aparecesse? Automaticamente, diminuiu a velocidade e, mesmo vendo que ela não estava à beira da estrada, parou o carro.

O rapaz sentiu uma sensação desagradável. Olhou em volta e aguardou como se ela pudesse aparecer a qualquer momento. Estaria atrasada naquele dia? Quem sabe se esperasse mais algum tempo... Porém, de repente, achou-se num papel ridículo. Se a caroneira não tinha aparecido, azar o dela. Era só o que faltava! Ficar ali se preocupando com ela. Ligou o motor e foi embora.

E naquele dia durante todo o expediente da loja, Francisco não conseguiu concentrar-se no trabalho. Passou o dia estranhamente inquieto e quando à noite retornou a casa, percebeu que o sumiço de Luísa o tinha incomodado o tempo inteiro. E volta e meia, lá estava, buscando explicações para o desaparecimento da moça. Achou que estava dando importância demais àquela desconhecida, mas a verdade é que não conseguia tirá-la da cabeça!

Depois de uma noite maldormida, o moço, ansioso, não via a hora de pegar o carro e chegar à curva do jatobá. Sentia uma vontade esquisita de ver Luísa parada junto ao barranco, acenando-lhe com a mão e tomando lugar no banco traseiro do carro. Era como se a falta dela já interferisse em sua rotina diária. Percebeu que, sem o aceno, sem a presença e sem o perfume daquela mulher, seu dia já não era o mesmo, faltava-lhe algo essencial.

Quando o carro alcançou a curva da estrada, os olhos de Francisco procuraram avidamente pela figura de Luísa. Ardentemente, ele esperava vê-la ali, como todos os dias, mas com grande decepção, convenceu-se de que a estrada estava vazia. Parou no acostamento, olhou atentamente a sua volta e esperou, mas nada ali lembrava a presença dela! Ouviu apenas o canto da passarada que acordava a mata, anunciando os primeiros sinais da alvorada.

Os dias se passavam numa lentidão insuportável. Francisco andava inconformado. A moça de preto sumira mesmo de vez. Quem seria ela, afinal? A que se devia todo aquele mistério? Sempre que passava pela ponte, ele olhava o caminho estreito pelo qual ela se enveredava quando saltava do carro. Quem sabe, poderia descobrir algo ali, pensava ele, encorajado pelo desejo de desvendar o enigma em que estava envolvido até a cabeça.

Decidido a encontrar qualquer sinal de Luísa, certo dia o rapaz estacionou o carro à beira da rodovia e tomou o rumo da estradinha que ladeava a ponte e se estendia pelo mato. Aquela era a rota utilizada pelos pescadores. Em alguns pontos dava acesso aos barrancos do rio onde se ancoravam diversas embarcações. Porém ele seguiu pelo caminho principal, pois até ali não vira o que pudesse interessar à moça.

Depois de andar um bom trecho mato adentro, Francisco avistou um pequeno casebre de pescadores, como tantos que havia por ali. Aproximou-se e viu que estava vazio. Porém um homem de meia-idade já subia pelo barranco trazendo alguns peixes, varas de pesca e um surrado embornal de algodão pendurado às costas:
— Boa tarde, disse o pescador, depositando o que trazia sobre uma mesa rústica no avarandado do rancho. Sou Gumercindo. O senhor, quem é?
— Francisco, disse o rapaz. Gostaria de trocar algumas palavrinhas com o senhor...

O pescador descalçou as botas e mostrou ao visitante um banco de tábuas à sombra da parede. Sem mais rodeios, Francisco foi logo lhe contando sobre o motivo que o trazia ali: queria informações sobre certa moça misteriosa, de nome Luísa, que frequentemente, devia aparecer por ali. Calmamente, foi relatando toda a estória ao pescador. Conforme falava, Gumercindo o ouvia com grande interesse. Aos poucos sua fisionomia se alterava; um vinco profundo foi se formando entre suas sobrancelhas e ele balançava a cabeça como se ouvisse algo espantoso. Por fim, ao final da conversa, disse simplesmente:
— A caroneira... Dessa vez o senhor foi a vítima.
— Então, interrompeu Francisco, com uma ansiedade incontida, o que sabe sobre ela?

Gumercindo buscou fundo o ar nos pulmões e expirou demoradamente. Sabia que o que tinha a dizer deixaria chocado aquele rapaz que, percebia muito bem, estava caído de paixão por quem jamais deveria. Pediu a Francisco que se preparasse. Não ia ser fácil ouvir o que ele tinha a dizer-lhe. Mas não havia outro jeito, começou a contar:

“Há muitos anos existiu por aqui uma fazenda. O dono, rico senhor de terras, mandou construir uma casinha de escola e trouxe da cidade uma professora para que pudesse ensinar aos filhos dos colonos, trabalhadores nas lavouras. Ela era Dona Luísa, moça bonita e de grande inteligência, por quem Otávio, o filho mais velho do fazendeiro, se apaixonou perdidamente.”

“Depois de alguns anos de namoro, o casal se preparava para o casamento quando a tragédia aconteceu: numa tarde de domingo os dois pescavam às margens do rio quando o chapéu da professora, soprado pelo vento, caiu sobre as águas. O namorado, atencioso que era, se dispôs a apanhá-lo. Porém tragados pela força das correntezas, no meio da maré em turbilhão, chapéu e namorado desapareceram para sempre!”

“Com a morte do noivo, Dona Luísa entrou em completo estado de demência. Esgotados todos os recursos, a família chegou a interná-la numa casa para perturbados mentais de onde a coitadinha nunca mais saiu. Conta-se que, em pouco tempo, não resistindo à loucura, acabou morrendo. Porém nem o espírito da pobre teve sossego. De tempos em tempos ainda aparece vagando pelas imediações do rio em busca do noivo que nunca foi encontrado”.

“Muitos motoristas já deram carona à moça, da cidade até ao rio. Diz o povo que a estória é antiga e não vai ter fim enquanto as almas não conseguirem se encontrar na eternidade... É isso meu rapaz!” Francisco estava perplexo. Não sabia o que pensar daquela incrível estória. Agora já não entendia o que o atormentava mais: o medo de estar apaixonado por um fantasma ou a certeza de nunca mais encontrar Luísa, sua doce passageira do além! O que ele não sabia é que naquele exato momento certa moça loura, vestida de preto acabava de pedir carona a um rapaz, na curva do Jatobá...

Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - Pintura do artista plástico Mário Andrade) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

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