sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A casa da colina

Em frente ao grande e bem cuidado jardim, Bernardo, ao lado da esposa Olívia e do casal de filhos, acabara de posar para uma foto histórica. Sua ideia era a de fazer um amplo e vistoso retrato de família. Queria pendurá-lo na parede principal da sala de visitas da casa para onde estava se mudando naquele dia.

Depois de longos anos trabalhando num grande hospital, o médico acabara de se aposentar e tudo o que queria era viver num lugar tranquilo no meio do campo. Foi por isso que, assim que soube daquele terreno à venda ali perto do vale, e bem distante da agitação da cidade, não hesitara em fechar negócio. Aquele era o lugar ideal para a construção da casa que tinha já planejado para viver seu merecido descanso dali pra frente.

Naquela manhã, quando subia pela estradinha, ele tinha parado o carro perto do rio, ao sopé do monte que se elevava adiante, para melhor apreciar a visão de sua nova moradia. Lá no alto da colina, se destacando entre a folhagem verdejante de antigos carvalhos, o sobrado pintado de branco com suas grandes janelas se abrindo para o vale era a paisagem mais bonita que ele poderia admirar!

Tudo ali fora minuciosamente pensado, calculado e construído com riqueza de detalhes: a cancela de madeira que dava entrada para a propriedade; a extensa passarela de pedras, ladeada por ciprestes que despendiam um agradável cheiro natalino e as confortáveis varandas em estilo colonial, com seus telhados vermelhos que circundavam todo o entorno da casa.

Bernardo e Olívia estavam casados há vinte anos. Os filhos estavam numa faculdade da capital. E ali, naquele cantinho sossegado, cercados pelos ventos constantes, os ruídos da bicharada na matinha próxima e o deslumbrante panorama do vale lá embaixo, não poderiam sonhar com outra vida.

Durante toda a semana, a mudança fora feita. E agora, com os móveis arranjados, as camas estendidas com lençóis limpos e cheirosos e um delicioso cheiro de sopa quente fumegando na cozinha, a casa ganhava ares domésticos. Depois de um ano de expectativas e projetos, o casal podia enfim relaxar no aconchego do novo lar!

Alguns dias passados da mudança, numa certa manhã, Bernardo selou seu cavalo e se dispôs a cavalgar um pouco pelas imediações. Até então, não tivera ainda qualquer contato com os novos vizinhos com quem suas terras faziam divisas. Descendo as encostas da colina, deu com um pequeno sítio que já vira de longe algumas vezes. Por um caminho tortuoso e sombreado, aproximou-se da casa branca cercada por densa plantação de bananas.

Quando chegou junto à porteira que dava entrada para um pequeno curral, avistou um homem idoso sentado à varanda de frente da casa.
— Bom dia! foi logo cumprimentando. Sou o novo vizinho da casa do alto da colina.

O velho estreitou os olhos como se não o enxergasse direito e depois abriu um sorriso simpático e acolhedor:
— Opa, apeie logo, foi dizendo. Vai chegando que a casa é nossa...

Depois de amarrar o cavalo debaixo de um pé de jambo rente ao curral, o médico subiu os cinco lances em semicírculo da escada de pedra.
— Então, companheiro, disse o velho, cujo nome era Afrânio. Por fim, a mudança se fez! Tenho dado umas espiadas na construção. Ficou de dar gosto, hein?

Bernardo, já bem à vontade, bebeu de uma só vez a caneca de água fresca que o vizinho pedira para a mulher trazer da cozinha e em pouco tempo já falavam sobre tudo. Foi mais ou menos ao fim de quase uma hora de conversa que Afrânio veio com aquela indagação estapafúrdia:
— O senhor não teve medo de levantar moradia naquele terreno?

O médico, pego de surpresa, não conseguiu entender a razão da pergunta:
— Medo, e por quê?!
— Ué, então o senhor não sabe? tornou Afrânio, perplexo. Nunca lhe falaram das assombrações que rondam aqueles arredores?

Bernardo sentiu certo desconforto. Nunca ninguém lhe contara sobre tal assunto. Também, nunca tinha conversado com quem quer que fosse ali, da região...

Tomando ares de mistério, o sitiante então se dispôs a contar as estórias que corriam naquelas cercanias:

“Há muitos anos, essas terras onde o senhor levantou seu sobradinho, pertenceram a um casal de camponeses. Gente modesta e trabalhadora que vivia do cultivo da lavoura. Coisa pequena, só para garantir o próprio sustento. Pois então, tempos depois chegou ali um coronel ricaço, famoso por suas crueldades nas demandas de terra. Foi ele botar o olho no chão dos lavradores e o impasse se armou! Cismou logo com o negócio e quando soube que os donos não dispunham das terrinhas, o homem se enfureceu”.

“Para se vingar dos agricultores, pobres coitados, o coronel mandou que seus jagunços fizessem uma devassa no local. E foi a coisa mais triste do mundo! O povo das redondezas só viu quando tudo ardeu em chamas e nada pôde ser feito. Depois da tragédia, da pobre gente, só restou um monte de cinzas e alguns restos mortais enegrecidos e irreconhecíveis!”

“Dali por diante, a coisa se deu. O coronel se apossou das terras e em pouco tempo cobriu tudo por ali com suas plantações de algodão. Durante muitos e muitos anos, a tirania do danado dominou tudo. Até que um dia, apareceu com um mal incurável e em breve veio a morrer. Na falta dele, os herdeiros começaram a destruir a imensa fortuna deixada. No fim, restou mesmo só o terreno que o senhor comprou. É que o lugar tinha fama ruim por causa das assombrações, como bem lhe disse no comecinho.”

Enquanto o velho Afrânio discorria sobre os fatos do passado, o médico permanecia calado. Estava abismado com tanta coisa envolvida na história do terreno no alto da colina. Há um ano, quando o comprara através de um corretor de imóveis, jamais poderia supor qualquer coisa parecida com o que acabara de ouvir! Porém, dentre tudo que escutara uma curiosidade ainda lhe vinha:
— Muito bem, Seu Afrânio, mas e as assombrações?
— Pois é, meu filho! retomou o velho. É isso mesmo, o povo fala que é a mais pura verdade...

Bernardo não sabia se o que ouvia realmente merecia crédito, mas pelo sim, pelo não, resolveu deixar que Seu Afrânio continuasse a incrível narrativa:

“Então, contam por aí que, desde que aconteceu aquele horror de incêndio, ninguém mais teve paz por aquelas bandas. Era beirar meia-noite e começava a zoeira. Os gritos aflitos dos queimados, sobre as lavouras de algodão, indo morrer lá nos fundos do vale, desorientava quem escutasse. Uns lamentos de dar arrepio, só o senhor vendo que coisa mais triste! Muita gente jura ter visto formas humanas, acesas feito duas tochas de fogo, flutuando sobre o rio e depois mergulhando nas águas para apagarem as próprias chamas...”

O médico olhava atentamente o homem a sua frente, tentando entender o que se passava. Coitado, estaria ele já meio caduco? Imaginava aquelas coisas? Ou seria mesmo verdade que aqueles fatos tivessem acontecido por ali? Na dúvida, resolveu levar adiante a conversa interessante:
— Pois é, Seu Afrânio, e isso continua até hoje? Ainda se fala nas aparições por aqui?
— Olha, companheiro, disse o idoso, levantando o chapéu de palha e coçando a cabeça devagar, o povo, de uns tempos pra cá, não tem falado mais, não. Parece que desde que o tal coronel morreu, os fantasmas também deram na carreira.
— E o senhor, insistiu Bernardo, acha o quê?
— Acho nada, não. Eu mesmo nunca vi nada, mas também não sou de abusar de alma penada, sabe?

Bernardo estava achando tudo aquilo um tanto divertido. O vizinho era esperto. Queria deixá-lo cismado, mas ao mesmo tempo saía pelas beiradas. Estava gostando daquela figura pitoresca! Seria capaz de ficar por longas horas lhe ouvindo os causos, mas já era quase meio-dia e Olívia o esperava para o almoço.

Chegando a casa, o médico foi até o estábulo onde deixou o cavalo na cocheira. Quando voltava, avistou um automóvel parado junto à alameda principal da entrada. Tinham visitas. Quem seria? Viu um homem sentado à varanda e logo o reconheceu: era Ramiro, o fotógrafo a quem contratara os serviços no dia da mudança. Por certo ficara pronta a foto especial tirada para decorar a sala de visitas.

Quando parou junto ao rapaz, de imediato, Bernardo notou que havia algo muito estranho com ele. Com que cara esquisita ele o fitava segurando nas mãos a caixa com o retrato! Sem dizer uma só palavra, Ramiro desenrolou o papel que cobria a foto e mostrou-a ao dono da casa. Estarrecido, Bernardo olhou a imagem por alguns longos minutos. Depois, recuando alguns passos, não conteve um grito de horror. O que viu ali o deixou sem ar! Com a garganta seca, como se fosse sufocar, murmurou num gemido:
— Meu Deus! O que significa isso?

Sem deixar dúvidas, o retrato mostrava o lindo jardim da frente, Olívia e ele abraçados, tendo ao meio os dois filhos. Porém havia mais alguém, dois intrusos, numa aparição totalmente inusitada: ao fundo estava um casal trajando roupas de camponeses e velhos chapéus de palha. Envoltos num clarão de luz amarelecida, eles tinham no rosto uma expressão etérea e um olhar completamente distante e vazio.

Naquele momento Bernardo teve a mais absoluta certeza: a casa da colina jamais seria só sua. Aquele era só um aviso de que os antigos donos do lugar estavam novamente tomando posse do que sempre lhes pertencera...


Autoria de Marina Alves - Lagoa da Prata MG
Esse texto compõe o livro "Sombras e Assombrações", com 1ª Edição em 2007 e  2ª edição (revisada e ilustrada) em 2013 para participação no Microprojeto Bacia do Rio São Francisco, promovido pela Funarte e Ministério da Cultura. (ilustração nossa - Pintura do artista plástico Mário Andrade) *Os textos, alguns são inspirados na literatura oral regional,  outros em "causos" ouvidos de meus pais e avós,  outros são de  pura imaginação mesmo. Email da autora:malves.gontijo@yahoo.com.br

6 comentários:
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  1. Está linda a ilustração, Arnaldo. Parabéns ao artista plástico Mario Andrade. Obrigada pela publicação e divulgação de meu trabalho. Um abraço. Marina Alves.

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  2. Interessante, detalhes com enorme realidade, prende a atenção e deixa quem lê, pensativo, admirado.

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  3. Olá, amiga. Excelente conto como tudo o que vc escreve. Amei este passeio pelo terror. Vc é ótima e que sorte tê-la como amiga. Beijos.

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  4. Muito boa essa historinha que deve ser contada em noite de ventania, junto ao fogão de lenha com uma xícara de café bem quente para os ouvintes. Parabéns Marina, seu trabalho é maravilhoso. abraço

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