quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Pão duro

Dizem que mineiro é pão duro. Nas casas que eu ia antigamente, tinha uma mesa enorme na cozinha com várias gavetas. Uma para cada cadeira. Quando chegavam visitas, abriam as gavetas com pressa e colocavam a comida para que as visitas pensassem que já tinham feito as refeições. Muitos pensavam que era vergonha porque a comida era muito simples e tinham vergonha de mostrar.

A mesa existia mesmo e era verdade sim que colocavam a comida nas gavetas quando chegava alguém. Não era por causa das visitas ou da simplicidade da comida que faziam isso. Era por medo somente.

Boa parte dos imigrantes portugueses que vieram para Minas eram Cristãos Novos, ou seja, judeus convertidos a força para o Cristianismo. Muitos desses Cristãos Novos ainda praticavam o Judaísmo escondidos, por medo de serem identificados e denunciados à Inquisição que vigorava em toda a Europa e também na América até meados do século XIX. Por isso criavam formas de disfarçar as práticas judaicas. Guardar comida nas gavetas era uma delas. Quando um padre ou algum religioso chegava para visitar, tinha na mesa muita carne de porco que já era preparada justamente para quando aparecessem visitas. Não comiam nada, apenas ofereciam ao visitante. Diziam que já tinha feito as refeições. Todos sabem que judeu não come carne de porco. A comida Judaica, Kosher, ficava escondida nas gavetas. Quando as visitas iam embora, tiravam as comidas das gavetas e comiam normalmente. E assim iam vivendo e praticando como podiam sua religião, secretamente.

Os chamados Cristãos Novos eram muito vigiados e policiados pela comunidade. Evitavam muitas conversas sobre religião, trabalhavam muito e guardavam sempre o que ganhavam. Não existiam bancos naqueles tempos. Guardavam o que ganhavam dentro de um colchão, que era o lugar mais seguro para isso. Raramente gastavam o dinheiro que ganhavam, somente em casos de muita necessidade e urgência.

Sempre tinham ouro em pó ou bruto, guardado. Conheci um senhor, que praticava uma espécie de sincretismo judaico-católico, que tinha a boca cheia de dentes de ouro. O apelido dele era “Boca Rica”. Ele e a família misturavam crença e práticas judaicas com cristãs e por isso tinham medo de serem molestados pelos cristãos autênticos, como ele denominava os cristãos de origem e caso precisasse fugir ou sair as pressas do lugar que estavam, nem precisava levar nada. Por isso guardava toda sua riqueza na boca, lugar mais seguro, segundo ele.

Todos faziam isso por questões de segurança. Judeu ou descendentes diretos quando identificados, eram muito perseguidos e sempre tinham que fugir de um lugar para outro. Como não podiam levar muitas coisas, como bois, móveis, e outros pertences, devido às dificuldades de levar tudo, levavam apenas roupas, dinheiro e ouro. Assim, quando chegassem ao destino, já tinham como recomeçar suas vidas.

Lembro de uma história contada por parentes paternos, que são de origem judaica. Eles diziam que foram os judeus que criaram os bancos. Como eram perseguidos e muitas vezes suas comunidades eram saqueadas e queimadas, criaram uma forma de guardarem suas riquezas, sem que ninguém percebesse. Num porão de uma casa de família normal da comunidade, guardavam suas riquezas como ouro, jóias e dinheiro. Cada família tinha anotado o que guardava. O local era escolhido pela comunidade e a família da casa cuidava para que tudo transparecesse normal. A entrada para o porão era coberta por um tapete e sobre o tapete, ficava um enorme banco para disfarçar. Sentado nesse banco, ficava o responsável por guardar e anotar os pertences da comunidade. Assim ele recebeu o nome de banqueiro, conseqüentemente, o local que antes era porão, passou a se chamar banco. Assim se popularizou as duas palavras.

A fama de que mineiro guarda dinheiro no colchão, gosta de ouro e fecha a mão para gastar, veio dessas práticas dos judeus e cristãos novos.

Minha família paterna era uma dessas que mantinham algumas práticas judaicas escondidas dos olhares dos religiosos católicos.

Esse comportamento dos Cristãos Novos acabou virando tradição e foi se difundindo nas casas dos cristãos normais que passaram a fazer mesas com várias gavetas, a guardar dinheiro no colchão, ter ouro em casa e gastar o menos possível e outras práticas e tradições de origem judaica.

Mas mineiro não é pão duro e nem miserável. Nosso povo tem o prazer de receber suas visitas e por mais simples que seja sua casa, tem um enorme prazer de mostrá-la, cômodo por cômodo. Mineiro é hospitaleiro. As visitas são bem vindas, comem do bom e do melhor, sem miséria. Mesmo que haja pouca comida em casa, as visitas são tratadas como reis.


Por Arnaldo Silva
Essa e outras histórias estão no livro Doces Momentos de Arnaldo Silva. Quem quiser adquirir o livro, entre em contato pelo e-mail arnaldosilva@bdonline.com.br ou pelo whatsapp; 37 988413474
A fotografia acima não faz parte do livro. Fotografia ilustrativa - Autoria de Sérgio Mourão

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