quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O troco na vendinha da roça

Às vezes abrindo uma das gavetas no meu arquivo de memórias deparo-me com as lembranças, dos tempos passados, quando as fantasias e os sonhos foram meus aliados na árdua luta tentando driblar as dificuldades da vida, com a esperança em dias melhores. Bate-me uma saudade danada, ponho-me a recordar os fatos pitorescos que povoaram meu cotidiano na vida de roceiro.
La pelos idos anos sessenta apareceu no povoado do Picão, vindo dos confins de Bonfim o tal jaó, nome esse pertencente a um pássaro suro da nossa fauna. Suro quer dizer sem cauda. Na época ninguém recém chegado por ali, estava imune a apelidaria, que permeava as margens da água quente, nome do saudoso córrego que La existia. Com isso logo o jaó cresceu seu rabo e passou a ser chamado de pavão. Parece ter gostado da troca de apelido. Ele era um homem alto e de boa aparência, embora longe de equiparar a plumagem de um pavão, se entusiasmou com sua pose e passou a esnobar grandeza.

Se dizendo economicamente bem situado, cismou em estabelecer com uma tradicional vendinha de roça, daquelas com seu balcão de madeiras, cargas de fumo em cima, mercadorias embaladas em capangas etc. e tal. Sua decisão acabou me Trazendo preocupações, seria ele, para mim um concorrente forte, uma vez que eu dependia da minha venda, para gerir minhas despesas familiares.
Mas o sonho do pavão em voar mais alto durou pouco, ao invés de um concorrente eu quase ganhei mais um cliente. Ele veio até mim querendo saber e o forneceria para a montagem de seu comercio. Procurando, se eu teria La uma carga de fumo velho daqueles perdidos, que o vendesse mais em conta, para iniciar seu negócio. Respondi:

--Olha meu amigo esse pessoal aqui come de tudo, no que se refere à alimentação, mas cachaça e fumo só consomem coisa de primeira qualidade. Se suas pretensões é ser comerciante, melhor procurar um atacadista que te forneça. Você vir recorrer a mim que sou um vendeiro pobre pra te fornecer é com certeza pedir esmola pra dois ao mesmo tempo. Seguido meu conselho ele se estabeleceu.
Uma semana depois indo à cidade, ele deixou a venda a cargo de um vizinho, ao voltar seu funcionário improvisado havia efetuado uma venda de vários itens. Ao prestar contas, o levou até a uma parede da casa, cada figura desenhada significava a pessoa que efetuou a compra e cada risco as mercadorias vendidas.
--Não to entendo nada que você fez porque não escreveu?
--Uai ieu num sei lê nem iscrevê!
-- E porque você não me disse?
-- Ocê num mim priguntô, mandô ieu toma conta e saiu cum pressa!

No mesmo dia a tarde estava ele descarregando as mercadorias em minha casa e afirmando:
Olha vê quanto me da por este estoque não nasci pra ser comerciante de jeito nenhum, eu vendi a cachaça, o resto ninguém quis comprar, fui dar umas balas de troco para um cabra, ele num quis, disse que eu desse a ele uma cheirada de pó de fumo pra cada bala, que toda tarde quando viesse da corta de lenha, ele passaria lá para receber sua cheirada. Vê se pode cheirada de rapé no lugar de troco.

Por Geraldinho do Engenho
Escritor, poeta e comerciante no Engenho do Ribeiro, distrito de Bom Despacho MG
A imagem acima é reprodução de uma foto antiga da Venda da Passagem 1929, povoado de Bom Despacho MG. Por Arnaldo Silva 

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