quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Efeitos colaterais da mordida de Paca

Numa tarde, após terminarem o serviço na roça, os dois compadres resolveram dar umas tarrafadas no Rio Samburá. Tentariam pescar uns piaus, dourados, mandis... Chico se vira para o compadre Zé e diz:
— Nóis tamu correno risco di pescá cum tarrafa. Si a puliça florestar pega nóis...
— Pega nada, não! Tá tarde preles descê aqui na bêra do rio. Bamu pescá. Tô doido pá cumê uns pêxe frito cuns golo daquela cachacinha boa. Depois de muitas tentativas sem pegar nem lambari, Chico sentiu um peso na sua tarrafa e animado gritou ao Zé pedindo ajuda.
— Ô Cumpadi Izéeee! Tô achanu qui peguei um surubim! o trem tá um peso danado aqui. Cê vem mi ajudá! Para surpresa dos dois, não era peixe e sim uma paca enorme embaraçada na rede. Satisfeitos, pensaram logo na paca assada para a janta, porém, na tentativa de tirar a bichinha da tarrafa, e esta, enfurecida que estava, atacou o Chico. Com seus dentes afiados, furou sua mão, que começou a sangrar. Zé, preocupado, foi logo dizendo:
— Ih, cumpadi Chico, o trem tá feio! A murdida foi funda, nóis vai tê qui i na cidade, mode cê tomá varcina contra tétuno...
— Picisa não, cumpadi Izé. Isso num é nada, vombora e laincasa a muié passa arco cum arnica e o trem sara. — Óia, Cumpá Chico... Isso é pirigoso dimais da conta!... Meu finado avô, qui Deus o tenha num bão lugá, falava qui murdida desse bicho faiz um istrago danado num cabocro.
— Pirigoso, cumé?
— Uai, dizia qui uma vêiz, um tio dele foi murdidu e naquele tempo num tinha a tar varcina... E além di intrevá numa cama, o coitado num teve mais sirvintia pra quês trem cá gente faiz cum muié... o pobre passô resdavida mijano nas butina.
— Credincruiz avimaria! Num fala isso não, sô! Intão, é pió qui a morte... A Tonha mi larga! Bamu ligêro pá cidade, cumpá Izé! Pegaram os cavalos e foram até a cidade, onde se dirigiram ao posto de saúde. o Zé entrou na frente para explicar o causo para a enfermeira, enquanto Chico, com a mão cada vez mais inchada, ficou na sala de espera.
— Conta como foi isso, Seu Chico... disse a enfermeira, assim que ele entrou na sala de curativos.
— Ah, dotôra... Ieu tava nu chiquêro tratano duma poica cuns leitãozim novo, condo di repente ela vêi ni mim e lascô uma dentada na minha mão.
— Foi assim memo, ieu tava junto c’uele e vi tudo!
— Tá feio esse corte, nem está parecendo mordida de porca, êta bicho dos dentes afiados, sô! Isso me parece mais uma mordida de paca, mas paca é proibido caçar, se a polícia pega, o camarada vai preso na hora!
— disse a moça em um tom meio irônico, piscando um olho para o Zé. Chico, que já era meio gago, fez uma careta de dor enquanto se fazia o curativo e afirmou com voz fraca:
— É muidida de poica, dotôra... Pó criditá ni nóis.
— olha aqui, Seu Francisco, vou ser franca com o senhor! o trem tá feio, vou terminar o curativo e depois fazer uma vacina contra mordida de suínos. Ainda bem que foi mordida de porca, porque se fosse de paca seria muito perigoso.
— Só pá sabê... o quê qui a muidida de paca faiz cá gente, dotôra...? Mata?
— Matar não mata, não, mas dependendo do caso pode até entrevar a pessoa, ou na pior das hipóteses causar a perda da potência sexual em pessoas do sexo masculino.
— Ieu num falei procê, cumpá Chico? Conteceu cum tio meu, perdeu a macheza pu resdavida...
— Deusmelivreguarde! Issu não... Issu não!
— Não se preocupe, no caso do senhor não há risco, porque foi mordido por uma porca e não por uma paca. Vou lhe fazer uma vacina contra mordida de porca.
— A sinhora tem varcina di paca aqui, tamém?
— Tenho sim, mas o senhor não disse que foi porca? olhando de novo para o amigo que fazia a cara mais séria do mundo, ante a ingenuidade do compadre, Chico completou:
— É... Foi poica... Foi muidida de poica memo... Poica iscumungada aquela, sô! Vô cabá cá raça dela condo chega in casa... Após o curativo na mão do Chico, a enfermeira do posto de saúde veio com a vacina antitetânica na seringa já pronta para aplicação. Com a cara mais profissional possível disse:
— Prepara o braço, vou aplicar. Chico tremia feito vara verde e estava a ponto de passar mal.
— É a de poico?
— É sim. Dói menos que a de paca, confirmou a moça com um olhar cúmplice para o Zé. Quando a enfermeira se aproximou com a seringa e passou o algodão com álcool no braço do Chico, ele não se conteve e gritou:
— Pelamordedeus! Pó pará dotôra! Pó pará!
— O que está acontecendo, Seu Chico? Não quer tomar a vacina contra mordida de suínos? Então não foi uma porca que mordeu o senhor?
— Não, dotôra! Ieu num quéio essa, não sinhora. Podi mi apricá a injeção pru veneno de paca! E ainda amedrontado e trêmulo, olhou para a enfermeira. Achou forças no fundo da alma e disse no tom mais alto que conseguiu.
— PODI APRICÁ A DE PACA... MAI QUI FOI POICA, FOI!


Por Maria Mineira
*Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro:“Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra” de Maria Mineira. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo facebook ou pelo e-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br

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