domingo, 3 de dezembro de 2017

Conheça as histórias de fantasmas que povoam o imaginário de Belo Horizonte

Sala História de BH, no Memorial Minas Gerais, onde o visitante pode assistir a vídeo sobre as assombrações da cidade(foto: Beto Novaes/EM/DA Press)
Você já viu uma mulher de branco caminhando, sem destino, pelas ruas de Belo Horizonte? Ou então, na calada da noite fria, um homem de terno vagando pela Lagoinha? Se não, pense bem e responda: conhece a Maria Papuda?. Bem, em tempos de fantasmas de carne e osso por todo lado, não custa nada conhecer mais sobre a história de Belo Horizonte, prestes a completar 120 anos, e saber, que, ao longo dos séculos, “figuras do outro mundo” assombram o imaginário popular e ainda fazem os cabelos de muita gente arrepiar.

De tão interessada no assunto, a professora de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Heloísa Starling se dedicou às pesquisas e planeja lançar futuramente um livro, já que, nos estudos, verificou ser possível entender melhor a forma de sociabilidade por meio das histórias de fantasmas. Heloísa lembra que o escritor Gilberto Freyre (1900-1987) construiu a história da capital pernambucana nas páginas de Assombrações do Recife Velho, o mesmo fazendo Mário de Andrade (1893-1945) em São Paulo. Na Inglaterra, famosa pelos seus fantasmas, o tema também virou obra literária (Phantoms) e o Rio de Janeiro segue essa trilha do além.

Mas os fantasmas de BH têm uma natureza singular, garante a professora. “Não revelam aos vivos a cartografia dos lugares privados. Não assombram casas, não têm nome de família. São o exato oposto das aparições que permitiram a Freyre construir sua história de Recife ou das aparições que permitiram a Mário de Andrade refletir sobre os laços de coesão de grupos sociais no interior da dinâmica cultural urbana da cidade de São Paulo.”

Lançando um olhar sobre os primórdios de BH, a pesquisadora conta que a comissão construtora da nova capital sonhou criar uma cidade sem marca de passado. “Nos 100 anos seguintes, Belo Horizonte foi apagando, de maneira compulsiva, os vestígios do tempo – na cidade imaginada pela República de 1889, tudo haveria de ser sempre novo e seus habitantes ainda parecem se condenar à dialética da destruição e da contínua renovação.” E mais: “Nenhuma capital brasileira tem destruído tanto, de maneira tão sistemática e com tamanha regularidade, a natureza, a forma e o caráter de seus lugares públicos. Da mesma maneira, nenhuma outra capital parece ter instalado, desde sua origem, um processo tão rotineiro de transformação, degeneração e mudança do espaço urbano, que, no limite, impede à cidade acumular memória. Foi então que apareceram os fantasmas”.

AMBIENTE No Memorial Minas Gerais Vale, no Circuito Cultural Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul de BH, moradores e visitantes podem entrar nesse universo mágico e fantasmagórico. A sala História de Belo Horizonte, com registros fotográficos dos primeiros tempos, exibe um vídeo com duração de 10 minutos citando os “principais” fantasmas. O educador Henrique Bedetti explica que são enfocados apenas os de antigamente, sem menção aos mais recentes, como o Capeta do Vilarinho ou a Loira do Bonfim.

Acompanhada do pai, José Luiz da Silva, a paranaense Eleíne Gonzaga Sahade, casada e residente em BH, diz que já foi várias vezes ao memorial e viu o vídeo outras tantas: “Fiquei um pouco com medo, pois meu marido, de brincadeira, trancou a porta”. Já o casal de turistas gaúchos de Caxias do Sul Agnaldo Reinaldo e Karina de Paula gostou de conhecer mais sobre a história da capital que visitam pela primeira vez. E os baianos Jaime Almeida, advogado, e Maria de Lourdes Sampaio elogiaram a valorização da “mitologia” urbana e o ilimitado imaginário popular.

MEDO NA CIDADE
VELHOS FANTASMAS
Fantasma do Bairro da Serra
(foto: Lelis/Arte EM)
Cumpre seu destino, pontualmente, à meia-noite e trinta do mês de junho, na Rua do Ouro, quase na esquina da Avenida do Contorno. Um cavalheiro de terno preto e guarda-chuva, imóvel, na rua. Talvez um dos funcionários públicos anônimos do começo da história de Belo Horizonte. O lugar da aparição marca também uma das margens originais de onde principiava a zona suburbana da capital. No Bairro da Serra, se refugiaram despossuídos de toda espécie, parte significativa dos milhares de operários da construção civil vagando, depois de erguida a capital, sem trabalho – destino semelhante ao dos burocratas foi o esquecimento, a escuridão da noite, vazio, o ilimitado do espaço urbano. 

Moça Fantasma
(foto: Lelis/Arte EM)
Mais romântica das personagens dessa história de fantasmas que povoava o imaginário dos antigos moradores de Belo Horizonte. A aparição desce a Serra do Curral até a Savassi, na Região Centro-Sul, para encontrar amores perdidos. E como saber dessa aparição? Tremei, pois aí vai a resposta: “Você sabe que vai vê-la porque sente um perfume de dama-da-noite no ar”. No vídeo do Memorial Minas Gerais Vale, a história da Moça Fantasma chega de forma curiosa, com direito a efeitos visuais. Se a luz apagar, não foi problema com a rede elétrica. Foi ela...

Avantesma da Lagoinha
(foto: Lelis/Arte EM)

Um senhor vestido todo de preto, mas sem traço de rosto ou feição. Ao contrário de seu similar da Serra, o Avantesma da Lagoinha é uma aparição disforme, excêntrica, cruel, que exala vago cheiro de enxofre e chora um choro convulsivo. Antigamente, costumava descarrilar bondes sentando-se, imóvel, entre os trilhos. Talvez porque lhe pareça necessário revelar os rastros e a presença de uma gente submetida por muito tempo ao princípio de segregação física e espacial que orientou o projeto original de construção da nova capital. O Bairro da Lagoinha serviu de primeiro refúgio para boa parte da população pobre de Belo Horizonte construir suas cafuas e barracos. Hoje, o Avantesma da Lagoinha ainda se pendura pelas bordas do complexo de viadutos que se esparrama em direção à Pampulha.

NOVOS FANTASMAS
Capeta do Vilarinho
(foto: Lelis/Arte EM)
Lenda urbana da década de 1980 que fez tremer muito garotão. E meninas também. A história teve origem na Avenida Vilarinho, artéria principal da região de Venda Nova. Por volta de 1982, pipocavam forrós e bailões nessa área da cidade. Contam que, numa quadra de baile popular, houve um concurso de dança e um homem desconhecido e de chapéu decidiu participar. E ganhar. Ao tirar o chapéu para comemorar a vitória, o misterioso deixou à mostra dois chifres no meio da testa. O local entrou em ebulição e o desconhecido sumiu no mapa. O certo mesmo é que, passado tanto tempo, ninguém se esquece do caso, que vai ganhando detalhes e muitas outras versões. Afinal, “quem conta um conto aumenta um ponto”, conforme diz a sabedoria popular.

Maria Papuda
(foto: Lelis/Arte EM)
Duas personagens com o mesmo nome e apelido: a Maria Papuda que morava no último casebre do Arraial de Curral del-Rei, sobre o qual foi construída a nova capital – e amaldiçoa a cidade; e a outra, que morava onde hoje está o Palácio da Liberdade. Contam que Maria Papuda também expulsou os velhos, os pobres, os loucos, as mulheres, os doentes de bócio, enfim, todos os moradores do velho arraial. E mais: no Palácio da Liberdade, aparecia ao governador e esse, para quem ela aparecia, morria. Ao que parece, já matou quatro:
Silviano Brandão (1902); João Pinheiro (1908); Raul Soares (1924) e Olegário Maciel (1933). Talvez esse fato explique por que Juscelino Kubitschek, Israel Pinheiro, Tancredo Neves e Itamar Franco se recusavam terminantemente a ficar no palácio depois que anoitecia.

Loira do Bonfim
(foto: Lelis/Arte EM)
Para dar um clima bem retrô à história, os mais velhos preferem se lembrar da Loira do Bonfim, em vez de Loura. O fantasma dessa alma penada começou a assombrar por volta das décadas de 1940 e 1950. Ela aparecia por volta das duas horas da madrugada, sempre vestindo roupas brancas, se insinuando para os boêmios de plantão que aguardavam o bonde no ponto diante de uma drogaria, no Centro da cidade. A mulher dizia que morava no Bonfim e estava a fim de um programa, mas, quando alguém se interessava, ela o levava para o cemitério do bairro, que é o mais antigo da capital. O problema é que desaparecia ao chegar ao chamado campo santo. Como às vezes a criatura preferia chamar um táxi, os motoristas desses veículos de aluguel, além dos motorneiros e condutores dos bondes, passaram a não aceitar a escala de trabalho no horário noturno.

Fontes: Professora Heloísa Starling, Memorial Minas Gerais Vale e pesquisa EM
Jornal O Estado de Minas/Portal Uai
Link original:https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2017/12/03/interna_gerais,921537/conheca-as-historias-de-fantasmas-que-povoam-o-imaginario-de-bh.shtml

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