quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Alma penada



Jardineira estacionada no Centro de Bom Despacho. Milhares de bom-despachenses viajaram pelas estradas 
de Bom Despacho nessa velha jardineira. (fotografia do arquivo pessoal de Arnaldo Silva)
Nos idos do século passado pela década de cinqüenta, a viajem do Engenho a Bom Despacho levava cerca de hora e meia a duas horas, na famosa jardineira. Isso se as condições do tempo permitissem. Em dias chuvosos era uma verdadeira maratona o veiculo atolando nos lamaçais e crateras provocadas pela erosão, em estradas cortadas por carros de boi.

Tanto a medicina como os demais seguimentos sociais engatinhavam ao meio dos amarfanhados e tortuosos caminhos do primitivismo. Uma simples cirurgia de apendicite era motivo de temor causando pânico e comentários negativos. De fato houve alguns insucessos que levaram a morte muitas pessoas, não por culpa dos médicos, mas, por falta de conhecimentos da própria população que na maioria dos casos procuravam o médico já quando não havia mais nada a se fazer. 


Acometida por uma crise aguda, minha mãe teve que se submeter a uma operação, como dizia o linguajar da época. Sua irmã mais velha, minha tia, uma mulher de fibra a acompanhou durante o período de convalescência. Esta tia e eu, permanecemos por três semanas hospedamos em uma casa mantida na cidade por meu avô, para estas ocasiões. Enquanto isso minhas três irmãs e dois irmãos abaixo de mim ficaram na casa da tia sendo cuidados pelas primas que já eram adultas.

Bom Despacho na época era uma pequena cidade com características de aldeia sem nenhuma poluição sonora. Aonde reinava paz e tranquilidade, lembro-me dos embrulhos de pães nas janelas das residências deixados pelos padeiros que faziam as entregas em domicílios pelas madrugadas, muitos moradores mantinham pregos nas janelas na maioria de madeira, onde os embrulhos amarrados de cordão eram dependurados. 

O ranger de rodas das carroças e o canto dolente dos carros de boi abastecendo as residências de lenha a ser consumida pelos seus fogões, faziam parte da musicalidade do ambiente misturando-se com os gritos dos: jornaleiros, verdureiros, leiteiros e outros tantos similares que propagavam seus produtos pelas ruas, em sua maioria crianças como eu que na época tinha entre oito e nove anos de idade. Um cenário sadio e acolhedor nem mesmo a palavra droga era conhecida.

Após uma temporada internada na Santa Casa mamãe teve alta e retornamos ao Engenho. Encontramos minhas irmãs e as primas, apavoradas. Por três noites seguidas elas ouviram uma voz de mulher no entorno da casa tentando pronunciar uma oração ao mesmo tempo em que se lamentava e chorava em seguida.
Contou ao tio, ele zombou dizendo que deveria ser os gatos que estavam namorando durante a noite. Na noite seguinte enquanto todos dormiam foi à vez dele ouvir os lamentos implorando perdão.
Assim que minha mãe tomou conhecimento do fato, disse logo a tia saber de quem se tratava. Era uma idosa que havia falecido fazia pouco tempo. Em vida tivera ela, língua solta e comentava sempre a moral da vida alheia. Falou coisas absurdas e infundadas da tia, injustamente.

-Você deve perdoá-la porque com certeza é ela, e está precisando do seu perdão, assim afirmou minha mãe. – Que nada; isso é impressão das meninas e de meu marido, deve ser medo, apenas isso.

A noite seguinte em sua residência, todos dormindo menos ela. Lá pelas tantas já de madrugada começou no entorno da casa os lamentos e pedidos de perdão se misturando com oração e choro. Eis que De repente a voz já dentro da sala rezava e pedia perdão. 

De seu quarto a tia com muita coragem perguntou se era tal pessoa, ela respondeu que sim e que precisava de perdão. -Pode ir em paz você! Embora eu não saiba do que se trata, mas, tem o meu perdão e vá para onde Deus determinar. E assim a claridade morteira azulada que segundo a tia alumiava toda a residência deu lugar à escuridão silenciando o ambiente.

No dia seguinte era domingo dia de missa na comunidade, após a missa como de costume, reunida com os irmãos, na casa de minha avó materna a tia comentou o fato ocorrido. Meu tio um adolescente de quinze anos meio rebelde perguntou: - e você perdoou esta linguaruda? –Perdoei sim não é isso que Jesus ensinou? Ah eu não a perdoaria, quando se está viva fica por ai com uma língua de metro e meio falando o que não deve levantando falso nos outros, agora que se queime no quinto dos infernos! Minha avó ao ouvir o repreendeu:- filho...! Filho, bate na boca não fale assim!- Que nada esta língua de trapo tem mesmo é que se queimar nos infernos!

A casa de vovó era muito simples, apertadinha, tinha uma pequena copa onde o tio dormia num pequeno corredor a porta de um quarto onde vovó dormia, defronte outra porta que saia para a sala, um quarto saindo na copa onde dormia minha bisavó que estava com quase cem anos, dependendo de cuidados, uma lamparina permanecia acesa a noite inteira sobre um guarda roupas. Naquela noite todos dormiram menos o tio, La pra meia noite apareceu um besouro voando na copa deu muitos voos rasante sobre o seu leito entrou no quarto da bisavó bateu na lamparina apagando-a e escuridão foi total. Poucos segundos após, ele ouviu alguém mexendo na lenha que estava num canto da cozinha, De repente um claro meio embasado esverdeado tomou a copa, ele tentou gritar a voz não saia, tentava fechar os olhos não conseguia. Era a velha com um pau de lenha armado para ele de cara feia ameaçando descer o porrete, foi passando vagarosamente à beira de sua cama de costas para a parede até chegar ao corredor virou-se entrando de costas na sala. Não lhe deu as costas em nenhum momento, quando sumiu no corredor a escuridão foi total, ele soltou um berro que acordou vó bisavó e a todos que dormia inclusive os vizinhos da casa ao lado. Uma moça que cuidava da bisavó teve que trocar com ele a cama, o resto da noite e muitas outras dormiram no quarto de sua mãe, aos seus pés. Foi uma boa lição para sua rebeldia.

Por Geraldinho do Engenho
Escritor, poeta e comerciante no Engenho do Ribeiro, distrito de Bom Despacho MG.

Um comentário:
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  1. Esses causos, contados muitas vezes, a beira do fogão a lenha, ou de um fogueira no quintal em noites frias dessa nossa Minas Gerais,eram e ainda são constantes, pelo interior, fazem a alegria e o terror de quantos ouvem.São contados de boca em boca por gerações, e perdem fiapos e ganham outro tanto com o conta um conto e ganha um ponto.gosto muito.

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