Comunidade salva igreja de Catas Altas da Noruega

Fotografia de Pedro Henrique
Quem entra na Igreja Matriz de São Gonçalo do Amarante, construída em 1726, não consegue ter ideia de toda a sua beleza e importância para o patrimônio de Minas. As tábuas estão despregadas do chão, mostrando a terra nua, os altares ainda escondem a riqueza artística e camadas de tinta escura escondem as cores originais das talhas. Mas o cenário não é fruto de desmazelo ou descaso – pelo contrário. Há oito meses, a comunidade local, sob o comando da paróquia e em parceria com a prefeitura, arregaçou as mangas e deu início à restauração do bem maior de Catas Altas da Noruega, no circuito da Estrada Real, a 142 quilômetros de Belo Horizonte e a 49 quilômetros de Conselheiro Lafaiete.
Fotografia de Pedro Henrique
Para obter mais recursos, além dos destinados pela prefeitura, os moradores promovem barraquinhas de comidas e bebidas, arrecadam dinheiro em leilões de prendas e assados, passam o chapéu nas festas, enfim, fazem das tripas coração. Tanto empenho é para salvar o templo católico, tombado pelo município, de décadas de infiltrações, ataque de cupins, rachaduras e outros males que levaram ao fechamento da matriz no ano passado. Desde então, todas as cerimônias são realizadas na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, também no Centro. Algumas das piores marcas da agressão ao prédio ocorreram na década de 1940. “Na tentativa de tirar a ostentação dos elementos artísticos, os padres mandaram pintar o interior da igreja, escondendo os afrescos originais. Agora, com a obra, vamos recuperar esse tesouro e mostrá-lo à comunidade”, diz o prefeito Giovane Lobo Neiva (PR), que estuda a história da cidade e, nessa cruzada de defesa da matriz, trabalha em parceria com o titular da paróquia, padre Orione Silva, com acompanhamento do Conselho Municipal do Patrimônio, de uma equipe especializada de engenheiro e arquiteto.

Além dos elementos artísticos, o projeto contempla a estrutura e a cobertura da igreja. A expectativa é de que até o fim do ano o telhado esteja concluído, dando-se início aos elementos artísticos. “Há detalhes muito próprios da igreja.
Fotografia de Pedro Henrique
No altar da Paixão de Cristo, o artista entalhou a cena da mão de Judas com o saco de dinheiro”, conta Giovane, que também lamenta o furto de imagens na igreja, o mais recente em 1998. Durante os atuais serviços, todas as peças sacras foram retiradas dos altares e guardadas em segurança. Com a obra, é possível ver, em cada canto, elementos da estrutura da igreja, construída em pedra sobre pedra. No interior, estão as peças de braúna, que atuam como esteios e resistem bravamente aos caprichos do tempo e à falta de intervenções permanentes para evitar a degradação. Há também mobiliário sacro, como um arcaz de 1765, e uma essa de madeira, estrado usado em cerimônias fúnebres. “Temos 18 capelas, sendo cinco do século 18, entre elas a de Nossa Senhora dos Remédios, de 1752. A comunidade está firme na campanha Protegendo nossos passos, que promove a recuperação das capelas de Santo Antônio, de Nossa Senhora do Livramento e do Senhor do Bonfim, na área urbana, e termina a obra na de São Vicente Ferrer, na zona rural”, diz o prefeito.
Fotografia de Pedro Henrique
Dois padroeiros Santo natural da região do Minho, no Norte de Portugal, São Gonçalo do Amarante é o padroeiro de Catas Altas da Noruega, honra que divide com Nossa Senhora das Graças.

A devoção ao primeiro começou no século 18, com os primeiros colonizadores e bandeirantes que chegaram à região incrustada nas montanhas da Região Central de Minas. Já a segunda é mais recente, data de 1959, quando uma imagem da santa foi lançada de um avião de carga que fazia a rota Rio de Janeiro-Belém.

Na tentativa de tornar a aeronave mais leve e conseguir planar, os pilotos se livraram das caixas a bordo, inclusive a imagem que caiu na zona rural e se tornou, desde então, objeto de culto da população.

Reportagem de Gustavo Werneck
Jornal Estado de Minas/Portal Uai - www.uai.com.br
Fotos são atuais e inserções nossa.

NOTA: As obras foram paralisadas e retomadas em 2015.
Catas Altas da Noruega está a 142 km de Belo Horizonte. Sua população estimada em 2016 era de 3 652 habitantes. Apesar do nome semelhante e da proximidade geográfica, é diferente de Catas Altas, outro município mineiro.

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