segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A pacata São Bartolomeu

 São Bartolomeu (na foto acima de Rotizen L. Reggiani) é um minúsculo distrito de Ouro Preto localizado a 13 km do trevo de acesso a Mariana. Outra opção para chegar ao vilarejo é através de Cachoeira do Campo em trajeto de 10 km. Ambas as estradas são de terra, mas em boas condições.
O distrito possui uma tranquilidade rara de se encontrar nos dias de hoje. (na foto ao lado, Dona Serma na cozinha de sua casa. Fotografia de Rusty Marcellini) Há uma igrejinha em cima de um morro, outra no meio da rua principal, um boteco que só abre no final da tarde, uma pequena mercearia e um posto de saúde que funciona às segundas e quartas. Ao redor destes marcos, descansam casas coloniais bem cuidadas. Em dias úteis, é possível passear pela rua principal sem cruzar com uma única pessoa. Porém, basta chegar um carro para os moradores abrirem as janelas de madeira e espiar o porquê do movimento inesperado.


Mas como esta coluna é sobre gastronomia e não sobre cidadezinhas desertas, saiba que São Bartolomeu possui uma iguaria que é tombada como patrimônio imaterial de Ouro Preto: doces em barra. (Fotografia ao lado de Rusty Marcellini)

As pacatas casas escondem doceiros que exercem o ofício há décadas. Muitos deles aprenderam a fazer o doce com o pai. Que, por sinal, aprendeu com o avô, que aprendeu com o bisavô, e assim por diante até voltar à época de Dom João. E tudo é preparado como antigamente: em imensos tachos de cobre sobre fornalha de lenha.

Acompanhar o doce de leite ou a goiabada sendo feito como há 200 anos é um privilégio imensurável. (Fotografia ao lado de Rusty Marcellini) 
O ambiente se enche de fumaça. O aroma do doce preenche o ambiente. O doceiro mexe o tacho com uma técnica de fazer inveja a chefs estrelados. E ainda tem o bater do doce para resfriá-lo, despertando um som oco que é escutado há centenas de metros de distância. É o sinal para as crianças correrem até o local e implorarem para raspar o tacho.
Na casa de Dona Serma e Seu Vicente, o visitante pode tanto comprar pessegadas quanto marcar a data do casamento, pois o local funciona como fabriqueta de doces e cartório. Na loja de doces, em uma das salas da casa, há goiabada cascão, goiabada mole, doce de leite em barra, doce de leite pastoso, bananada, doce de pêssego verde, de limão capeta, de laranja, entre outros. (Fotografia ao lado de Rusty Marcellini)

Em Belo Horizonte, os doces em barra de São Bartolomeu são encontrados no Laticínios Irmãos Costa, no Mercado Central. Outro opção para comprá-los é na Mercearia Paraopeba, no centro de Itabirito. Mas o ideal mesmo é adquiri-los in loco. Ah, e caso queira dormir neste simpático distrito, recomendo a pousadinha São Bartolomeu (http://saobartolomeu.com), que é bem aconchegante; sem TV, mas com quartos limpinhos e bem cuidados.
Outra recomendação que faço é que a ida à casa de Dona Serma e Seu Vicente seja em horário próximo ao do almoço. Mas não pense que é só chegar e ir anunciando que a barriga está roncando. É preciso telefonar antes para a Dona Serma (31-3551-0930) e avisar que gostaria de saborear sua comidinha caseira feita e servida no fogão á lenha. Comunico que ela só gosta de receber grupos pequenos de, no máximo, seis pessoas. Da última vez que lá estive, me deliciei com arroz, feijão batido, angu, folhas de mostarda refogadas, torresmo, mandioca, ovo caipira frito e carne de porco com umbigo de banana. Tinha ainda suco de goiaba ou de limão capeta e, de sobremesa, musse de goiaba e/ou goiabada com queijo. Huuuummm…. Fico com água na boca só de lembrar.
(Na foto acima, além da goiabada, São Bartolomeu tem tradição em quitandas mineiras, principalmente pão de Queijo. Já experimentou Pão de Queijo  com Goiabada? Foto:Rusty Marcellini)


Texto e fotos de Rusty Marcellini (exceto primeira foto)
Publicado no Jornal O Tempo 
Link:http://www.otempo.com.br/opini%C3%A3o/rusty-marcellini/a-pacata-s%C3%A3o-bartolomeu-1.945

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