Você sabe andar a cavalo?

Pintura do artista plástico José Rosário - Dionísio MG
" Eu nasci na roça, me criei na roça, pulei fogueiras, trepei e balanciei em árvores e cipós; nadei em córregos e riachos, cacei passarinhos (há como me arrependo), armei arapucas e vi muitos céus estrelados, enluarados e até vi a estrela Dalva brilhar no amanhecer.

Já corri de tempestade de granizos que retorciam e arrancava árvores pela raiz; já bebi escondido uma forte e boa cachaça; enrolei e tentei pitar um oito de paia; Sou rústico, bruto e sistemático, mas educado nas antigas. 

Peço bença aos pais, padrinhos e tios, respeito os mais velhos, gosto de uma prosa ao pé do fogão e adoro moda de viola cabocla.
Vi até a famosa "luz" serpenterar sobre antigas gameleiras, comi lambaris recém pescados torrados, chupei jabuticaba nos pés; catei gabiroba e mangaba no mato; já chupei Bacopari e algodãosinho doce; já comi azedinha e experimentei o fruto do jatobá e sujei os labios; já bebi leite fresquinho tirado na hora; já comi manga verde com sal e misturei manga com leite e morri de medo de morrer; já nadei em riacho pelado, joguei pedras de estilingue; fui picado por abelhas europa e marimbondos chapéu e "mosquitinho" ; já tive os cabelos emaranhados por arapuás; já engoli lambari vivo para aprender a nadar; ajudei a matar e arrumar porco, fazer lingüiça e comi torresmo quentinho; já fiz e comi "lingüiça de vento"; já assei milho no borralho do fogão de lenha e fui ceduzido pelo irresistível e convidativo aroma de cubu recém assado; já tomei coalhada com açúcar e leite com farinha (de milho e de mandioca); já rezei o terço nas festas juninas, ajudei a fazer quitandas e quitutes para a festa de São João; pisei em espinhos, tive impinja, fui benzido disto, de cobreiro, mau olhado e vento virado; já ralei o dedo no ralo de mandioca fazendo farinha; já quebrei milho seco, casquei e debulhei para porcos e galinhas; já corri atrás de frango para o almoço de domingo; já segui galinha d'angola para encontrar o ninho (eita bicho "veiaco"): já fui mordido por carrapatos, mosquito "porva" e murissocas; peguei vaga-lumes, peguei bicho do pé, tive "Perebas" nas pernas e corri na enxurrada. 

O que acha? Ando ou não a cavalo?"

Inspirado hoje, num post do amigo artista plástico Mário Andrade.
Em um post recente do amigo Fernando José Cardoso, ele me questionou se eu sabia andar a cavalo. A resposta, de "bate-pronto", singela e extremamente real e verdadeira denota nostalgia e extremo saudosismo, e aqui divido com todos, pois, na minha humildade, a entendi como carregada de ironia e lirismo. Por Djalma Pinto)

Pintura de José Rosário

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