sexta-feira, 2 de junho de 2017

Conheça a história da mineira Carolina de Jesus, uma das mais importantes escritoras brasileiras

As anotações do cotidiano, feitas por Carolina Maria de Jesus em seu barracão numa favela de São Paulo, acabaram originando uma das principais obras da literatura brasileira: Quarto de Despejo
(foto: Audálio Dantas/O Cruzeiro/EM/D.A Press)
Contemporânea a grandes nomes da literatura brasileira, como Cecília Meireles, Clarice Lispector e Raquel de Queiroz, a escritora mineira Carolina Maria de Jesus não tem o mesmo glamour das autoras citadas, porém, isso não a torna menos importante. A pobreza e a falta de escolaridade não foram barreiras para que a ex-moradora de Sacramento, no Alto Paranaíba, transformasse os dramas vividos na favela de Canindé, na cidade de São Paulo, em uma obra que viria a romper as fronteiras do país. Em 2017, são lembrados os 40 anos da morte de uma das principais escritoras negras do Brasil, autora do clássico Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada.

Os diários de Carolina de Jesus foram descobertos no final da década de 1950, quando ela já morava na favela que fica na zona norte da capital paulista, e trabalhava como catadora de material reciclável. A escritora registrava o cotidiano da comunidade em cadernos que encontrava no lixo. Os relatos saíram dos armários de seu barracão quando o jornalista Audálio Dantas foi fazer uma reportagem na comunidade e acabou conhecendo e se interessando pela história de Carolina.

Parte do material foi publicado em 1958 em uma edição do grupo Folha de S.Paulo e, no ano seguinte, na revista O Cruzeiro. O jornalista selecionou os trechos mais importantes, mas manteve todo o texto no original, da maneira como foi escrito, preservando, inclusive, os erros gramaticais. Quarto de um Despejo foi publicado em 1960. Posteriormente, outras três edições foram lançadas, totalizando 100 mil exemplares vendidos, além de ganhar tradução para 13 idiomas e ser comercializado em mais de 40 países.

A obra da mineira, que passou grande parte de sua vida em São Paulo, estabelece uma metáfora, retratando as condições de desigualdade social vivida pela própria autora. "Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trechos", diz uma parte do livro. Já o centro da cidade, para Carolina Maria de Jesus, é uma espécie de "sala de visitas". Apesar da realidade dura da favela, a escritora autoditada nunca se conformou com as práticas erradas. Ela ameaçava registrá-las no livro, o que gerou um certo mal-estar com alguns moradores da comunidade.

A personalidade forte era uma das marcas da mineira, conforme relata a psicóloga Maria Madalena Magnabosco, conterrânea de Carolina, que desenvolveu uma tese de doutorado sobre a vida da autora. "Ela exercia um papel de denúncia e não guardava resposta para depois. Era uma pessoa que estava o tempo todo denunciando algumas questões e, isso, provavelmente, fazia com que algumas pessoas não gostassem tanto dela", comenta Madalena.

A psicóloga decidiu estudar sobre a vida da escritora porque não se conformava com o fato da própria cidade de Sacramento não reconhecer o valor desta grande mulher. "Meu objetivo era devolver Carolina a Sacramento, porque ela foi muito discriminada, assim como sua família. Meu intuito era fazer com que a própria cidade reconhecesse os erros que cometeu em relação a Carolina de Jesus", revela Maria Madalena Magnabosco. Segundo ela, o esforço foi recompensado. Hoje, o município do Alto Paranaíba possui até escolas com o nome da escritora e realiza eventos para lembrar a importância da ex-moradora ilustre.

Leitura obrigatória
A principal obra de Carolina de Jesus estará presente nos vestibulares de duas grandes instituições de ensino superior do Brasil: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada foi inserido na lista obrigatória de leitura.


Por Vinícius Andrade - Jornal O Estado de Minas/Portal Uai
Link da matéria:http://www.revistaencontro.com.br/canal/encontro-indica/2017/06/mulher-negra-e-favelada-conheca-a-historia-de-uma-das-mais-important.html

3 comentários:
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  1. Década de 50 e catava material reciclável? há algum erro histórico nessa reportagem. A reciclagem só passou a existir décadas depois.

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    1. O termo "material reciclável" pode ser novo, mas o lixo sempre foi fonte de renda e sustento de milhares de pessoas a décadas, senão séculos... Desde sempre do lixo se tirava comida para subsistência e ferro, vidro, coisas vendáveis para se arrecadar alguns trocados.

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  2. Na década de 50,muitas pessoas já viviam dos restos da sociedade sim,sêo moço! Seja para reaproveitamento próprio ou mesmo para venda como sucata,ferro velho,etc...atente-se.

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