terça-feira, 2 de maio de 2017

Mulher Mineira

"Gostaria muito de poder encontrar palavras para poder dizer do orgulho que sinto de ser mineiro. Meus pais não poderiam me dar um presente melhor. Se existir uma outra vida, quero nascer mineiro de novo. Mas tem uma coisa melhor que eu gosto mais do que ser mineiro: é namorar as mineiras.

Mineira não usa perfume e cheira gostoso demais. O jeito irresistível que a mineira tem para conversar no portão, sem encarar nos olhos e mexendo com os botões da nossa camisa é que nos conquista. Essa sabedoria não se aprende em nenhuma universidade.

Joaquim da Mata, o Velho Quincas, filósofo dos cafundós de Minas, quando compara o jeito de ser de uma mineira com o de outra mulher, afirma que a "deferença" está no preparo. O "caldinho" que envolve a mineira e dá a ela este jeitinho tão gostoso foi preparado em panela de ferro num fogão à lenha.

Mineira não mente, conta lorota. 

Não menstrua, fica úmida. 
Não paquera, espia. 
Não fica bonita, já nasce formosa. 
Mineira não curte um som, ouve música. 
Não fala, proseia. 
Mineira não come estrogonofe, mas adora um picadinho de carne. Não faz crediário, compra fiado. 
Mineira não transa, faz amor. 
Não fica pelada, mostra as "vergonhas". 
Não erra, comete engano. 
Mineira não chupa cana, toma garapa na beira do engenho. 
Não liga pra ninguém, mas telefona pra todo mundo. 
Mineira não trai marido, escorrega na rua.

Mineira ama diferente. Flerta de longe, promete com o olhar e cumpre tudo o que não precisou esclarecer com palavras. Ela sabe que amor não é para discursar, é pra fazer. Ama com os olhos, com as mãos, com o sorriso, com os gestos. Mineira ama com o corpo inteiro e com toda a sofreguidão da alma.

Conheci muitos tipos de brasileiras. Faceiras, trigueiras, formosas, irresistíveis, loiras, morenas, mulatas, cafuzas, todas bonitas, mas só as mineiras têm essa brejeirice, essa paciência de construir sem pressa uma teia de aconchegos e mimos e lembranças e sorrisos, que nós das Gerais tanto apreciamos.

Existem coisas que já nascem com a mulher e muitas destas coisas estão diretamente ligadas ao lugar. Mineira faz doce como ninguém neste país. Quem já provou doce de cidra ou de leite feito por mineira, sabe o que é bom. Goiabada e marmelada, nem se fala. Queijo então é até pecado comparar.

Mineira estuda menos e ensina mais porque o que há de melhor ela já nasceu sabendo. Isso se deve à simplicidade das mineiras que se embelezam com bijuterias e ofuscam o brilho de jóias raras. Mineira se veste de chita e fica bonita, porque mineira não segue, mas faz moda. Mineira não usa tênis, enfeita as alpercatas. Mineira vai à igreja, assiste missa, comunga, mas por via das dúvidas toma um passe de candomblé e joga rosas vermelhas pra Iemanjá. Assim descobre caminhos que levam à Deus. Também faz política, porque sempre sabe distinguir o certo do errado. Escondida por trás da simplicidade de toda mineira está uma guerreira pronta pra lutar pelo Brasil.

Dizem mesmo nas Gerais que é a mulher quem ensina o homem a ficar rico. Mineira não é feminista: é feminina. Pra que lutar contra os homens, se todo o poder está mesmo em suas mãos? Mulher, quando casa com homem rico, vira madame. Mineira vira esposa."

* Texto de autoria atribuída a Domingos Leoni
Esse é antigo e já li o mesmo com nomes de autores diferentes. Não posso afirmar com exatidão o autor, mas prometo buscar a confirmação e inserir os créditos.
Se for de Domingos Leoni, ótimo. Pra quem não conhece Domingos Roberto Leoni, locutor esportivo, compositor, radialista e publicitário, nasceu em Passos, interior de Minas Gerais, em 28 de fevereiro de 1939. 
Além da atividade jornalistica, Domingos Leoni também iniciou uma profícua carreira como compositor, sendo parceiro de artistas importantes da música popular brasileira, como Antonio Marcos, Milton Carlos, Sérgio Sá e a dupla Dom e Ravel, entre outros.
O maior sucesso de Leoni foi gravado por Wanderley Cardoso, em 1971, em parceria com Dom, da dupla Dom e Ravel. Foi a música " Só o amor constrói".
Com Ravel, compôs outra música de sucesso, "A missa", gravada por Jair Rodrigues. Esta música chegou, inclusive, a ser gravada no exterior pela cantora venezuelana Mirla e pela francesa Cristine Lebail.
Em 2003, Domingos Leoni lançou o livro "Nos cafundós de Minas", uma seleção de "causos" prefaciado pelo grande ator Anselmo Duarte. Depois publicou mais dois outros livros de crônicas: "Das coisas da vida" e "Da vida das coisas, mais um punhado de causos".

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