quarta-feira, 1 de março de 2017

Oh, Minas Gerais!

Encantamento é a palavra correta para descrever a imagem que eu trago guardada na memória das terras de Minas Gerais. Leitor fanático de Drummond, desde a minha juventude permaneceu gravado em minha mente o “espírito de Minas” — sempre presente nas crônicas e poemas do poeta gauche de Itabira.

Mais tarde, nas minhas andanças musicais pelos bailes e casamentos da vida, fui até Belo Horizonte, passei uns dias em Conceição das Alagoas e, do ano dois mil até dois mil e dez, com o Grupo Polyphonia, passei por Alfenas, Três Corações, Andradas, Campos Gerais, Poços de Caldas, Machado, e outras tantas cidades mineiras que agora não me ocorrem os nomes.

Até então, para mim Minas ainda era Congonhas do Campo, onde Aleijadinho lavrou sua arte em pedra sabão; era Itabira do Mato de Dentro, a “Vila da Utopia”, onde Drummond cresceu no solar da rua Municipal sob os cuidados da preta velha “sá” Maria, atento ao vai-e-vem diário de Fernando Terceiro — um velho agente do correio. Era Brejo das Almas, Cocais, Caetê, Vila Rica, São João Del-Rei, Mariana, Barbacena, Sabará, Ouro Preto, Congonhas, Diamantina… Minas habitava em mim no mistério dos nomes de suas cidades, ocultas entre montanhas inacessíveis.

Certa vez Madu disse que “Minas é palavra montanhosa” e Drummond completou: “Minas não é palavra montanhosa. É abissal. Minas é dentro e fundo. As montanhas escondem o que é Minas… Ninguém sabe Minas… Só mineiros sabem. E não dizem nem a si mesmos o irrevelável segredo chamado Minas”.

Escrevo tudo isto porque só encontrei as Minas Gerais dos meus sonhos em companhia de dois músicos descalvadenses: Zé Carlos Adorno e Rose Bertini. Foram necessários quarenta anos de paciência, várias apresentações musicais e cinco dias tocando saxofone no carnaval em Conselheiro Lafaiete, para eu descobrir o “segredo irrevelável”: Minas ora é montanha com casas em cima, ora casas com montanha embaixo; Minas é aclive e declive, escondendo na paisagem íngreme e rude a hospitaleira mineirice servida com pão de queijo; Minas é o passado camuflado por antenas parabólicas capturando o futuro — um futuro que está presente mas não contamina o sabor inconfundível do linguajar “mineirês”.

Minas, como eu já esperava, sempre nos recebeu de braços abertos, exagerando em gentilezas. Gratificado pelos aplausos (muito mais do que merecíamos), encontrei lá nas Gerais a razão do meu antigo encantamento: Minas é perto do Céu. Mais ainda: Minas nos mostrou que “santos” de terras paulistas, fazem milagre em terras mineiras — só não fazem milagre em sua terra, por inexplicáveis preconceitos que remontam dos tempos da nossa Orquestra Rítmo e Penumbra. (Isto pode soar como desabafo de um músico-cronista “despeitado”. Na verdade, é. Um dia eu teria de dizer alguma coisa, para me livrar de uma antiga mágoa — já que este preconceito alcança também os músicos da nova geração). Afinal, o próprio Drummond reconheceu: “o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens…”. Não seria eu uma exceção a esta regra universal.

Nas longas viagens de volta, sempre trazendo a saudade na bagagem, entendi o porquê do Demão, seguindo o exemplo do presidente Juscelino, exigir, em todos os bailes que ele estava, que cantássemos “Ó Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais”… E, mais ainda: compreendi o grito desesperado de angústia de Drummond em sua Prece
de Mineiro no Rio: “Espírito de Minas me visita… não me fujas no Rio de Janeiro, como a nuvem se afasta e a ave se alonga. Mas abre um portulano ante meus olhos que a teu profundo mar conduza, Minas, Minas além do som, Minas Gerais”.

Ao que hoje me atrevo acrescentar: Obrigado Minas de meu encantamento. Trago-te agora materializada no sonho de um antigo menino que eu levei na alma para te conhecer, artisticamente disfarçado por uma calva e uns poucos cabelos brancos.

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Imagem ilustrativa: antigo Trem Vitória Minas, passando por Nova Era MG em 2013.Fotografia de Rafael Cevidanes

Um comentário:
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  1. Sou o mais mineiro dos cariocas que foram criados em Brasilia.

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