Subindo o Pico da Bandeira, a terceira mais alta montanha do Brasil

Alto Caparaó é um nome que poucos conhecem. Mas trata-se de uma pequena cidade mineira, na divisa com o Espírito Santo. A fama da cidade deve-se, principalmente, ao Pico da Bandeira, terceira maior montanha do Brasil, com 2.892 metros de altitude (abaixo apenas do Pico da Neblina, com 2.993m, e do Pico 31 de Março, com 2.972m). Pela facilidade do acesso e, principalmente, pela natureza que circunda a montanha – preservada no Parque Nacional do Caparaó – ela se tornou um grande e movimentado atrativo turístico. 
A cidade cresce desordenadamente e eu tive a impressão de que seus moradores não ligam muito para o turismo. Está mais voltada para a agricultura, pensei, pois as terras altas são muito férteis e quase todas as áreas são cultivadas. Digo isso, porque há pouco ou nenhum cuidado com praças e jardins. As ruas são estreitas e o casario não tem muita beleza. É chocante a comparação entre as belas montanhas que a circundam com as construções sem graça onde habitam seus moradores.
A joia da coroa é o parque nacional. Ele está localizado a menos de dois quilômetros do nosso hotel. Pode-se entrar de carro até a Tronqueira, que fica mais ou menos a seis quilômetros da portaria principal. No caminho, muito íngreme, avistam-se paisagens maravilhosas. Há um pequeno mirante para parar e contemplar a natureza.
Nos dias em que estivemos em Alto Caparaó, o tempo deu uma reviravolta. Nuvens pesadas invadiram todo o céu, deixando a temperatura baixa, resultado de uma frente fria que invadiu parte do sudeste do Brasil. Havia, também, muita neblina, o que nos desencorajou a subir a montanha nos primeiros dias. A conselho dos mais experientes, entre eles um jipeiro que é funcionário do hotel, do dia 17 para 18 de agosto a temperatura estaria melhor para enfrentar a subida ao pico. E ficamos muito satisfeitos quando vimos o céu estrelado, com uma bela lua quase cheia apontando no horizonte. Durante o dia, o sol também apareceu, fortalecendo nosso espírito aventureiro.
 A caminhada rumo ao Pico da Bandeira começou, para nós, às 21h30. Foi o horário que entramos de automóvel no parque (ele fecha às 22h). Cada visitante paga uma taxa de R$ 11, mais R$ 6 (por pessoa) para deixar o carro durante a noite no estacionamento. Municiados de muitos agasalhos (eu estava com três casacos, sendo um deles com capuz, e até uma meia comprida debaixo da calça), além de cachecol e lanternas, começamos a primeira etapa da caminhada. Ao todo, são 9,6km. A primeira parte, 3,7 quilômetros, é mais suave. As lanternas e o clarão do luar nos ajudavam a enfrentar a trilha, demarcada por uma série de estacas de madeira pintadas de cor verde ou amarela.
A primeira etapa termina no Terreirão. Trata-se de uma grande área, com construções simples (uma casa de pedra e outras de alvenaria, que servem como administração do parque e banheiros) e muitas barracas. Boa parte dos caminhantes prefere passar uma parte da noite no local e, às 3 da manhã reiniciar a segunda e mais pesada fase da caminhada, com o objetivo de chegar ao topo do pico antes do sol nascer. O grande atrativo é, justamente, a observação da aurora em um dos pontos mais altos do país.
De acordo com os guardas, havia cerca de 400 pessoas no parque naquela noite para fazer o percurso. Infelizmente, é um programa para poucos e fortes, pois o parque tem pouquíssima estrutura para atender bem aos visitantes. Os banheiros são imundos e, segundo me disseram (não ousei experimentar, considerando o frio que estava sentindo), a água do chuveiro é gelada. O local não oferece nenhum conforto. Um pedaço de chão (úmido, diga-se de passagem) era disputado. Muitos, como nós, tentamos dormir ao relento, com uma leva garoa e, é claro, o barulho das pessoas chegando e saindo, nos incomodando o tempo todo.
Wagner e eu achamos melhor, então, ao invés de tentar descansar ali por algumas horas, reduzir o tempo da parada e continuar a subida para chegar ao topo mais cedo. Vários outros caminhantes tiveram a mesma ideia e fomos, pela bem demarcada trilha, enfrentar os outros quase seis quilômetros. Retomamos a caminhada pouco depois da meia noite. O esforço da caminhada é triplicado pela baixa temperatura, pelo alto grau de dificuldade da segunda etapa da trilha, pela neblina, pela umidade e, por fim, pelo cansaço. Driblamos uma boa parte desses problemas com muito humor, até que, na fase final, a umidade se intensificou, passando de um leve orvalho para uma chuva fina. Isso fez com que nossas roupas ficassem completamente molhadas, os passos mais lentos e a visualização mais difícil.
Resistentes e bravos, alcançamos o alto do pico, avistando primeiramente uma estátua do Cristo Redentor e uma torre de ferro, que lembra um pouco essas torres de telefonia celular. Como a neblina estava muito intensa e o vento, cortante, mal víamos a paisagem. Era por volta de três da madrugada.
Por sugestão do Juninho (da loja de artigos para trekking), compramos uma barraca de emergência, feita de alumínio, que foi a salvação. Enrolamos-nos debaixo daquela lona prateada, lembrando perus preparados para ir ao forno, e ficamos ali tilintando de frio e apavorados com a rigorosa força da natureza. E ventava e esfriava e pingavam fortes gotas de água. Demos os braços e as mãos para, num esforço de sobrevivência, tentar recuperar o calor do corpo. Comecei a mexer os dedos dos pés e das mãos que, apesar de bem cobertos, pareciam ao relento. A intenção era não congelar e, assim, perder os movimentos. E fugir da cãimbra. O ar rarefeito pela altitude também nos deixava mais ofegantes.
Toda hora notávamos novos grupos chegando, apavorados com o frio e a ventania. Viramos alvo de inúmeras fotografias. Devíamos estar hilários com aquela capa de alumínio. Um rapaz quase sentou na nossa barraca (ou seja, em nós), nem imaginando que ali pudessem estar abrigados dois seres humanos. Ao ver nossa indignação, começou a bradar: é gente que está aqui debaixo! Wagner começou a recordar o filme sobre os sobreviventes dos Andes. Não era neve, mas a sensação térmica era quase isso. Um outro rapaz, que carregava um termômetro, anunciou que estávamos a cinco graus abaixo de zero. Será?
A administração do parque, na minha opinião, comete outro erro. Não existe um local decente para abrigar o turista. Numa situação extrema, como a que vivemos, a única saída é segurar a barra até o sol nascer ou então descer tudo de novo, ou seja, quase 10km para se abrigar num local mais quentinho que, no caso, seria o nosso carro. Como não podem ser acesas fogueiras, restam-nos enfrentar as forças da natureza, sem teto.
O dia clareou de maneira decepcionante. Ao invés do belo nascer do sol que a gente vê nas fotografias, somente neblina e garoa. A temperatura estava no limite do desespero. Até para fotografar tínhamos dificuldade, pois a câmera estava repleta de gotículas de água e com o visor embaçado. Além disso, tirar as mãos das luvas era um exercício de extrema coragem. Mesmo considerando que as luvas estavam também molhadas e frias. Nossa barraca de alumínio foi doada para uma senhora que ameaçava ter uma hipotermia.
Somente de madrugada conseguimos avistar o cruzeiro que assinala o alto do Pico da Bandeira. Obviamente, coberto de uma espessa camada de névoa. Nada de sol e de paisagens montanhosas. Somente a cerração e os nossos vultos. O que, também, teve sua beleza. Pedimos emprestada uma bandeira do Brasil a um grupo de jovens paranaenses que estava ali pelo mesmo objetivo e tiramos fotos para comprovar nossa aventura. Ainda que não tenhamos apreciado a paisagem, como queríamos.
A descida foi menos penosa, com direito a outra alteração no clima e na paisagem. Coisa que, comecei a crer, fazia parte dos jogos manipulados pelo instável pico e duas montanhas assistentes. O sol deu as caras iluminando a paisagem e abrindo nossos sorrisos. Esquentando um pouco também nossos agasalhos umedecidos.
Por volta das 7 da manhã, alcançamos novamente o Terreirão, de onde tiramos da mochila frutas e sanduíches, que foram preparados pelo nosso hotel, e fizemos, ali, nosso café da manhã. Ainda ventava muito. O breve descanso foi penoso para o Wagner. Ao se levantar para dar continuidade ao percurso de volta ao estacionamento (ou seja, quase quatro quilômetros de descida), ele começou a sentir os joelhos. Teve muitas dificuldades para caminhar e, em alguns momentos, tive que apoiá-lo para que conseguisse enfrentar as pedras mais altas e as trilhas mais difíceis.
Povoado próximo ao parque
Ao chegar de volta ao hotel, por volta de 10 e meia da manhã, tomamos banhos e relaxamos. Dormimos um sono pesado. Poucas horas depois, tínhamos que enfrentar os 330 quilômetros que separam Alto Caparaó da capital mineira, onde vivemos.
Na memória, ficará a imagem do enfrentamento de um grande desafio, aquele que o corpo humano, na sua limitação, tem de enfrentar sozinho, sem nenhuma ajuda, a não ser da sua própria consciência e de uma determinada dose de tranquilidade do espírito. Alcançar o topo, com nossos próprios pés, enfrentando todas as nossas limitações de corpo e de alma. Voltei renovado, embora mais dolorido, sabendo que terei essa aventura como um referencial para toda a minha vida.
Repriso, neste texto, a reflexão sempre insistente para pensar e desenvolver um turismo mais profissional para o Brasil. Precisamos de mais qualificação em todos os setores, do turismo de aventura ao receptivo dos hotéis e pousadas. Estamos ficando cada vez mais exigentes e não podemos continuar com o modelo vigente no país, que mortifica muito o viajante com estradas ruins, infraestruturas debilitadas e administrações regidas mais por interesses políticos, destituídas de conhecimento, criatividade e habilidade para a criação de uma nova etapa para essa importante área de nossa economia. Até mesmo para quem gosta do inusitado e até quer mesmo passar por todo tipo de dificuldade em sua aventura, a precariedade do Parque Nacional do Caparaó para receber os visitantes chega a ser irresponsável. Infelizmente muitos turistas não estavam aptos a recomendar o passeio, contra todas as maravilhas que podem ser observadas naquela rincão do país.

Alheio a tudo isso, o Pico da Bandeira continua lá nos provocando com sua beleza e sua plenitude. E, confesso, que gostaria de ver o sol nascer ali, com toda a majestade e imponência. Avistar, do alto daquela preciosa montanha, a luz das estrelas, o lumiar das várias cidades vizinhas e até uma réstea do azul do mar, a mais de 100 quilômetros adiante... É, quem sabe, eu não volto ali para completar esse sonho, impondo-me um novo desafio.


Texto Fotos de Thelmo Lins e Wagner Cosse.
http://descobertasdothelmo.blogspot.com.br/2013/08/subindo-o-pico-da-bandeira-terceira.html

Observações finais:
Como podem observar, subimos o Pico da Bandeira sem a ajuda de guias. Fizemos isso porque o parque estava muito cheio e havia centenas de visitantes fazendo a mesma trilha. Além disso, as trilhas são bem sinalizadas, com boa visão, mesmo no período noturno, em que tivemos que contar com o auxílio de lanternas e do clarão da lua. Os guias costumam cobrar 180 reais para fazer o serviço. O preço é para o máximo de 4 pessoas. Além disso, jipeiros oferecem o transporte até a Tronqueira, onde os carros ficam estacionados, pelo preço de 150 reais. Eles podem ser contratados na recepção dos hotéis e pousadas.

Saiba mais sobre o parque, acessando o site: http://www.icmbio.gov.br/parnacaparao/guia-do-visitante.html

Um comentário:

  1. Olá, gostei do relato e concordo que o parque poderia oferecer melhor infraestrutura no Terreirão. Subi ao Pico 3 vezes, ao Terreirão 7 vezes, sempre em julho, inverno é quando os nativos sobem ao Pico e nunca na virada da lua, quando o tempo fica mais instável. Subir o Pico no verão é pedir para sofrer mais que o necessário. Abraço

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