domingo, 19 de fevereiro de 2017

Redescobrindo as belezas do Serro

Minas Gerais é um estado riquíssimo em patrimônio histórico e natural. E conhecê-lo sempre foi um dos meus objetivos. Percorrer todas as cidades históricas, principalmente aquelas fundadas durante o ciclo do ouro e do diamante, no século 18, e os parques estaduais e federais que estão no Estado, tem sido minha meta.
Desta vez, o rumo apontaria para o Vale do Jequitinhonha, onde está uma das mais belas cidades brasileiras, o Serro, e seus arredores encantadores. E, em seguida, mergulhar nas belezas do Parque Estadual do Rio Preto, na cidade de São Gonçalo do Rio Preto (355 km da capital mineira).
 Nesta primeira postagem, vamos falar sobre o Serro.
Partimos de Belo Horizonte (Wagner Cosse, meu companheiro de viagem, e eu) no dia 21 de julho de 2016. Pegamos a estrada pela Serra do Cipó, passando por Conceição do Mato Dentro e, finalmente, chegando ao Serro. São aproximadamente 220 km. Deste total, cerca de 30 km são de estrada de terra (bem conservada, por sinal). O restante é asfaltado. Optamos por este caminho por dois motivos: primeiramente porque a estrada é muito bonita, sinuosa, com belas paisagens e menos fluxo de trânsito do que a BR-040, a outra opção; em segundo lugar, porque encurta o caminho.
Chegamos ao Serro já na parte da tarde. Deixamos nossa bagagem na Pousada Marina, que fica em frente ao Fórum, e partimos para uma primeira expedição fotográfica. A cidade tem poucas e singelas pousadas, carecendo de um investimento maior na área de hotelaria. Soubemos que um hotel está sendo construído, o que facilitaria o acesso de grandes grupos ao local. Mas a pousada é simpática, com um bom café da manhã e equipe bastante atenciosa.
O fim de tarde revelou a beleza do por do sol manchando o casario histórico com suas tonalidades avermelhadas. 
Pela localização de nossa pousada, chegamos por trás da Igreja de Santa Rita, cartão postal do Serro, com sua escadaria de 57 degraus. (na foto abaixo, detalhes do altar da Igreja de Santa Rita)

Dali se tem uma ótima vista da parte central da cidade, que foi a primeira no país ser tombada pelo governo federal, isso em 1938. Logo abaixo dos degraus está a praça principal, onde fica a prefeitura e a Igreja do Carmo. Nela, há uma cerca viva, onde centenas de pássaros fazem seus ninhos e, no crepúsculo, eles estão em plena algazarra.
Já estive na região do Serro em outras viagens. A mais recente aconteceu há aproximadamente 10 anos, quando participei da impressionante Festa do Rosário, com certeza uma das maiores e mais tocantes manifestações folclóricas e religiosas do país. Mas desta vez, com a cidade mais calma, pudemos admirar melhor todo o potencial da cidade, que bem merecia configurar na lista de patrimônio histórico da Humanidade, como sua vizinha Diamantina, Ouro Preto, Congonhas e, recentemente, o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte. Além de seus monumentos conservados (ainda que merecessem mais cuidados), nasceram na localidade importantes nomes da história do Brasil, como os irmãos Teófilo e Cristiano Ottoni, o jurista Edmundo Lins, a cozinheira Dona Lucinha, o escritor Oswaldo França Junior, o ator Carlos Nunes, dentre outros. Todos eles estão biografados no livro “Valores do Serro”, escrito por Maria de Lourdes Moreira Pires e lançado em 2015. Esta coletânea de perfis foi fundamental para entender quem é quem na trajetória do município. Foi o meu livro de cabeceira nos dias da viagem e, ao final dela, acabei ganhando um exemplar de presente.
Visitamos quase todos os principais monumentos, como as igrejas, a chácara do Barão do Serro (foto acima) e a residência dos Ottoni (que atualmente é um museu). Há um posto de atendimento ao turista na rua principal, de onde extraímos ótimas informações, além de obtermos panfletos e livros alusivos à cidade. Em quase todos os locais, havia guias – a maioria jovens ou adolescentes – que nos conduziam e revelavam alguns detalhes históricos. É possível, inclusive, saber o revezamento dos horários de funcionamento dos edifícios, graças a uma planilha que nos é repassada antecipadamente.
O Serro tem uma boa culinária, embora não tenha restaurantes notáveis. A melhor surpresa é o Trapiche, inaugurado recentemente, que propõe um trabalho gastronômico um pouco mais requintado. Os caldos são deliciosos e vale a pena experimentar o sorvete do “vulcão”. Além disso, é possível encontrar, nos outros restaurantes, comida típica de Minas Gerais, em especial do bambá de couve, que é um dos meus pratos favoritos. Ah, e o queijo... o queijo é um episódio à parte. Delicioso! Há uma cooperativa onde podem ser adquiridos vários tipos fabricados na região. 
Nos arredores do Serro existem distritos e vilas irresistíveis. O meu preferido é São Gonçalo do Rio das Pedras (foto acima), que conheci há mais de 20 anos e que mantém seu charme. Em Milho Verde (foto abaixo), mais conhecida atração regional, havia uma grande movimentação em torno do Encontro Cultural. Por isso, o lugarejo estava cheio de gente e poeira. Mas ficou na lembrança a deliciosa comidinha caseira de Dona Geralda, uma graça de pessoa. No meio do caminho, passamos por Três Barras. Ali encontramos uma expedição fotográfica, comandada pelo fotógrafo Tom Alves, da qual participava uma querida amiga, Fernanda Jardim (quem encontraríamos mais tarde no parque estadual).
Das novidades, dois lugares especialíssimos e muito curiosos. O primeiro é a vila Deputado Augusto Clementino, popularmente conhecida como Mato Grosso (foto abaixo). Fica a 15 km da sede. Na Vila da Capelinha, no alto da Serra do Caroula, encontra-se um lugarejo fantasma, ou seja, ele só é habitado uma vez por ano, em julho, durante os festejos da padroeira. No resto do ano, ninguém mora lá, exceto uma família que toma conta do casario. Como fomos logo após a festa, a maior parte das casinhas estava com pintura recente e alguns enfeites. Como ela fica localizada no alto de uma montanha, o visual é esplêndido.
Outra novidade foi Capivari, que fica na mesma direção de Milho Verde, cerca de 20 km da sede. A maior parte da estrada é de terra. A vila fica ao sopé do Pico do Itambé e tem cachoeiras maravilhosas. Visitamos uma delas, a Tempo Perdido (foto abaixo), batizada por causa da caça a uma onça que não foi bem sucedida (nada a ver com a canção da Legião Urbana). 
A trilha para a cachoeira, feita a pé (cerca de 2 km) é de tirar o fôlego. Trabalho dobrado para os fotógrafos, que querem gravar todas aquelas impressões. Na capelinha de Capivari também tive outra surpresa. No campanário, havia um sino datado de 1942, com as palavras “Itabirito” (minha terra natal) e “João Glória”. Pesquisando, descobri que João foi um importante sineiro itabiritense de meados do século 20, que conseguiu distribuir suas obras por várias cidades brasileiras e até estrangeiras. Ou seja, havia ali um pouco de meus conterrâneos, o que muito me emocionou. Em Capivari, existe o investimento no turismo doméstico. Ou seja, os moradores abrem suas casas para receber os visitantes para hospedagem ou alimentação. Almoçamos numa dessas residências. 
 A impressão geral foi bastante positiva. Como se desligássemos aquele relógio que corre sem parar e nos desse uma pausa para meditar e reconhecer as belezas que nos circundam. Depois de cinco dias na cidade, resolvemos bater em retirada para o Parque Estadual do Rio Preto. Detalhes desta viagem, vamos contar na próxima postagem.

Fotos de Thelmo Lins e Wagner Cosse
http://descobertasdothelmo.blogspot.com.br/2016/08/vista-da-area-central-do-serro-cidade.html

Um comentário:
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  1. Belíssimos registros do Serro, que é um lugar incrível mesmo. E só uma dica, o altar das fotos é da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

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