Por que os Alemães em Bom Despacho tinham seu próprio cemitério?

Entrada do Cemitério Imigrantes da Colônia. Fotografia de Arnaldo Silva 
A partir de 1917 a cidade de Bom Despacho começou a receber as primeiras famílias de imigrantes Alemães. Com uma Alemanha arrasada pela Primeira Guerra Mundial, fome, miséria, pobreza e a iminência de uma nova Guerra Mundial, que aconteceu anos depois, intensificaram a imigração de Europeus e principalmente Alemães para países da África do Norte, Estados Unidos e América Latina, entre eles, o Brasil, que recebeu um fluxo enorme de imigrantes Europeus.

Bom Despacho recebeu cerca de 80 famílias, que se dividiram em duas glebas, cedidas pelo Estado. Álvares da Silveira, próximo ao Rio Lambari e Davi Campista que era a maior, próximo ao perímetro urbano da cidade, pela estrada do Capivari, sentido SESC.

A adaptação aqui foi difícil. A cidade vivia basicamente da atividade rural. Os alemães trabalhavam na indústria, tinham vastos conhecimentos sobre os ramos industrial. Além disso, tinha a culinária, clima que eram diferentes de seu país de origem, bem como a religião. Na Alemanha predominava e ainda predomina a Religião Luterana.

Não entendiam nada de agricultura, mas de metalurgia sim. Os Alemães eram profissionais da indústria alemã, na época a indústria mais avançada do mundo. Tinham muitos conhecimentos sobre metalurgia e ajudaram muito os bomdespachenses com seus conhecimentos. Para se ter ideia, nos anos 20, não existia energia elétrica em Bom Despacho, mas na colônia Davi Campista sim. Eles construíram uma usina ao lado do casarão sede, que gerava energia. 

Não se adaptaram muito ao clima quente do Cerrado e aos poucos foram deixando Bom Despacho, rumo ao Sul, Blumenau em Santa Catarina ou voltaram para a Alemanha. Ficaram algumas famílias e seus descendentes, que ainda estão entre nós.

Mas, hoje estão esquecidos e a memória da presença dos Alemães na cidade está praticamente apagada. Resta o casarão sede da fazenda, o Cemitério Imigrantes da Colônia. Tinha um cemitério em Álvares da Silveira, segundo consta, não existe mais, virou pasto, nem cerca tem.

No cemitério da Colônia tem um muro de placas, mas está completamente abandonado, como vê na foto.

Mas por que eles tinham que ter um cemitério próprio ao invés de serem sepultados no cemitério da cidade? 

Boa pergunta. A resposta é: não podiam sepultar seus mortos nos cemitérios oficiais. Por serem Luteranos. E também não queriam sepultar seus mortos em cemitérios católicos,  por serem Luteranos.

A história é assim: a Igreja Católica, antigamente, era a dona dos cemitérios. Era ela que gerenciava e determinava quem podia ser sepultado em seus cemitérios. Em Bom Despacho, o cemitério local seguia a regra geral, ou seja, era ao lado, no terreno que ficava a igreja. Até a construção da atual Matriz, o cemitério era no que é hoje a Praça da Matriz, exatamente atrás da cúpula da igreja. Com a nova Matriz, criaram outro cemitério, que chamam de Cemitério Velho. Junto com o Cemitério da Matriz, Bom Despacho tinha também mais dois cemitérios, considerados "oficiais" pela Igreja Católica que são o Cemitério do Capivari dos Macedos e do Engenho do Ribeiro, ambos distritos de Bom Despacho, esses dois últimos existem até hoje. 


Esses dois cemitérios foram criados nessas comunidades porque era muito difícil levar os mortos até a cidade, numa época que não existia transporte público e poucos veículos. O tráfego era em carroças ou carro de Bois. A distância de Bom Despacho até o Engenho do Ribeiro, por exemplo, é 20 km. Imagina vir com um cortejo fúnebre a essa distância a pé ou em carroças. Dai a praticidade de se criar cemitérios em comunidades maiores. Esses foram criados e reconhecidos pela Igreja Católica, diferente do Cemitério dos Alemães, justamente por não professarem a fé católica. 

Quem conhece as cidades históricas mineiras percebe que cada igreja tem seu cemitério próprio, ao lado. Era assim em todo o mundo.

Nos cemitérios das igrejas só podiam ser sepultados os cristãos batizados e membros da comunidade que faziam parte.

A Alemanha desde o século XVI não segue a doutrina Romana e sim Luterana. Por ser o país terra natal de Martinho Lutero, o criador da Reforma Protestante, o Protestantismo se tornou a religião predominante entre os Alemães.

Os Alemães que vieram para o Brasil, tiveram que criar seus próprios cemitérios para sepultarem seus mortos, bem como árabes, orientais, judeus e outros povos que não seguiam o Catolicismo. Além disso, pessoas que morriam vítimas de doenças contagiosas, na época, como leprosos, bexiguentos, tuberculosos etc., não podiam ser sepultadas nos cemitérios e sim em outro local, longe da cidade. 

É por isso que as famílias Alemãs, que aqui viveram, tiveram que criar seu próprio cemitério. Não eram Católicos. Alguns com o tempo se tornaram Católicos, bem como seus descendentes, mesmo assim, optaram em sepultar seus mortos no Cemitério da Colônia. Padre Henrique Hesse, alemão que viveu em Bom Despacho, deu muito apoio aos alemães que aqui ficaram e aos que se tornaram Católicos. Estava sempre presente na comunidade.

Hoje, a Igreja Católica não é dona de cemitérios e nem gerencia os mesmos. O Estado hoje é laico e as Prefeituras locais passaram a gerenciar os cemitérios e todos, independentemente de sua fé, podem ser sepultados normalmente. 


Essa questão de cemitérios por religião é comum no mundo até hoje. Até hoje na Alemanha, os Luteranos são sepultados em cemitérios Luteranos. Os católicos tem seus cemitérios, bem como os Judeus, árabes. Cada um enterra seus mortos de acordo com sua visão. E assim é pelo mundo e sempre foi. 

Podem ser ou se sentirem diferentes nesta vida, mas debaixo da terra passam a ser todos iguais.

Arnaldo Silva

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