Poema Matuto

Já se viu falar, seu moço,
de quem diz como puxa o arado,
de quem ensina a tocar o gado...
Mas quem diz pra onde tocar a vida?
Tem carência ou tô errado?
Sabe lá dizer, seu moço,
se a foice afiada da lida,
só faz por maldade a ferida,
rasga a carne e mostra o osso?


Ou é coisa já entendida?
Faz favor dizer, seu moço,
se as noite que vou matutando,
ruminando, mascando meu mato,
é noite ganha ou perdida?
Se conta, nas conta da vida?


Mas pense e me diga, seu moço,
se o lombo, marcado de canga,
sem sonho, só soldo e comida,
faz marca nas senda da vida
ou é só baruio e alvoroço?

Diz proaí que o amor é grande, seu moço...
Sei quais nada de sentimento...
Em menos que o cabra, danado,
tome tino, tome tento,
tome as rédea ao pensamento
e num pense qual menino
que quer o balão de vento,
e quando ele vai simbora,
chora e arenga com o destino.

Se diz tanta coisa, seu moço,
nesse mundão de Deus meu...
E eu, caçando meu rumo,
tomando do meu chapéu,
vou cruzando sol, de dia,
mas, noitinha, busco o céu,
cheio d’estrela que alumia,

pra ver se alumia as ideia
desse matuto tinhoso,

que estica seus dedo de prosa,
buscando os dedo de Deus...


Poema de Lúcia Helena Galvão
Fotografia de Geremias Correa

Um comentário:

  1. Lindo poema. Ele retrata a vida e os "causos" do matuto com sua vida esquisita, estranha, porém, bonita e cheia de poesia, lamentos e dura realidade. Tudo, entretanto, é pura felicidade.

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