quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Poema Matuto

Já se viu falar, seu moço,
de quem diz como puxa o arado,
de quem ensina a tocar o gado...
Mas quem diz pra onde tocar a vida?
Tem carência ou tô errado?
Sabe lá dizer, seu moço,
se a foice afiada da lida,
só faz por maldade a ferida,
rasga a carne e mostra o osso?


Ou é coisa já entendida?
Faz favor dizer, seu moço,
se as noite que vou matutando,
ruminando, mascando meu mato,
é noite ganha ou perdida?
Se conta, nas conta da vida?


Mas pense e me diga, seu moço,
se o lombo, marcado de canga,
sem sonho, só soldo e comida,
faz marca nas senda da vida
ou é só baruio e alvoroço?

Diz proaí que o amor é grande, seu moço...
Sei quais nada de sentimento...
Em menos que o cabra, danado,
tome tino, tome tento,
tome as rédea ao pensamento
e num pense qual menino
que quer o balão de vento,
e quando ele vai simbora,
chora e arenga com o destino.

Se diz tanta coisa, seu moço,
nesse mundão de Deus meu...
E eu, caçando meu rumo,
tomando do meu chapéu,
vou cruzando sol, de dia,
mas, noitinha, busco o céu,
cheio d’estrela que alumia,

pra ver se alumia as ideia
desse matuto tinhoso,

que estica seus dedo de prosa,
buscando os dedo de Deus...

Poema de Lúcia Helena Galvão -Fotografia de Geremias Correa

Um comentário:
Faça também comentários
  1. Lindo poema. Ele retrata a vida e os "causos" do matuto com sua vida esquisita, estranha, porém, bonita e cheia de poesia, lamentos e dura realidade. Tudo, entretanto, é pura felicidade.

    ResponderExcluir