Prefácio do livro Doces Momentos

Doces Momentos tem cheiro de mato, de roça, de fundo de quintal, gosto de rapa de mingau de milho verde no tacho e lascas de bolo ainda morno no tabuleiro. Retrata a alma de um menino que se lambuzou, deliciou com a doçura de uma infância singela e suave.

O livro de Arnaldo Silva é uma enorme panela de barro esquentada no fogão a lenha onde os ingredientes são combinados e destacados, para que o caldo de nossa memória engrosse e escorra como um rio copioso irrigando os campos de nossa criancice adormecida, entorpecida.

Tal e qual um tecelão a fiar algodão, o narrador recorda prosas, causos, receitas, cantigas de roda e ninar, danças típicas, modas de viola e nos serve, uma a uma evidenciando o delicioso paladar e sotaque do nosso povo de Minas.

Doces Momentos é coser, cozinhar, solidarizar. Acima de tudo é colheita. Um banquete que o autor oferece. Mesa farta de emoções, recordações que ao final, não sabemos mais se dele ou nossa. Mas não importa. A porta aberta da memória é fonte de história, costumes, tradição, religiosidade. Terra fértil, mina d’água, rio, riacho, cerrado, trabalho árduo, luz de lamparina e som de carro de boi relembrados em cenas eternas guardadas no fundo do baú de uma meninice encantada e nostálgica.

Já dizia Guimarães Rosa, “Minas, são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais.” Arnaldo Silva certeiramente é um daqueles. Ao abrir a janela do quarto de sua infância, ele nos faz contemplar as ternas lembranças de seu universo inocente e feliz vivenciado em Bom Despacho, no povoado de Salitre ou no Barreiro de Cima em Belo Horizonte.

A riqueza de detalhes de suas vivências lembra-nos as deliciosas receitas de nossas avós e mães. Enquanto nutrem o corpo alimentam a nossa alma e nos deixam um saudoso gosto de quero mais... Quero muito mais! Eis a mágica e sutil provocação que Arnaldo Silva nos faz: à medida que adentramos em suas reminiscências e conhecemos as receitas da culinária mineira e familiar transmitidas de geração em geração, experimentamos uma sensação de fome intensa, que dói, queima feito chapa quente ou brasa ardente porque constatamos que a vida tem sido consumida cada vez mais em porções precisas e tempos exatos circunscritos a um micro-ondas. Insossa e pasteurizada! “Comida pra boi”, nas palavras do autor.

A beleza, o valor inestimável dessa obra é que ela traz à tona, a identidade de quem a lê ou a absorve. É isso mesmo leitor, você vai tomar o café da manhã, almoçar, tomar o café da tarde e jantar rememorando ou inventando seus pratos prediletos porque além de emocionar e comover Doces Momentos instiga, faz refletir e querer viver de um jeito simples, caseiro e artesanal. E, isso é o que nos mantêm humanos, sensíveis ao que é intrínseco ao ato de viver: criar, fazer e compartilhar! Oferecer ao outro o que temos de melhor! Inegavelmente Arnaldo Silva faz isso com delicadeza e lirismo, próprios de “um roceiro, mineiro e caipira com muito orgulho”, nas palavras do autor.

Repare leitor que ele traz em seu íntimo e o transmite em sua obra, algo mais grandioso e original: a capacidade de narrar, contar, recordar. Na mitologia grega, Mnemosyne, a deusa da Memória concedia apenas aos poetas e artistas, por meio de seus poemas e arte, o dom da perenidade e, com isso, eram preservadas, ao longo do tempo, as memórias da coletividade. Portanto, o lugar da memória é o lugar da imortalidade!

Conta-se que o poeta grego Simonides de Ceos participava de um banquete e como de costume, ele teria dedicado a primeira parte do poema recitado ao Rei e a segunda parte aos deuses Polux e Castor. O Rei decide pagar apenas a metade do valor e, ironizando o poeta, sugere que ele deveria cobrar a outra parte aos deuses. Em seguida, Simonides, retira-se da sala por haver sido informado de que dois jovens o aguardavam do lado de fora do palácio. Nesse intervalo, o palácio é destruído e todos mortos, com exceção, do poeta. Esse consegue ajudar os parentes dos mortos na identificação de todos os corpos porque lembrava nitidamente do lugar de cada participante à mesa.

Tal e qual o poeta grego, considerado o “pai” da Arte da Memória, o narrador de Doces Momentos revela-se o único sobrevivente de sua família, quiçá da família mineira na referida arte. O registro da culinária, tradições, cultura, trabalho, religiosidade e vida feliz contidas neste livro é um legado de eternidade porque a vida é mantida no calor da alma que lembra e rememora...

E o menino ADO (apelido do autor) vive e revive sua saudade na cozinha com sua família. O convívio com avós, pais, colegas e amigos deu-lhe os ingredientes, a liga essencial ao sabor e saber naturais ao povo mineiro reforçados pelos traços de sua herança mista: portuguesa, cigano búlgaro, árabe-marroquino e índio brasileiro. Mistura de licor, vinho, charuto com folha de uva e cachaça. Herdeiro notável da diversidade!

Sentado à beira do fogão a lenha, inconscientemente, ele repete o ato amoroso de sua avó materna: cozinha Doces Momentos, o qual eu tenho a honra de prefaciar. Impossível resistir a tantas delícias narradas e a uma refeição mineira completa servida à mesa de forma tão generosa.

Com pitadas de humor, recheio de poesia e prosa leve, Doces Momentos, de Arnaldo Silva tem gosto de café com rapadura, lingüiça caseira defumada, torresmo com cachaça e feijão tropeiro. Experimente leitor, você irá degustá-lo sem parar! Mas não se preocupe: “só em casa de mineiro que gula não é pecado!”

PS: Dizem que a emoção de escrever um livro e publicá-lo é comparável ao nascimento de um filho e a escolha de nomeá-lo. Sendo assim, no modo antigo e para além da mera formalidade interpretei o seu convite e já me sinto madrinha do seu doce rebento e lhe digo mais: Tô muito feliz cumpadi de sê sua cumadi, uai!

Denise Coimbra
Psicóloga e Escritora – Membro da Academia Bom-Despachense de Letras


Quem se interessar pelo livro, pode entrar em contato comigo via whatsapp: 37 988413474

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