Ouro Preto: restauro devolve cor original à Matriz de Nossa Senhora da Conceição

(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press Detalhe: Juarez Rodriguesl/EM/D.A Press -14/2/13)
Ouro Preto – Nestas férias de verão, quem visita Ouro Preto encontra uma novidade que enche os olhos pela beleza, tranquiliza o espírito diante da restauração e valoriza ainda o conjunto arquitetônico da cidade, tombada pela União e reconhecida como patrimônio cultural da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Depois de décadas com um tom avermelhado, meio puxado para o rosa, devido ao tempo, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, mais conhecida como Matriz de Antônio Dias, no Centro Histórico, exibe uma cor bem diferente, “velhinha em folha”, como brincam alguns especialistas: amarelo-ocre, seguindo o padrão de outras centenárias, como as de São Francisco de Paula, Santa Efigênia, Mercês de Baixo e Mercês de Cima.

O impacto é grande, principalmente para aqueles acostumados com a antiga tonalidade, que se misturava às cores do casario dos séculos 18 e 19 e pouco sobressaía na paisagem barroca. Segundo a superintendência em Minas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), não se trata simplesmente de uma alteração de cor. Os técnicos informam que foi feito o resgate do padrão cromático preexistente obtido a partir de análises técnicas, entre elas prospecções cromáticas, iconografia histórica e relatos da própria comunidade de Antônio Dias.

Em nota, os técnicos afirmam que é “curioso registrar que o padrão cromático resgatado já podia ser facilmente identificado antes das obras. Na cúpula das torres, por exemplo, o amarelo- ocre já se encontrava exposto após a perda e desgaste da camada de pintura superficial pela ação direta das intempéries”. Em todo o processo de preservação, os restauradores do Iphan ouviram sugestões de moradores da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. Nesse templo do século 18 está sepultado o “mestre do barroco” Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1737-1814).

O presidente da Associação dos Moradores do Bairro Antônio Dias, Gerson Honório, confirma que a escolha da cor foi discutida com a entidade. “Ficou ótima. Com o tempo vai desbotando, como ocorreu com as outras, mas o mais importante é que a igreja está sendo restaurada. No início, as pessoas podem até estranhar um pouco, pois a pintura está nova, mas depois de acostumam, afinal, esse era o tom original dela”, afirma Honório.

Moradora da Rua Santa Efigênia, a aposentada Marta Cordeiro, de 58, “nascida e criada aqui”, conforme faz questão de destacar, diz que a matriz ficou mais “majestosa”. Todos os dias, ela vê a igreja de sua casa, e diz que não chegou a conhecê-la nessa tonalidade. “Lembro-me de que era ocre com portas vermelhas, depois pintaram de vermelho. O pessoal do Iphan afirmou que é um resgate, então, quem somos nós para discutir com quem entende? Para mim, Ouro Preto é bonita de qualquer jeito. Até se passassem tinta preta eu acharia bonito”, brinca.

RESTAURO A expectativa é de que ainda neste semestre, possivelmente em maio, depois de longa espera por parte dos moradores de Ouro Preto e defensores do patrimônio, o restauro da Matriz de Nossa Senhora da Conceição seja concluído, e as portas do templo do século 18 abertas à visitação. Em entrevista ao Estado de Minas, no início do mês, durante as comemorações dos 80 anos do Iphan, a superintendência da autarquia federal em Minas, Célia Corsino, adiantou que, tão logo terminem os serviços, será iniciado o restauro dos elementos artísticos da igreja. A obra tem recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas.

Segundo pesquisa publicada no portal da Prefeitura de Ouro Preto, a história do templo começa por volta de 1699, quando foi elevada, a mando do bandeirante Antônio Dias, uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Em 1705, foi instituída a primitiva matriz de Nossa Senhora da Conceição, sofrendo provavelmente modificações e acréscimos para se adaptar à nova função. O rápido crescimento da população do antigo Arraial de Antônio Dias fez com que os moradores, em 1711, exigissem a construção de um novo templo, o que ocorreu em 1724.

Em 1727, foi iniciada a construção da atual matriz, cujo projeto é atribuído a Manoel Francisco Lisboa. Os trabalhos iniciados antes da Matriz do Pilar seguiram em ritmo mais lento até 1756, quando se inicia a talha da capela-mor e posteriormente as obras de pintura e douramento. Os altares da nave são bem mais antigos, podendo incluir, como no caso da Matriz do Pilar, peças remanescentes da primitiva. A decoração interna da nave é atribuída também a Manoel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho. Já a talha da capela-mor é atribuída a Jerônimo Félix Teixeira e Felipe Vieira, discípulos de Noronha e Xavier de Brito, daí sua afinidade com a Matriz do Pilar.

Fonte:http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2017/01/28/interna_gerais,843089/a-cor-do-templo.shtml

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