quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Barra do Guaicuí guarda as ruínas de um templo erguido por Fernão Dias no século XVII

Igreja Senhor Bom Jesus do Matosinho. Barra do Guaicuí, MG. Imagem: Janaína Calaça
Quando visitamos as ruínas da Igreja Bom Jesus de Matozinhos ou Nossa Senhora de Matozinhos, cuja construção se deve aos padres jesuítas, no século XVII, nosso pensamento retorna ao passado em profunda e solene reflexão. O arraial de Guaicui, berço histórico da região, fora fundado por Manoel de Borba Gato, em 1679 (Miliet de SAINT-ADOLPH, Dicionário Gráfico).

Waldemar de Almeida Barbosa diz que o arraial inicialmente recebera o nome de “Barra do Rio das Velhas”, que foi elevado a freguesia com o nome de “Nossa Senhora do Bom Sucesso e Almas do Rio das Velhas”. Guaicui, na língua tupi-guarani significa Rio das Velhas. Muitas lendas existem com relação à igreja, inclusive a de que nela se encontra enterrado os restos mortais do bandeirante Fernão Dias, “o Caçador das Esmeraldas”, morto em 1681, embora não exista prova disso.

Igreja Senhor Bom Jesus do Matosinho. Barra do Guaicuí, MG. Imagem: Janaína Calaça
Não se sabe ao certo o porquê foi deixada inacabada. O mais provável é que tenha sido em razão do ataque de malária (impaludismo) nos trabalhadores. Uma segunda versão é das enchentes do rio, naqueles tempos medonhas e que de tempos em tempos inundava toda a região. Coincide também com a expulsão dos jesuítas do Brasil, por ordem do Marquês de Pombal.

Três cousas podem ter influenciado os jesuítas a não terminarem a Igreja de Pedras. 1)Falta de mão de obra adequada; 2)Ataque de impaludismo como diz J.J.da Rocha (Memórias Históricas de Minas Gerais): “É um arraial mimoso em tudo quanto se pensa para passar a vida com regalo...
Igreja Senhor Bom Jesus do Matosinho. Barra do Guaicuí, MG. Imagem: Janaína Calaça
É terra de negócio, aonde acorrem muitas embarcações de sal e de couros de todas as qualidades, vindos dos sertões de Pernambuco e Bahia pelo São Francisco acima. E se não fora infestado de grande epidemia de sezões no tempo das vazantes, que ordinariamente padecem os seus habitantes seria o paraíso do mundo.”; 3)Proximidade das barrancas do rio das Velhas que naqueles tempos produzia enchentes medonhas e inundava suas margens.

Nota-se que a frente da igreja fora projetada para a margem do rio (poente), já que a parede inversa (onde tem a árvore) não possui nenhuma porta, sendo então os fundos. Conclui-se que a escolha do lugar não foi a mais adequada, daí o abandono, é uma hipótese que deve ser considerada.

Daí, então, o motivo da construção de outra Igreja pelos bandeirantes, a de taipa do distrito de Porteiras, denominada Igreja Nossa Senhora do Rosário, em local mais afastado e elevado, tendo sido terminada e ricamente ornamentada, mas que não resistiu muito tempo. Três séculos depois, a estrutura da Igrejinha de pedras ainda resiste às intempéries do tempo, como testemunha de um passado distante, da época da colonização, quando os grandes rios eram as rodovias pelo interior do Brasil.
Igreja Senhor Bom Jesus do Matosinho. Barra do Guaicuí, MG. Imagem: Janaína Calaça
Nos anos 60, uma semente de gameleira, provavelmente levada por morcegos, germinou na sua parede dos fundos. As raízes cresceram em direção ao chão, entremeando-se nas pedras. A árvore se desenvolveu e hoje é atração turística. A Igreja foi tombada pelo Patrimônio Público Estadual – IEPHA em 22.03.85 pelo Dec. 24.324 e também municipal pelo Dec. 056 de 13.05.1998. Guaicui, desde a emancipação de Várzea da Palma em 12.12.53 foi desmembrada como distrito de Várzea da Palma, conta hoje com cerca de 3.000 moradores. Grande parte do rico acervo sacro do período barroco foi perdido, deteriorado ou foi saqueado nos anos 60.

A Secretaria de Educação e Cultura vem realizando notável trabalho de recuperação das imagens sacras que restam, em parceria com a FAOP de Ouro Preto, criando condições para que sejam expostas e conservadas. Apesar da vontade dos munícipes em buscar a emancipação política do distrito, sabe-se que será muito difícil consegui-la, pois economicamente não se enquadra dentro das leis atuais que regem a matéria.
Igreja Senhor Bom Jesus do Matosinho. Barra do Guaicuí, MG. Imagem: Janaína Calaça
Mas não se devem arrefecer estes propósitos. Cabe, então, à Prefeitura de Várzea da Palma zelar pelo patrimônio cultural, de elevada importância histórica e de valor incalculável. Guaicui resiste há 3 séculos, já que foi o berço da cultura regional, hoje é um próspero distrito, com intensa atividade rural e pesqueira.

O sítio histórico não tem qualquer tipo de proteção, ficando jogado ao léu e ao abandono, sujeito a todo tipo de depredação e vandalismo pelos visitantes. Talvez, seria necessário algum tipo de proteção. Apenas as almas e o rio pranteiam seus lamentos, ao som plangente do velho sino da nova Igreja Matriz. Guaicui poderia receber projetos na área de turismo que poderiam alavancar seu desenvolvimento, como hotelaria, pesca e um museu ou centro cultural.

Um parque no pontal da barra do Velhas com o Velho Chico poderia ser um belo ponto turístico. Passeios nos velhos vapores pelos rios – em parceria com outros municípios seriam atrações interessantes. Parcerias dos órgãos públicos com a iniciativa privada poderiam tornar reais estes projetos, trazendo progresso àquele distrito, tão rico em história, mas esquecido no tempo.
Igreja Senhor Bom Jesus do Matosinho. Barra do Guaicuí, MG. Imagem: Janaína Calaça

PORTEIRAS - OS RESTOS DE UM PAINEL ANTIGO
Tendo os jesuítas sido expulsos do Brasil em 1759 pelo Marquês de Pombal, a Igreja de Pedras foi abandonada e deixada inacabada. Ao retornarem eles construíram outra igreja, a de taipa (barro e pedras e madeira) no distrito de Porteiras, cerca de meia légua do Arraial de Manga, depois denominado Guaicui, em 1845. Há quem afirme ter sido pelos bandeirantes, o que é pouco provável, pois a missão deles não era religiosa e, sim, descobrir ouro e pedras preciosas. A construção de uma igreja demandava um tempo que eles não dispunham.

O escritor Mário Morais deduz que é provável que o sino, datado de 1779 tenha sido fundido no local, pois foram encontrados vestígios do local da fundição e restos de borra de metais que presumiam ser ouro. Os sineiros faziam formas de barro e moldavam o sino em buracos no chão, técnica utilizada até hoje. Mas esta teoria é improvável uma vez que no sino tem uma inscrição como sendo fabricado n Europa. Este sino se encontra hoje na Igreja Matriz, em Guaicui. A Igreja de Porteiras, denominada de Nossa Senhora do Bom Sucesso foi inteiramente terminada e ricamente ornamentada.
Igreja Senhor Bom Jesus do Matosinho. Barra do Guaicuí, MG. Imagem: Janaína Calaça
Durante anos a fio, até que se construísse uma nova igreja em Guaicui, os ofícios religiosos eram feitos em Porteiras. Segundo a mesma fonte, somente a partir de 1918 a Igreja de Porteiras começou a desmoronar, pelo abandono e ação do tempo e dela resta hoje resta pouco. O velho e histórico sino hoje dobra na Igreja Matriz de Guaicui como testemunha do passado no presente.

Há diferenças entre as duas construções. A de pedras fora erguida sobre blocos de pedra, com paredes de cerca de um metro de espessura, com os arcos das portas e janelas talhados em pedras extraídas da serra próxima. A de Porteiras tinha paredes espessas, erigidas com pedras menores e barro, sendo os vãos das portas e janelas sustentados por tábuas e pranchões de madeira, fixados por tijolos queimados. Com o tempo a madeira apodreceu. Primeiro arriou o telhado, depois as paredes começaram a ruir.

Teodoro Sampaio, integrante da Comissão Milnor Roberts, incumbida de estudar a navegação no rio São Francisco descreve o arraial em 15.12.1879 assim: “O arraial conta apenas umas 70 casas e não tem mais que uma centena de habitantes. A Igreja, como edifício mais importante, chamou-nos a atenção e fomos, pois, visitá-la. É uma construção provavelmente do fim do século XVIII. O frontispício dela, que nos disseram ter sido belo, tinha desabado há alguns anos e, foi então reconstruído ou remendado grotescamente.

Desenharam-lhe em meia altura uma fila de peixes azuis e, no frontão, representaram uma coroa ladeada por duas figuras de índios, vestidos a européia e, apontando para ela os componentes arcos retesados. A obra interior seria, porém, digna de admiração e de todo apreço pelo lado artístico, se não fora o muito estrago e a péssima conservação da belíssima arquitetura dos altares. Que belas imagens! Que formosos lavores na obra de talha! Tudo isso, porém, não resistirá por muitos anos tão adiantados e tão irremediáveis são já os estragos do tempo.”

Em 1964 a Igreja desaparecera. Só existiam ruínas conforme afirmou Simeão Ribeiro. Simeão Ribeiro Pires em seu “Raízes de Minas” diz: Quando se visita o antigo arraial da Porteira, em Guaicui, sente-se repassar ante os olhos, os restos indeléveis de um painel antigo. A alma cívica se volta quase de joelhos para um Passado, no Presente esquecido. No cenário tranqüilo, evocativo de grandes meditações, renascem como por milagre, figuras revividas de audazes bandeirantes, de sertanistas e dos humildes anônimos nordestinos que subiram o Rio São Francisco.
Igreja Senhor Bom Jesus do Matosinho. Barra do Guaicuí, MG. Imagem: Janaína Calaça
Os que vieram povoar o sertão, com as fazendas de gado e que nunca mais voltariam às glebas de origem. Como marcos permanentes na paisagem, apenas o GUAIMIHY-UAIMII (Rio das Velhas) presente para todo o sempre na entrega de suas águas, hoje diminutas, ao caudal lendário do Rio São Francisco, espinha dorsal, mediterrânea, que deu unidade ao Brasil.

As ruínas enegrecidas da Igreja, de espessas paredes de taipa, delimitam nos seus contornos as dimensões de uma Fé robusta, cravada, exatamente no cruzamento de duas vias históricas. É crime, grave crime o Presente esquecer o Passado... O mesmo autor, citando J.J. da Rocha e seu livro Memórias Históricas de Minas, afirma que a Igreja de Porteiras se chamava Igreja Nossa Senhora do Rosário.

Diz Edmundo Amaral: “Batem os sinos pelo passado a dentro. Na manhã clara de sol sobe pelo ar um cântico de missa. Fernão Dias, vestido de couro, assiste-a de joelhos, numa contrição profunda que vinca o seu semblante austero, sob a barba loira que parece entalhada de madeira: leva botas altas, de couro cru, cobre-lhe o corpo grande e musculoso um pelote de baeta preta que cai sobre o lagedo em pregas de túnica; e, do tablete de couro vermelho, pende uma espada levantina. No adro espaçoso e empedrado, reúne-se a bandeira; homens grandes e escuros, de rostos rudes como troncos, trazem uma cruz no peito e um arcabuz de lado, e rezam baixo de cabeça vergada.

Na frente, flutuante e larga, na brisa leve, palpita em pregas o pendão do bandeirante; e na retaguarda, entre fardos de lonas e bruacas de couro, mamelucos de olhos metálicos como pontas de faca, vestidos de zuarte, esperam de cabeça descoberta. Uma buzina toca rijo. Bordões batem pesadamente na terra dura. Um tiro de mosquete estoura no ar. E a bandeira parte cheia de heroísmo e sonho na manhã clara, entre repiques de sino”.

Batem os sinos por trezentos anos de história, pelo passado a dentro.


Fonte da matéria: http://www.camaradevarzeadapalma.mg.gov.br/index.php?page=paginas&idPagina=102
Imagens extraídas de http://jeguiando.com/2012/05/10/barra-do-guaicui-mg/

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