Nas casas de Minas....

Nas casas de Minas, a cozinha ficava no fim da casa. 
Ficava no fim não por ser menos importante, mas para ser protegida da presença de intrusos.
Cozinha era intimidade.
E também para ficar mais próxima do outro lugar de sonhos, a horta-jardim.
Pois os jardins ficavam atrás.
Lá estavam os manacás, o jasmim-do-imperador, as jabuticabeiras, laranjeiras e hortaliças.
Era fácil sair da cozinha para colher chuchus, quiabos, abobrinhas,
salsa, cebolinha, tomatinhos vermelhos, hortelã e, nas noites frias,
folhas de laranjeira para fazer chá.
A cozinha era o melhor lugar.
De manhã, depois do café com leite, pão e manteiga, cada um ia para um lugar diferente.
Era a hora da separação.
O que era muito bom.
À noite, todos nos encontrávamos
de novo na cozinha, o que era melhor ainda.
De noite a cozinha era um lugar macio, de ficar quieto, fazendo nada, só gozando...
Gozando a dança vermelha das chamas,o cheiro das resinas, o barulhinho do fogo crepitando,o gosto bom do café com bolo.
Era uma festa para os sentidos tranquilos. Rubem Alves


Imagem: Óleo sobre tela. Pintura do artista plástico Alfredo Vieira 

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