Língua de Negro ou Língua da Tabatinga. O dialeto africano falado por descendentes de quilombolas em Bom Despacho MG

Negros dançando. Pintura de Zacharias Wagener.
A gira da Tabatinga é uma língua afro-brasileira, de origem predominantemente banto. Em extinção, é falada em parte do município de Bom Despacho, estado de Minas Gerais, Brasil, por moradores residentes na periferia da cidade, no bairro chamado Ana Rosa (antigo Tabatinga).

A Gira (ou gíria) da Tabatinga é denominada "Língua do Negro da Costa", pela professora Sônia Queiroz, que publicou o livro Pé preto no barro branco (1998), talvez a principal obra de referência sobre esse dialeto, e também por outros estudiosos.

Segundo a professora, "o uso do dialeto se dava em função da necessidade de comunicação entre escravos que, vindos de pontos diferentes da África, eram misturados nas senzalas. Para sua sobrevivência, desenvolveram, então, um dialeto próprio, que lhes servia de instrumento para o diálogo e, ao mesmo tempo, de afronta aos patrões brancos”.

A gira ocorre sobretudo na forma oral. No entanto, além dos registros realizados em 1998, têm surgido alguns usos escritos do dialeto, entre eles o livro Sumidouro das Almas, de Jorge Fernando dos Santos, no qual o personagem Nonô Carvoeiro utiliza palavras e expressões da Tabatinga.

Até recentemente, sua maior falante chamava-se Maria Joaquina da Silva Dona Fiota, ou Fiotinha, tida pela comunidade como a grande representante da língua. Em 2006 foi criada a Associação Quilombola Quilombo dos Carrapatos, que desenvolve atividades para o registro e a preservação desse patrimônio linguístico ameaçado.
Dona Fiota (na foto, em reprodução de TV) faleceu em 3 de fevereiro de 2012. Seu maior falante atualmente, portanto, é Marquinhos Bacará, cujo pai, o Bacará, participou do livro Pé Preto no Barro Branco, de Sônia Queiroz, como um dos entrevistados.

Exemplo de poema em Gira da Tabatinga (Língua do Negro da Costa):

A koxypa das orygens nos deu vida Fale bayxo prá não atrapalhar O kuete e a okaya ali no mato O kuete e a okaya rasta pro sengue prá curiá, prá curiá Sou cuetyto da cydade Vago entre as moças desnudas de Klimt Queria as paisagens esfumaçadas de Turner Queria ser Zeus, chuva de ouro! Se a imbera tá caxano Não dá vontade de ynjyrar do esquife Eu tenho saudades da minha mingüe avura. Tenho saudades do gato preto de Poe.

Autor: Lúcio Júnior - Fonte: Usina de Letras/Wikipédia
Ilustrações da Conheça Minas.

Conheça a Língua da Tabatinga. Veja as palavras e sua tradução:

Abife: feio.
Aiaque, aiato: Queijo.
Assangue, assango: arroz.
Atiapo: pouco. Isso é ingura que ta meio atiapo. (isso é dinheiro que tá meio pouco)
Avura: grande, ou qualquer outra qualidade que indique beleza. Eu vô caxá matuaba avura.(Eu vou tomar pinga grande) Tinhame da ocaia é avura. (A perna da mulher é bonita). O aumentativo de avura é “avuraço” e o diminutivo é “avurinha”.
Babatimão: suã de vaca.
Banjerê: comida. (caxá o banjerê = comer)
Bambi: frio.
Biguibote: macarrão.
Cafanhaque, cafanhaco, gafanhaque: dente. A ocaia num tem cafanhaque no buraco do cureio. (a mulher num tem dente na boca)
Cafuvira: preto. O oranjê da ocaia é cafuvira. (O cabelo da mulher é preto)
Cajuvira: café.
Camargo: 1 -saco. Pois o teia dentro do Camargo e injirô pó conjô. (Pôs o tatu dentro do saco e foi pra casa). 2 – Pênis.
Cambajara: ônibus.
Cambém: vasilha.
Canberela, camberelo, timbere, timbereia: carne. O cuete qué camberela pra curiá. (o rapaz quer carne pra comer)
Cambereluda: carnuda, gorda, boazuda. (pra juventude dos nossos dias: popozuda)
Camboia: locomotiva.
Cambuá: cachorro.
Camona: criança.
Camonão: meninão.
Camonim: criança. A ocaia tem um camunin (a mulher tem uma criança)
Candombora, canamboia, condomboia: galinha.
Candomborazinha: frango.
Cangura, canguro: porco. Ela me deu um pedacinho de camberela do canguro. (Ela me deu um pedaço da carne do porco)
Cassucará: casar.
Cassucara: casamento.
Cassucarado: casado.
Catitim: pequenininho.
Catovelana, cotovelana: faca.
Caviconve: pão.
Cavinguerão: grande proprietário.
Cavu: paletó.
O verbo com maior número de significados. Caxá: fazer, produzir, criar, mandar, jogar, tirar, receber, ganhar, pegar, carregar, trazer, guardar, pôr. Ficô muito cuete sem caxá ingura (Ficou muito rapaz sem receber)Que tal o sinhô caxá duas candombora. (Que tal o senhor pegar duas galinhas?)
Conema: fezes, diarreia.
Conjema: morte, cemitério.
Conjolo: casa.
Coreã: chapéu.
Covera, corvera: doença
Cuete: homem. O cuete é tibanga. (o cara é bobo).
Cuetim: menininho.
Cumba: sol.
Cumbara: cidade.
Cureio: comida. Num tenho ingura pra comprá cureio (não tenho dinheiro pra comprar comida).
Curiá: comer (no sentido literal e figurado)
Curimbá: trabalhar.
Curimbadô: trabalhador.
Cuxipa, cuxipo: vagina ou nádegas.
Erpido: pênis.
Fute: céu.
Gombê: boi.
Gombezim: bezerro.
Granjão, Garanjão: Deus.
Grozope: cerveja.
Grozopiado: bêbado.
Imbanje: irmão.
Imbiá: cigarro.
Imbondo: Qualquer objeto, coisa. (muita gente hoje diz que não vai almoçar, vai comer um imbondo mesmo)
Imbuete: árvore.
Imbuta: cobra.
Inca: ânus.
Indu: feijão.
Indanga: padre.
Ingora: mula, cavalo, jumento.
Ingura: dinheiro.
Injara: Pênis.
Injará: andar, correr, sair.
Janô; ânus.
Jequê: buraco.
Jequetiotada: esburacada.
Longado: andar, gingado, rebolado.
Massarundá: banana.
Marcanjá: fumar.
Maruco: litro de cachaça.
Matambu: mandioca.
Matuaba: bebida alcoólica, cachaça.
Mavera, mavero: leite, peito, seio.
Missongue: dinheiro.
Mingué: gato.
Moná; criança.
Mongo,Mungo: sal.
Montecristo: carvão.
Moxé: sapo.
Ocaia, ocaio: mulher. A ocaia cafuvira tem mavero avura. (A mulher preta tem o seio grande)
Ocaia ocora: mulher velha.
Ocaia do cuete: mulher do homem.
Ocainha: menina.
Ocaia de cuxipa: prostituta.
Oli: branco.
Omenha: água.
Opepa: bonito.
Oranjê: cabelo.
Orelo, orela: gordura. Essa cuete tem muita orela nos tinhame. (Esssa mulé tem muita gordura nas pernas).
Orongó: cavalo.
Orufim, urufim: peixe.
Orum: carro.
Orum de gombê: carro de boi.
Orum do mavera: Carro do leiteiro.
Oteque: noite.
Prancheio: queda. (pranchiô no chão)
Sengue: mato.
Tata: genitor.
Teia: tatu. Fomo caxá teia. (Fomos caçar tatu)
Tibanga: bobo. As ocaia aqui num é tibanga. (As mulheres aqui não são bobas)
Tibangão: mais bobo ainda, bobão.
Timbuá: mão.
Tinhame: perna.
Caxá os tinhame: (abrir as pernas) fazer sexo.
Tipequera: cama.
Tipoque, tiproque: sapato. (Nome dado por causa da omomatopeia do sapato)
Tipurá: olhar, vender, saber, falar, flertar, pegar, possuir, apreciar. Tipura a ocaia. (Olha só a mulher).
Tipurada: olhada.
Tué, tuezão: cabeça, cabeção.
Uarrufo: bravo.
Uíque: açúcar.
Undara, indaro: fogo.
Unde: sol.
Urufaco: calçado, sapato.
Urunanga: roupa.
Vianjê : cana.
Viriango: soldado.
Viru: defunto.
Vizunga: baile.
Xapixape: comida.

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