Afinal, o que é ser Mineiro?

 
Mineiro que vai, mineiro que fica, mineiro que vem tudo é mineiro, uai.

Tudo é sonhador. Porque o que, primeiro, define o mineiro é a busca do sonho impossível. É este dar a vida por um sonho ou uma quimera. Pelo sonho da liberdade, Felipe dos Santos foi arrastado nas patas de um cavalo

. E se pudesse gritar, gritava, como quem grita o nome da mulher amada:

- Liberdade! Pela quimera da liberdade, essa amante tardia, que chega sempre depois da hora (embora um dia sempre chegue), Tiradentes deu a vida e se mais vidas tivesse, mais vidas daria à amante única.

O mineiro Santos Dumont, na busca do impossível, deu asas ao sonho humano de voar. O mineiro Juscelino plantou uma cidade de concreto no cerrado como se plantasse uma flor.

Já o mineiro Édson Arantes do Nascimento, Pelé, sempre perseguiu o impossível: fez mais de mil gols, sempre por tortuosos caminhos. Perseguia o difícil. Nada do drible fácil. Nada de gol que não provoque um incêndio na alma. E perseguiu aquele que seria o gol impossível, que nunca fez: surpreender o goleiro com o chute de meio-de-campo, encobrindo-o e fazendoo pisar a grama que o diabo plantou enquanto ele, Pelé, mineiro e São Tomé, sempre precisando ver para crer, iria festejar, dando um salto da alegria e esmurrando o ar.

Que fez o mineiro Ivo Pitanguy senão realizar o sonho impossível, decretando a eterna juventude na mágica do seu bisturi?

Mineiro é religioso, mesmo quando ateu. Mineiro tem sempre um sino tocando dentro do peito. Tem sempre uma procissão passando, com beatas cantando desentoadas, na sua memória. E se o mineiro não fosse assim, acima de tudo um devoto, teria conspirado contra Deus, que deu a Minas esta valentia, esta determinação, esta busca do sonho, onde o sonho estiver, mas privou Minas do mar tão desejado.

Se Minas tivesse mar, isto aqui seria o paraíso. Mas como não dá para transformar os rios em mar, o mineiro planta sonhos como se plantasse uma roça de milho.

Acho que toda manhã o mineiro deveria ajoelhar-se em dois bagos de milho, à moda das beatas do interior de Minas, e rezar assim: - Obrigado, Senhor, por fazer de mim um mineiro.

O mineiro é uma lenda? É um folclore? É ficção? É mentira pura? É o fato? É a versão do fato? Os invejosos, os que não receberam a dádiva divina de em Minas nascer, gostam de folclorizar o mineiro. Aí dizem:

- O mineiro está sempre em cima do muro! Mas eu pergunto: - Tiradentes estava em cima do muro?

Mais uma vez pergunto: - Juscelino, que enfrentou os militares, que vetaram sua candidatura, e depois foi cassado, aprisionado, exilado, alguma vez estava em cima do muro?

Reza o folclore que o mineiro é pão-duro. É sovina. Ama o dinheiro. Ama criar bancos - e aqui já não é folclore, é verdade. Dizem que o mineiro típico nunca abre a mão.

Mas eu acrescento: quando o mineiro abre a mão, está lá, tatuado por Deus na palma que é a sua alma, o orgulhoso M de Minas. Porque o mineiro é orgulhoso.

E onde estiver, em Belo Horizonte, São Paulo, Rio, Brasília e nas estradas do mundo (EUA, Austrália, Portugal, Canadá), ele carrega o orgulho de ter nascido nestas Minas Gerais.

O mineiro ama conspirar, como ama comer pão de queijo ou torresmo.

Em Minas (se alguém já disse, eu confirmo) há sempre uma conspiração em curso.

Altaneiro, mais que amigo: amante da liberdade, é um criador de auroras e aleluias.

Não abaixa a cabeça para os tiranos.

Não se dobra como uma árvore dobra.

E tem um lema caro em nosso coração, que determina nossa conduta: - De joelhos, só diante de Deus!

Roberto Drummond é jornalista e escritor. Autor do romance Hilda Furacão e Cheiro de Deus.
Pintura do artista plástico Carlos Madeira - Bom Despacho MG

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