Dona Joaquina do Pompéu - As duas faces da matriarca

Grande dama? Messalina dos trópicos? Até hoje não se sabe ao certo quem foi Joaquina do Pompéu, uma das mulheres mais ricas e poderosas do século XIX

Uma grande dama do século XIX, pia, conservadora, religiosa e bem comportada, ou uma sinhá da “pá-virada” que escandalizava a sociedade fornicando com os próprios escravos? É entre esses dois extremos que oscila a fama de Joaquina do Pompéu, uma das mulheres mais poderosas das Minas Gerais do seu tempo. Quando morreu, aos 72 anos, em 7 de dezembro de 1824, vítima de derrame cerebral, deixou uma herança avaliada, em dinheiro atual, em aproximadamente 2 bilhões de reais. E também uma memória controversa. Até os dias de hoje, circulam inúmeras histórias sobre a grande senhora, relembradas e transmitidas boca-a-boca e também registradas pela literatura e pela historiografia.

Dona de um nome extenso que lhe dava foros de nobreza – Joaquina Bernarda da Silva de Abreu e Silva Castelo Branco Souto Maior de Oliveira Campos – ela nasceu em Mariana (MG) em 20 de agosto de 1752. Era a quinta dos nove filhos de um advogado português, Jorge de Abreu Castelo Branco, e da açoreana Jacinta Teresa da Silva. Ficou órfã de mãe aos 10 anos de idade, mas d. Jacinta teve tempo de educá-la como uma pequena dama à moda européia, ensinando-lhe a “ler, bordar, coser e cozinhar, assim como a rigorosa política do século XVIII, que era a polidez de receber as pessoas e tratá-las com fineza”. Viúvo, o pai de Joaquina retomou os estudos eclesiásticos começados em Coimbra e se ordenou padre. Em 1762, transferiu-se com a família de Mariana para Pitangui, vila localizada no oeste da capitania de Minas. Foi lá que Joaquina conheceu o capitão de milícias Inácio de Oliveira Campos, com quem se casaria em 1764.
É nesse período que se revelam as primeiras expressões de um temperamento forte, arrebatado e independente. Embora, aos onze anos, estivesse apaixonada por Inácio, se vê obrigada, como era costume na época, a ficar noiva, por imposição do pai, de um homem de que não gostava, o comerciante Manuel de Sousa e Oliveira. No dia do noivado, no entanto, recusou-se a um brinde com o “prometido”. Para espanto dos presentes, aproximou seu copo do copo do capitão de milícias, que comparecera à festa, e disse em alto e bom som: “Não é para beber a saúde do noivo escolhido? Pois eu bebo a saúde de meu noivo, capitão-mor Inácio de Oliveira Campos”. A atitude de Joaquina quase resultou num duelo entre Inácio e o noivo ultrajado, que acabou demovido da idéia.

Apesar dos protestos paternos, Joaquina e Inácio acabaram se casando, em 20 de agosto de 1764. Ela com 12 anos, e ele 30. O casal mudou-se para uma pequena propriedade nos arredores de Pitangui: a Fazenda Lavapés. Conta-se que Joaquina se mostrou uma esposa trabalhadeira, sempre disposta a encarar a lida da fazenda. Em 1771 Inácio é designado para missões de apresamento de índios e negros fugidos nos sertões do oeste mineiro e recebe por isso, como recompensa, várias sesmarias que aumentam consideravelmente seu patrimônio. Com a morte de seu pai, em 1774, herda terras em Paracatu (região noroeste de Minas), e fica ainda mais rico. Como o capitão passava muitos meses fora de casa, a administração da Fazenda Lavapés ficava por conta de Joaquina, que se desincumbia com extrema competência da tarefa. Em 1784, o casal se muda para a Fazenda do Pompéu, localizada no centro-oeste de Minas, que pertenceu oficialmente a Manuel Gomes da Cruz até 1792.

Este é um período bastante controverso da vida de Joaquina, sobretudo pelos seus negócios escusos que lhe renderam a fama de intransigente, violenta e desonesta: Referem-se a esse período as histórias, narradas ainda hoje, sobre suas práticas de roubo de gado e assassinato de boiadeiros, cujos corpos seriam enterrados embaixo de seu sobrado. Este, aliás, conhecido como o Solar de Joaquina do Pompéu, uma construção iniciada em 1785, era um casarão muito grande, de dois pavimentos divididos em 79 quartos, feito de esteio de aroeira em sistema de pau-a-pique, cujas ruínas se mantiveram de pé até 1954, quando foi demolido para a construção de uma rodovia. Os pontos controvertidos desse período são muitos: entre eles, a própria mudança do casal para Pompéu e a construção do imenso solar quando ainda não tinha a posse oficial da terra. A escritura da Fazenda do Pompéu é lavrada apenas em 1792, conforme registrado em uma ação de Antônio José de Faria movida contra Joaquina. O demandante acusava Joaquina de dar um golpe contra o antigo proprietário do Pompéu, aproveitando-se de sua idade avançada, comprando-lhe a terra por preço irrisório e, como se não bastasse, não lhe pagando tudo que devia. Uma série de cartas escritas entre 1792 e 1798 pelo próprio Manuel Gomes, endereçadas a Joaquina, hoje localizadas no Arquivo Público Mineiro, traz indícios de que ela atrasava o pagamento da dívida.

Em 1795, Inácio ficou paralítico e Joaquina assume os negócios e o controle do latifúndio. Com a morte do marido, nove anos depois, é que a grande proprietária, aos 52 anos, começa a construir, de fato, a sua fama. Desde então as versões sobre sua conduta moral e sexual são desencontradas. Alguns, como o poeta e jornalista Lindolfo Xavier, afirmam que a viúva todo-poderosa jamais pensou em casar de novo, mantendo-se “fiel à memória do marido, honrando-lhe o nome e as tradições”. Austera, portava-se como um verdadeiro comandante, não poupando nem os dez filhos de sua disciplina quase militar. Mulher de grandes pudores, não se mostrava nua, no banho, nem para as escravas de confiança. Tratava e alimentava bem os escravos. Religiosa, caridosa com as causas da igreja católica, era respeitada até pelas autoridades reais.

Mas existe o “lado B” da viúva Joaquina do Pompéu, construído a partir dos pontos mais obscuros de sua vida e de sua condição de mulher, viúva, senhora de escravos que estava à frente dos negócios. Os que defendem sua memória dizem que tudo não passaria de “maledicência, lendas, coisas inventadas”, mas o fato é que algumas histórias que circulavam na época não lisonjeiam sua personalidade. Em vez de boa, seria muito cruel com os escravos. Em vez de honesta, era corrupta nos negócios. Pior do que tudo, pela ótica da sociedade colonial, tratava-se de uma mulher lasciva e mesmo “depravada”. Sua conduta escandalosa caiu em breve na boca do povo, que se encarregou de passar, de geração a geração, histórias que envolviam descomedimentos e sexo desregrado.

Uma delas é que gostava de recrutar negros escravos para o seu deleite erótico. Naquele tempo os senhores podiam até fazer isso, mas nunca as mulheres. Dizia-se que dava ordens para que se colocasse o amante eventual “de molho” numa banheira, durante dias, antes dos seus serviços sexuais, a fim de retirar-lhe o “bodum”. Alguém chegou a vê-la enlaçada com um escravo à margem do córrego das Areias, em plena luz do dia, num lugar onde havia um monjolo. Segundo as más línguas, a engenhoca, com suas batidas intercaladas e constantes, ditaria o ritmo da cópula, enquanto transformava o milho em fubá. Ainda hoje, as pessoas da região contam risonhamente esta história concluindo quase sempre com uma frase inusitada: “Era uma pancada de lá e outra de cá! Na beira do corgo, êta mulher safada, Sô!”.

Fora esse lado mais obscuro, Joaquina foi – isto comprovadamente – anfitriã de viajantes estrangeiros que estiveram aqui a serviço do rei de Portugal e recebeu no seu solar os alemães Eschwege e Freyreiss, respectivamente em 1811 e 1813. Participou também, indiretamente, da Independência do Brasil, em 1822, enviando bois para as tropas de d.Pedro, na Bahia. Por sua influência política, embora “não tivesse exercido cargo eletivo”, é constantemente evocada como matriz de uma elite política regional mineira.

Quando morreu, tinha 74 netos e 15 bisnetos. Do seu testamento constavam 11 fazendas, 40 mil cabeças de gado e algumas centenas de escravos, fora baixelas de prata e bandejas e barras de ouro, entre outros tesouros. Mas talvez sua grande herança seja justamente a imagem múltipla que deixou: “sinhá braba” ou “dama do sertão”? É esta que até hoje povoa a imaginação da posteridade.

O barão e as más línguas

Quando fazia um levantamento das riquezas minerais do Alto São Francisco, a serviço do rei de Portugal, Wilhelm Ludwig Von Eschwege (1777-1885), o barão de Eschwege, hospedou-se no solar de Joaquina do Pompéu. Os resultados da viagem foram apresentados no livro Pluto brasilienses, escrito por volta de 1821 e publicado, pela primeira vez, em 1833, em Berlim. Na obra, o autor narra a chegada à Fazenda do Pompéu, registrando a sua surpresa com o tamanho da propriedade, que descreve como tendo pelo menos 150 léguas quadradas. Ficou também bem impressionado com a hospitalidade de Joaquina e a assistência por ela oferecida. Sua comitiva ficou ali abrigada por vários dias, munindo-se de víveres necessários à retomada da viagem em direção aos rios Indaiá e Abaeté. O barão registra, em nota de rodapé, seu agradecimento especial a Joaquina e procura esclarecer um boato que surgiu a respeito do mineralogista e da hospitaleira fazendeira: um suposto envolvimento amoroso seguido de um presente de mil bois oferecidos a ele por Joaquina. Segundo o próprio Eschwege, suas constantes hospedagens, “às vezes por semanas”, na casa de Joaquina, deram origem a “boatos que correm a meu respeito espalhados por alguns viajantes e subscritos por outros”. Para o viajante, entre os que poderiam ter contribuído para fazer circular a intriga estaria outro alemão, de nome Werner, que também se hospedou no solar. Mas talvez Eschwege estivesse mais próximo da verdade caso suas suspeitas recaíssem sobre os próprios moradores da região. Era a população do oeste mineiro que, em geral, espalhava aqueles comentários “maliciosos”, como, aliás, ocorre ainda hoje.
Autor:Gilberto Cézar de Noronha, professor de história da Faculdade do Alto São Francisco – FASF/LUZ e autor do livro Joaquina do Pompéu: Tramas de memórias e histórias nos sertões do São Francisco. Uberlândia: EDUFU, no prelo.
Fonte:http://www.revistadehistoria.com.br/secao/retrato/as-duas-faces-da-matriarca

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