A história dos Libaneses em Bom Despacho MG

Não chorem por mim, montanhas do Líbano

Chegada dos Imigrantes Árabes ao Brasil no final do século XVII

O Líbano é um pequeno país de apenas 10400 km2 na Costa Mediterrânea da Ásia. No litoral, numerosos portos se abrindo para o mundo numa intensa atividade comercial herdada dos Fenícios, antigos habitantes da região. No interior, nas montanhas, as oliveiras, as vinhas, as estradas ladeadas de macieiras, o pastoreio das cabras e as águas cristalinas.

Da região litorânea próxima de Beirute vieram para Bom Despacho os Seman, que eram Maronitas (Católicos): Antônio Turco, Chico Turco, Pedro Turco e Joana Turca com o marido Filipe. E muitos anos depois veio Maria, filha de Joana, que fora deixada ainda bebê com parentes no Líbano.

De Gharife, no Estado de Chuf, nas montanhas, vieram os Hamdan: Hassem (Alcino), Salim, Seleimen, Nacib, Fued, Farhan, Nanf e Nabiha. Eram Drusos (um ramo da religião Muçulmana). Hoje, segundo cálculo do Sr. Salim, a família hamdan tem cerca de 150 membros, no Brasil, contando os descendentes. Pedro Hamdan, o libanês que viveu anos no Leandro, não era da família, adotou o nome em homenagem aos amigos Hamdan.

O primeiro libanês a chegar aqui foi Antônio Turco, no último quartel do século passado. Trabalhou inicialmente onde hoje é o Banco do Brasil. Muito alegre e comunicativo, passava o dia sentado com as pernas cruzadas sobre o balcão, conversando. Sua casa, no Jardim Sem Flor, onde hoje mora o Raimundo Cardoso, era um verdadeiro Consulado do Líbano, recebendo e ajudando a todo patrício que por aqui aparecia. Pode-se dizer que a presença de Antônio turco acabou atraindo muitos libaneses para cá. Ele vivia com a Adelaide e criou vários sobrinhos dela, entre eles D. Cornélia Borba.

Depois de Antônio Turco, seus irmãos foram vindos um a um. Chico Turco, que adotou o sobrenome Simão, veio trabalhando como marujo num navio em torça da passagem. 6 meses de viagem. Aqui trabalha como mascate e comerciante fixo. Casa-se com a brasileira Maria Jesuína e teve muitos filhos, entre eles o Juca Turco. O Zico Turco não era libanês, mas brasileiro, casado com a D. Mariazinha, filha do Chico Turco e trabalhava no comércio com Juca Turco.

Já o primeiro membro da família Hamdan a chegar aqui foi Hassem Abe Hamdan que adotou o nome de Alcino, em 1904 com 20 anos. Estabeleceu-se como mascate. Em 1914 se casa com D. Inhazinha, neta de D. Chiquinha Soares. Depois, abre a casa Síria na esquina da Rua Dr. Miguel Gontijo com rua 1º de Junho, de sociedade com o irmão Salim, onde vendiam de tudo: tecidos, sapatos, aviamentos, instrumentos musicais, ferragens, carne, cereais, toucinho dos porcos que engordava no fundo do quintal. Tinha ainda na loja uma bomba de gasolina e fabricavam colchões.

Salim Abe Hamdan veio em 1913. Veio buscar o irmão Alcino. Ficou também. Associa-se ao irmão na Casa Síria e aqui viveu até 1929 quando se transferiu para Belo Horizonte, à procura de um campo maior para expandir seu comércio. Logo que chegou construiu um sobrado onde era a Caixa Econômica Estadual e o emprestou para funcionar como Escola Normal onde se matriculou como aluno. Rapidamente aprendeu português. 4 anos após sua chegada tirou o 2º lugar num concurso de teatro. Fundou com os irmãos o Bom Despacho Futebol Clube, onde por muito tempo jogou no 1º time. Foi um dos sócios fundadores do Clube Bom Despacho. Em 1931, já em Belo Horizonte, se casa com Maria Seman, filha de Joana Turca.

Hoje aos 87 anos, ainda vivendo com a esposa em Belo Horizonte, Salim afirma que os anos aqui passados foram os melhores de sua vida. Eram festas, bailes, futebol, teatro, namoradas, aulas de bandolim, o curós na Escola Normal e sobretudo muitos amigos, entre eles o Nicolau Leite.

Em 1925 chegou Seleimen Abe Hamdan, vindo se juntar aos irmãos Salim e Alcino, deixando no Líbano a esposa Nabiha de 17 anos com 2 filhos, Nawaf de 1 ano e 3 meses e Neif de 40 dias. Aqui Seleimen trabalha como mascate e mais tarde abre o Bar Cruzeiro onde é hoje a Livraria Central. E aqui viveu até 1958, quando morreu.

Alguns anos depois da chegada de Seleimen, vão chegando os seus sobrinhos: Nacib, Fued e Farhan. Ficam pouc tempo por aqui. Farhan se asa com Gessi, irmã do José Pessoa Marra e vai pra Nanuque. Fued foi para Nanuque e depois voltou para o Líbano e Nacib logo foi para Belo Horizonte.

Em 1953 chegaram Nawaf Seleimen Bou Hamdan e a mãe Nabiha Youseff Bou Hamdan, natural da Síria.

Nawaf nasceu em 1923 em Gharife, no Estado de Chuf nas montanhas, a 60 km de Beirute. Com 1 ano e 3 meses foi deixazdo pelo pai Seleimen, juntamente com o irmão Neif de 40 dias com a mãe Nabiha. Nabiha trabalha seis meses por ano nas colheitas de azeitonas nas imensas plantações de oliveiras que cobriam as montanhas de Chuf para tirar o sustendo de 1 ano.

Nawaf foi criado na pobreza, numa casa de um único cômodo, praticamente sem móveis. No chão, tapetes com almofadas. À noite os colchões cheios de lã de carneiro estendidos um ao lado do outro. Aos 12 anos, a fome rondando sua porta, teve que abandonar a escola e começar a dura tarefa de procurar emprego para ajudar a mãe no sustento da família. Nos documentos a palavra Druso que o discriminava num país onde a legislação deixada pela ocupação francesa privilegiava os Maronitas. Não consegue emprego. O recurso foi ir com um primo para a Síria, onde trabalha como tratorista até os 30 anos, quando vem para o Brasil. Passa 6 meses na Síria e 6 meses com a mãe em Gharife. No Líbano não se trabalha no campo por causa da chuva e do inverno.

O menino Nawaf quando ouvia a palavra pai estremecia. Apesar da dura vida que levava ele sonhava. Sonhava um dia dizer pai e ter resposta. Do alto das montanhas de Gharife ele avistava o Mar Mediterrâneo em Beirute e sonhava atravessar aquele mar e depois atravessar o Ocêano Atlântico para se encontrar com o pai no Brasil.

O menino Nawaff cresceu e o sonho cresceu junto. Em 1953, já com 30 anos e noivo,não agüenta mais a saudade do pai. Escreve-lhe uma carta abrindo seu coração. Recebeu resposta imediata do pai. E logo a seguir 3 passagens para o Brasil. O irmão Neif já casado não quis vir. Nawaf veio com a mãe. No aeroporto do Rio de Janeiro a emoção do reencontro com o pai que também emocionado se atrapalha e lhe dirige a palavra em português.

Aqui em Bom Despacho Nawaff trabalha 5 anos com o pai no Bar Cruzeiro. Os primeiros meses foram muito difíceis, apesar da alegria de estar junto com o pai. Não estranhou o clima e nem teve problemas com a alimentação, mas teve uma dificuldade imensa com a língua. Angustiava-se por não entender nada que as pessoas diziam e nem por não saber falar com estas pessoas. E sofria muito com a saudade do único irmão deixado no Líbano. 3 meses após sua chegada resolve voltar para o Líbano. Quando os papéis ficam prontos, 7 meses depois não quer mais voltar. Arranjava uma namorada, a professora D. Zeni que pacientemente lhe ensinava a falar e a escrever o português. Fica. Ele e Zeni se casam. No filho mais velho a tradição libanesa do nome do pai: Selemen Nawaf Hamdan. Nos outros filhos, os nomes libaneses: Samir, Hamdan, Semi Hamdan, Samira Hamdan.

Com a morte do pai em 1958, fechou o bar e continuou só com a loja que abrira onde fora a Farmácia do Favuca, mais tarde transferida para o sobrado da Escola Normal, alugado do Tio Salim.

A mãe viveu em sua companhia até a morte, em 1975, aos 67 anos, sem nunca ter aprendido a falar português. Mas, adorava o Brasil. Nunca quis voltar para o Líbano. Morreu sem rever o filho Neif.

Viver no Líbano Para ela significava passar fome. Ela nunca se esqueceu da dura vida que levou lá. E aqui na sua mesa tinha sempre os pratos libaneses, como o Yorgute, a lentilha, o feijão branco com rabada, o grão de bico, o óleo de gergelim, galinha cheia de arroz, charuto de repolho e outros.

Hoje, aos 61 anos, Nawaf continua com seu coração dividido entre o Brasil e o Líbano onde continua vivendo o irmão Neif que há 31 anos não vê. Acompanha apreensivo a Guerra Civil que há 10 anos vem destruindo o Libano, uma guerra que procura por fim aos privilégios políticos dos Maronitas, que sempre escolhem o presidente da República, segundo a Legislação do país.

Hoje, 31 anos após deixar o Líbano, Nawaf ainda sonha. Sonha voltar ao Líbano para rever o irmão. Voltar a passeio, porque hoje sua pátria é o Brasil onde estão sua esposa, seus 4 filhos e os 2 netos. Ao mesmo tempo ele sonha e chora pelas montanhas do Líbano. Ele diz que maior do que a saudade é o medo. O medo de subir no alto das montanhas de Chuf e vê a desolação. Medo de não mais reencontrar o irmão. A última notícia que recebeu dele foi em janeiro de 1983, através de um parente que mora nos Estados Unidos e fora ao Líbano. E nada mais. Escreve, escreve e não obtém resposta.


Artigo escrito pela historiadora Francisca Fonseca no final dos anos 80

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