Conheça Francisca da Silva de Oliveira: a Chica da Silva

A verdadeira história de Chica da Silva traça o perfil de uma mulher de personalidade e líder feminina, algo difícil em uma época marcada pela discriminação, primeiramente por ser mulher, e principalmente negra em um país escravocrata.

Chica era uma das poucas escravas que sabia ler e escrever. Supõe-se que seja filha de um senhor com uma escrava. Foi libertada a pedido do contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. 

Dificilmente continuaria escrava, pois morava na Vila do Príncipe, com o presidente do Senado da Câmara, com o qual já se encontrava junto antes do contratador.Tinha o poder de dominar os poderosos com toda a sua astúcia, era considerada uma autêntica mineira. Era conhecida como Chica que manda, pois todos os favores pedidos ao contratador teriam que passar pelo seu crivo.

Viveu e morreu no Arraial do Tijuco, atual distrito de Diamantina (MG).A autenticidade de Chica também marcou a sua história, não apenas pelo seu poder de conquista e de mando que exercia sobre seus amantes, mas soube aproveitar as oportunidades em benefício dos seus desejos e excentricidades, por exemplo: castelo em estilo medieval em sua Chácara da Palha; ia à igreja coberta de diamante e acompanhada por doze mucamas ricamente vestidas; usava cabeleira anelada cobrindo sua cabeça raspada; tinha um pequeno navio para navegar no mar que mandou construir; era considerada uma patrocinadora da arte, afinal o único teatro permitido era de sua propriedade; banda de música à sua disposição; duas capelas; jardim de plantas exóticas importadas, cascatas artificiais, fontes, tanques para pescaria, etc.

Logo após sua alforria já era proprietária de um sobrado e alguns escravos, demonstrando que procurava inserir-se no mundo livre do arraial, incorporando seus costumes e adquirindo os necessários para se fazer respeitada. 

Chica seguia atentamente todos os hábitos das senhoras da elite mineira.Seus desejos eram uma ordem. Os melhores lugares nos templos eram reservados para ela. A nobreza do Arraial do Tijuco e até mesmo os visitantes curvavam-se e beijavam a sua mão.Chica era uma mãe muito zelosa e presente e reforçou os seus cuidados quando seu marido voltou a Portugal, para prestar contas à coroa. 

Teve treze filhos, 9 mulheres e 4 homens, educou suas filhas no Recolhimento de Macaúbas, melhor educandário da região, reservado apenas para moças ricas; também teve um filho seminarista que mais tarde tornou-se padre. 

Uma das coisas que mais a incomodava era o preconceito sofrido por suas filhas, que não poderiam ocupar cargos de importância na comunidade e nem usar véu branco. Afirmavam que não tinham sangue puro. Com isso, Chica as tirou do convento, encaminhando-as para outros lugares que achava conveniente.

O mito se popularizou em nossos dias. Chica é conhecida como uma mulher imoral que usava da sua sensualidade para conseguir as regalias que queria. Isto nada mais é do que o resultado de um dos estereótipos do papel da mulher negra na sociedade colonial, sendo este construído pelos próprios historiadores, a partir do século XIX. 

Chica apareceu como personagem histórica pela primeira vez nos textos de Diamantina, publicados pelo jornal O Jequitinhonha. Depois reunidos nos livros Memórias do Diamantina, onde mais uma vez sua imagem foi deturpada.Sua trajetória foi de luta para tentar diminuir o estigma que a cor e a escravidão lhe impuseram.Faleceu no dia 15 de fevereiro de 1796, no Arraial do Tijuco. Foi enterrada na Igreja de São Francisco de Assis, irmandade reservada para elite branca do arraial. O cortejo foi acompanhado até à sepultura por todas as irmandades a que pertencia. De acordo com suas disposições testamentárias, foram rezadas 40 missas para sua alma na igreja das Mercês, que reunia os pardos e mulatos.

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