Colonização Alemã em Bom Despacho MG

Navio com imigrantes alemães chegando ao Porto de Santos

                Saindo de um país arrasado pela Primeira Guerra Mundial, temerosos de uma Segunda Guerra e acalentando o sonho de um pedaço de terra, difícil na Europa, muitos alemães chegaram ao Brasil no início dos anos 20, após uma difícil e perigosa travessia de três meses pelo Atlântico minado.
                Vindos de diferentes pontos da Alemanha, alguns da Suíça e da Hungria, aqui em Bom Despacho se encontraram após uma quarentena na Ilha das Flores no Rio de Janeiro. Aqui se agruparam em duas colônias: Davi Campista e Álvares da Silveira, num total de mais ou menos 80 famílias: Kohnert, Hammerich, Fischer, Peifer, Korel, Primus, Bobbia, Knischewsky, Gendorf, Enhemann, Shmeidereit, Feistel, Brack, Seidler, Grimpel, Frey, Wesser, Wsterman, Klimanschefsqui, etc. Cada família recebia um lote de cerca de oito alqueires que deveria pagar entregando na sede da colônia 20% do que produzia. Poucos conseguiram acabar de pagá-los. Dificuldades uma atrás da outra. Clima inóspito para o Europeu. A língua que ninguém entendia. A alimentação diferente. A formação técnico-industrial e não agrícola da maioria. O nível do maquinário agrícola inferior do de seus países de origem. A ausência quase total de conforto nas colônias, a dificuldade para fazer compras. E depois a própria falta de dinheiro. Em Álvares da Silveira, uma região infestada de doenças tropicais como a malária e o tifo, e todo tipo de praga como piolhos de galinha, carrapatos, bichos de pé, borrachudos e outros mosquitos. Bagagens roubadas, perdidas. Muitos alemães se assustaram e não chegaram nem a tirar as ferramentas das malas.
                Mas, trabalhadores e alegres, com um nível técnico profissional muito acima da média brasileira, logo se organizaram e tiveram um período florescente, principalmente na Colônia Davi Campista, até a entrada do Brasil na Segunda Guerra, em 1942, contra a Alemanha, quando muitos colonos foram presos, espancados e perseguidos. A colônia se desintegrou. A escola mantida pelo consulado foi fechada. E muita gente abandonou seus lotes e foi embora.

 Casarão sede da Colônia Davi Campista. Fotografia de Arnaldo Silva

                Hoje só restam aqui 4 dos alemães vindos na emigração da década de 20, com seus lotes: Dona Rosa Korell, com 89 anos, Frederico Schneidereit, com 84 anos, Bruno Kolnert com 85 anos e Dona Dora Seidler, 78 anos. Velhos, mas fortes, corajosos e firmes. Gente acostumada a lutar e a vencer. Eles venceram. Venceram um desafio, venceram a vida nos trópicos, a malária, os mosquitos, a língua. Esta gente ajudou a construir Bom Despacho.

Ruinas da Estação de Trem de Álvares da Silveira, próximo ao Rio Lambari. Fotografia de Arnaldo Silva 

                Dona Rosa Korell, natural de Berna, na Suíça, veio com o Mario Ângelo Bobbia, construtor atraídos pela propaganda brasileira. Vieram com 32 famílias para Álvares da Silveira e até que as casas ficassem prontas se abrigaram no sobrado da sede, em cujo porão se abrigavam porcos e galinhas. Na chegada já enfrentaram piolho de galinha, bicho de pé, pulgas e carrapatos. Em seguida a malária, a tifo e outras febres que infestavam as margens do Lambari. Muitos alemães partiram. Outros ficaram. E Dona Rosa entre eles. E lá ela está até hoje. Lá viu o primeiro marido ser assassinado, Ângelo Bobbia. Continuou a luta sozinha. E depois novamente casada, com Frederico Korell prosseguiu enfrentando as dificuldades. Trabalhou por 40 anos como parteira. E lá em Álvares da Silveira, no seu lote vive até hoje, lúcida, enérgica, alegre e respeitada, recebendo ½ salário do Funrural. Sua pensão da Alemanha foi inexplicavelmente cortada.
                Bruno Kohnert veio de Essen, na Alemanha, onde trabalhava com o pai e o irmão na Krupp que funcionava com 45.000 empregados e na guerra chegou a ter 100.000, dia e noite, sem interrupção. O pai, Gustavo Kohnert era instrutor-técnico de alto nível, inclusive veio 6 meses depois da família, porque estava concluindo a montagem de uma máquina, invenção sua, para a exposição de Leipzig. Ficou pouco tempo em Álvares da Silveira, foi trabalhar com um dos filhos em Belo Horizonte, na Força e Luz até a Segunda Guerra, quando foi dispensado. Bruno e o irmão Fritz montaram uma oficina na Rua da Liberdade (Beco dos Aflitos), hoje Coronel Tininho. Hoje Bruno fala com emoção do passado: “Ninguém pode imaginar o que seja uma guerra. Estive dois anos na frente oriental, na Primeira Guerra. Lutei na Rússia a 35 graus abaixo de zero. Entre meus amigos de Essen, fomos 250 para a guerra. Só voltaram 6. E eu era um deles”. Em 1932 ele se casa com Dora Seidler e tiveram 4 filhos: Siegfried, Bruno, Errol e Maria Antônia.
                Dona Dora Seidler veio de Pismeberg, perto de Hamburgo com a família. O pai, Frederico Seidler, ferreiro, com sua própria oficina, tinha lutado na Guerra dos Boxers, na China, em 1900, onde fora ferido, e depois na Primeira Guerra. E quando foi aberta a imigração, ele disse: “Vamos para o Brasil. Virá outra guerra mundial e será muito pior do que esta. Deixou lá a casa mobiliada por 50 anos. Mas, nunca falou em voltar. Morreu aqui, com 90 anos. Dona Dora vive até hoje aqui e ainda possui o lote que seu pai recebeu.Aos 78 anos, muito alegre e forte, falando com saudade das festas, dos tempos áureos da colônia e guardando um precioso acervo em retratos e documentos sobre a colonização alemã.
                FredericoSchneidereit veio também em 1921, aos 11 anos, com o pai, Fritz que trabalhava na fábrica Bayerd, perto do Reno, a madrasta e os irmãos. No início tiveram alguma dificuldade na adaptação. Estranharam a alimentação, mas, criativos substituíram o centeio pelo fubá, o trigo pelo arroz, o vinho de cereja pelo de jabuticabas, faziam cerveja de milho e de arroz. Aprenderam a beber cachaça. Mas, a terra era pouca e não era boa. Logo a família se dispersou. Um irmão eletricista foi para os Estados Unidos, o próprio Frederico andou 7 anos pela América do Sul, chegando até a Terra do Fogo, trabalhando de pedreiro, carpinteiro, ferreiro. Voltou e se casou com uma brasileira criada na colônia. E vive até hoje no lote na colônia Davi Campista, muito lúcido e forte. Ainda lê muito em português e alemão. É o único dos 4 alemães que recebe cerca de 100 mil cruzeiros por mês de pensão da Alemanha. Recebe também o Funrural.
                Aqui vive também alguns descendentes de alemães, como Elza Kohnert, filha de Alma Maria Hammerich ou Alma Kohnert. Dona Alma veio com 17 anos de Bostd, perto de Hamburgo com os pais e 6 irmãos. O pai, Hanrich Hammerich, ceramista do tijolo à louça fina. Do Rio a família foi para Caeté, a convite de Israel Pinheiro. Lá num museu existem até hoje trabalhos de Hanrich feitos para provar a Israel que o barro de lá servia para louça fina. Depois de 2 anos vieram para Álvares da Silveira. O sonho da terra. Um ano e meio depois voltaram para Caeté, assustados com as doenças. E de Caeté, um ano mais tarde, voltaram para a Alemanha. Dona Alma casada com Fritz Herbert Kohnert, irmão do Bruno, vem para a cidade trabalhar como parteira e o marido na oficina. Dos 4 filhos, Ilda, Margarida, Adolfo e Elza, só Elza vive ainda aqui e fala com carinho da mãe que é também um pouco mãe de todo bom-despachense.
                Já Marlene Knisheswsky sabe pouco sobre seu pai, Walter Knishewsky, vindo com 2 anos da Alemanha comos pais e uma irmã. Os pais morreram, a irmã foi para Rondônia e Walter se casou com Zeli Vargas, vindo a falecer os dois no mesmo dia, de câncer, deixando 7 filhos. A mais velha, Marlene, com 17 anos, casa-se com o professor Lourival e juntos com dedicação criam os 6 irmãos menores: Walter, Antônio Carlos, Maria Aparecida, Ana Helena, Ilma e Rosilene. Hoje alguns já estão casados e a mais nova termina este ano o segundo grau.
                Em Álvares da Silveira ainda vive Zico Primus, descendente de Berta Primus, que lutou até de enxada para conservar seu lote. E conservou.
                Além das dificuldades comuns enfrentadas pelos europeus nas regiões tropicais, pode-se acrescentar outras razões para o fracasso da tentativa da colonização alemã em Bom Despacho. Entre elas, o fato dos alemães representarem uma mão de obra especializada para a indústria e não para a agricultura como foram encaminhados segundo os planos do Governo Brasileiro que visavam o desenvolvimento da pequena propriedade no modelo Europeu, projeto já implantado com sucesso no sul do país desde o século XIX.

Reportagem de Francisca Fonseca, Advogada e Pesquisadora em Bom Despacho.

Artigo escrito em 1984

Um comentário:

  1. Em Pitangui ainda resta alguns descendentes: http://daquidepitangui.blogspot.com.br/2009/12/chegada-de-imigrantes-alemaes-pitangui.html

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