O País do São Francisco

Rio São Francisco em Bom Despacho MG. Fotografia de Arnaldo Silva                                                           No dia 04 de outubro, o rio São Francisco faz aniversário. Foi descoberto em 1.501, pela expedição de Gaspar de Lemos. Como era costume na época, o rio recebeu o nome do santo do dia, São Francisco de Assis. Hoje, aos 504 anos, o rio e seu vale têm as dimensões de um país, um grande e pobre país: O País do São Francisco, que Ocupa uma área de 640.000 Km2, maior do que a França, 2 vezes a Itália, 7 vezes Portugal e 19 vezes a Holanda, e corresponde a 7,5% da área do Brasil. Abrange mais de 400 municípios e passa por cinco Estados: Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Tem uma população de cerca de 15 milhões de habitantes. 

O São Francisco nasce na Serra da Canastra em Minas Gerais e viaja 2.660 km até o Atlântico. Primeiro atravessa o grande sertão dos cerrados e dos campos gerais, e depois penetra no sertão da caatinga. E encontra, em seu caminho, no sertão da Bahia e de Pernambuco, a região mais pobre e árida do Brasil, um quase deserto, onde o padrão de vida é um dos mais baixos do mundo.

Olho D´água em Bom Despacho, próximo as margens do Rio São Francisco. Fotografia de Arnaldo Silva 

Em Minas Gerais, onde tem 37% de sua bacia, recebe 70% de suas águas, enquanto que, nos últimos 755 Km de seu curso, só recebe água perene de pequenos rios, quando já está se aproximando de sua foz. Praticamente não recebe águas constantes ao longo de 1/3 de seu curso. Da nascente até Pirapora, numa extensão de 610 Km, em terras de chuvas quase sempre fartas, os homens que o rio encontra em seu caminho não dependem muito dele. A navegação só é possível em alguns trechos e em pequenos barcos. O rio não é caminho, nem a única água para matar a sede e molhar a terra, como nos sertões depois de Pirapora. Mas mesmo assim, exerce um grande fascínio em quem vive perto de suas margens.

Rio São Francisco em Pirapora MG. Fotografia de Rhomário Guimarães
De Pirapora a Juazeiro/Petrolina, numa extensão de 1.291 Km, onde vive o povo mais pobre e isolado do vale, o rio é o único caminho. E a partir de Bom Jesus da Lapa o rio atravessa as terras mais áridas do Brasil. São cidades agarradas à beira do rio, vivendo quase só dele,como Gameleira, Barra e Xique-xique. A partir de Remanso , na Bahia, o rio não recebe praticamente nenhum afluente perene e ainda é a única fonte de água num raio de centenas de quilômetros.
Rio São Francisco se encontrando com o mar, entre Alagoas e Sergipe. Fotografia de Dêniston Diamantino
As águas do São Francisco formam a mais antiga das nossas estradas interiores. E seu vale foi a área pioneira de ocupação dos sertões brasileiros, mas está ainda mergulhado no subdesenvolvimento e na pobreza. Em muitos lugares, a maior riqueza do País do São Francisco é o próprio rio. O homem do vale através dos séculos se habituou a ver no rio um milagre do sertão. Quando tudo seca na caatinga, o rio, "encolhido", é um milagre da vida. Nas grandes planícies semi-áridas, homens e bichos vivem exclusivamente dele. Nasce-se, vive-se e morre-se na dependência de suas águas. O rio não é só caminho. É origem e vida. Fora dele, é o deserto, o sertão sem jeito, a caatinga predominante em cerca de metade de sua bacia. Mais de 2/3 do curso do rio está dentro da região semi-árida de cobertura vegetal extremamente pobre.

Rio São Francisco em Piranhas, Alagoas.
O São Francisco é principalmente um rio de boa intenção. Nasce em terras de boas chuvas, mas não muito rica de vegetação, vai-se degradando,os afluentes diminuindo, a caatinga se impondo, até o rio encontrar o deserto em seu caminho. Ele corre como um milagre pela terra desolada e seca do cerrado e das caatingas. Na opinião da maioria dos barranqueiros, o São Francisco "foi mandado por Deus" para aliviar a secura das terras da caatinga. Nenhum dos planos feitos para salvar o vale conseguiu até hoje alterar substancialmente as condições miseráveis em que vive a maior parte de seu povo. Será que o rio também fez o voto de pobreza do santo que lhe deu nome?

Nascente do Rio São Francisco em São Roque de Minas. Fotografia de Gustavo Murta
O rio São Francisco liga, entre si, as duas regiões de povoamento mais antigo do país, o Nordeste e o Sudeste. Por isso é denominado Rio da Unidade Nacional. Esta interligação se deu através da pecuária. Partindo da Bahia, o gado alcançou o rio São Francisco, acompanhando o seu curso, tendo rápido crescimento, principalmente, a partir de 1.701, quando uma Carta Régia proibiu a criação de gado em faixa de 10 léguas do litoral, por causa dos canaviais. Sem alternativa, as tropas entraram sertão adentro, em direção ao grande rio, onde encontraram pastagens medíocres, mas amplas, e lambedouros naturais nas rochas de sal-gema, além do clima sadio.

Muitas cidades das margens do São Francisco nasceram destes currais que os primeiros povoadores foram plantando ao longo de seu curso, há mais de 03 séculos. Por ter sido caminho e criatório de bois, o São Francisco já foi chamado de Rio dos Currais. As planícies prolongadas em suas margens facilitaram sua penetração. O homem foi tocando o gado e ocupando as vastidões das terras do vale. O desenvolvimento da pecuária se tornará mas acentuado a partir de 1690, com a descoberto do ouro em Minas Gerais, que abrirá um mercado novo para o gado e as plantações do Alto São Francisco. Os barcos se multiplicaram rio-abaixo e rio-acima, trazendo e levando mercadorias e escravos até a zona de mineração.

Ponte sobre o Rio São Francisco em Moema MG. Fotografia de Arnaldo Silva
Gostaria de frisar que o vale do São Francisco foi nossa primeira experiência de nacionalidade, quando o Brasil começou a abandonar suas raízes portuguesas. Os pioneiros do vale, separados da costa por muitas léguas de caatinga e rio não navegável, tiveram que construir seu próprio mundo. Era português comendo cuscuz, jenipapo, farinha de mandioca, rapadura, dormindo em girau...

O Rio São Francisco já enfrentou grandes secas, teve suas águas reduzidas a proporções mínimas, mas continua a correr. Todos que vivem no vale, inclusive os bom-despachenses, devem colaborar para que o São Francisco cumpra o destino que Deus lhe deu, levar a água onde mais se precisa dela. Ele é uma dádiva de Deus.

Artigo de Francisca Fonseca - Bom Despacho MG

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