A Matriz, a nossa Matriz de Bom Despacho MG

 
Fotografia de Wilson Fortunato

                                                   Por Francisca Ferreira da Fonseca (Quitinha)

Majestosa, altaneira, belíssima, assim é nossa Matriz. Ela domina a Praça e os corações dos bom-despachenses. Mas sua história é tão bonita e surpreendente quanto sua monumental arquitetura. Sua construção, que durou quase 21 anos, de 1927 a 1948, demandou um esforço coletivo inacreditável. Só mesmo a fé poderia levar uma comunidade a construir uma obra tão grandiosa e totalmente fora de sua realidade. Imagina-se o que seria uma igreja como esta em 1927, numa pequena cidade, empoeirada e barrenta, onde não havia luz, calçamento, água encanada, a quase totalidade das moradias eram casas de esteio de madeira e fora do prumo e única coisa que apresentava aspecto de cidade era a estrada de ferro.

Como profissional da História, sempre tentei enxergar a Matriz com o olhar do bom-despachense daquela época. E a sensação que sempre tive, e mantenho até hoje, é de um contraste absoluto entre a grandeza da Matriz e a pobreza física da cidade.  Ao mesmo tempo, sinto uma profunda admiração por essa gente que conseguiu construir um templo como este, tão fora de sua realidade. E sinto, também, orgulho de saber que no meio dessa gente, estavam meus bisavós paternos, Joaquim Eleuthério e Francisca.

A Matriz teve sua origem numa pequena ermida tosca, construída no final do século XVIII, com sentença do patrimônio em 1767 e Instituição Canônica em 1771,  e que foi sendo melhorada aos poucos. Com o Pe. Miguel Dias Maciel, nomeado capelão, em 1812, a pequena ermida se transformou numa igreja sólida, com paredes de pedra com um metro e vinte de espessura. Era uma igreja bonita, cercada de palmeiras. Ficava sobre um outeiro com cerca de cinco metros acima da atual Matriz, uma colina mesmo. De um lado da praça, não se avistava os telhados das casas do outro lado.

A Velha Igreja tinha uma torre, atrás do altar-mor, com esteios de aroeira, encimada por uma cúpula, onde ficavam o relógio com mostrador externo, que está hoje na Matriz, e 03 sinos, também, levados para a nova igreja. De lá, ainda, vieram o lustre de cristal lavrado que tanto embeleza a Matriz, e o famoso galinho que fica no pé do pára-raio do cimo da grande cúpula, que gira ao ímpeto do vento mais forte. Segundo a tradição, se o galinho está voltado para o norte é chuva certa.

A  Matriz foi construída pelo Pe. Augusto Ferreira de Andrade no local onde ficava a Velha Matriz Colonial, que foi por ele demolida. Ele era natural de Morada Nova, tinha acabado de receber a ordenação em Luz, em 09-12-1923, e, em viagem para sua terra natal, resolveu passar por aqui para visitar o Vigário Nicolau, que soubera estar doente. O povo, que estava sem missas há um mês, gostou da chegada do Pe. Augusto, que, com isso, foi ficando, até que foi nomeado vigário em 24-08-1924.

Assim que assumiu a paróquia, o Pe. Augusto começou a achar que a Velha Igreja Colonial era “pequena, escura, sem ventilação”, estava-se “exigindo outra mais confortável”. Mas  teve que adiar seus planos por algum tempo, como afirma em sua autobiografia, porque “O Padre Nicolau não queria que se tocasse na Velha Igreja.”

Logo após a morte do Vigário Nicolau, em 27 de maio de 1927, o Pe. Augusto começou os preparativos para a construção da nova igreja. A obra se iniciou, em 8-12-1927, com a bênção da pedra fundamental. A Velha Matriz só foi demolida cerca de 3 anos após o início da construção da Nova Matriz.  A  Matriz Velha tinha a fachada principal voltada  quase para o oeste, mais ou menos em direção a Rua José Marques Gontijo, isto é, em direção a um cruzeiro que se chamava Cruz das Dores, que ficava logo abaixo da Rua das Garças (hoje, Clodoaldo de Oliveira).

A fachada da Matriz sofreu uma guinada para a direita, ficando defronte da rua Faustino Teixeira, só o altar-mor ficou no mesmo lugar, mas em posição diferente.  Por isso, foi possível fazer a maior parte do alicerce da Nova Matriz, até chegar bem perto da parede lateral da Igreja Velha, antes de demoli-la. Para aplainar o terreno, Pe. Augusto contou com a colaboração do Cel. Alvim Menezes, comandante do 7º Batalhão, que forneceu cerca de 120 soldados e caminhões da corporação para a desmoronar o outeiro e retirar a terra.

A Matriz foi construída sem planta. Somente os alicerces e as dimensões do templo obedeceram à planta baixa feita pelo arquiteto Pe. Artur Aier. O que se fez posteriormente não obedeceu a nenhuma planta ou cálculo antecipadamente registrado. Tudo foi feito ao sabor do gosto do Pe. Augusto, tudo foi saindo de sua cabeça, foi um-faz-desmancha o tempo todo. Ele chegou a desmanchar até o último tijolo, uma parede lateral da altura de um andaime, que ia da torre até à capela lateral, porque suas meias-colunas não estavam se encaixando com as colunas da nave central, já prontas, para a formação dos arcos. Os sacos de quatro colunas da nave central depois de prontos foram desmanchados porque não estavam dentro do estilo que ele queria.

A planta baixa, no estilo românico-basilical, tem forma de cruz latina, cujos braços são formados pelas capelas laterais. O piso original da matriz, procurando acentuar esta característica, formava, nitidamente, uma grande cruz, que ia da porta principal até a entrada da capela do altar-mor. Alguns anos mais tarde, reformas no piso cobriram a parte superior da cruz.

Terminados os alicerces, como não existia projeto para continuar a obra, Pe. Augusto fez um desenho da Nova Matriz, com a ajuda do italiano João Paganini,  mestre-de-obra da Estrada de Ferro Paracatu. O Dr. Nicolau me disse que neste desenho apareciam três torres na parte frontal, o que daria ao templo um aspecto de santuário, que era o sonho do Pe. Augusto.

Com este desenho, sem projeto e sem cálculos, foi-se levantando a igreja, com muitas dificuldades técnicas. O caso da torre foi emblemático. O João Paganini, que era o encarregado, e o José Etelvino, mestre-de-obra, tinham armado o cone da torre logo após a primeira fileira de janelas, estava tudo pronto, só faltava encher de concreto. O Pe. Augusto, que estava viajando, chegou e mandou desmanchar tudo. Ele queria uma segunda fileira de janelas. O Paganini, que era um construtor experiente, teve medo, achou que o alicerce não suportaria, e abandonou a obra. A partir de então até a pintura em 1948, José Etelvino foi, ao mesmo tempo, construtor e mestre-de-obra.

Pe. Augusto chamou o Dr. Gravatá que construíra a igreja de Lourdes em Belo Horizonte, que, após ver a obra e saber de como fora feito o alicerce, lhe disse que poderia levantar a torre quanto quisesse. Foi, então, levantada uma segunda fileira de janelas e o cone da torre ficou com onze metros, o pé da cruz com um e setenta, e a cruz de vidro com quatro metros e meio.

E a obra continuou sem maiores problemas. As paredes levantadas, colunas das naves todas prontas, o telhado pronto, mas surge outro impasse de difícil solução.  Não conseguiam fazer os grandes arcos da nave central em estilo gótico como o Pe. Augusto queria. Como a obra fora levantada sem projeto e sem cálculos prévios, não havia altura suficiente entre as colunas e as traves do telhado para levantar os grandes arcos góticos em ogivas. Foi então chamado o Pe. Everaldo, engenheiro de origem alemã, que achou viável que os arcos fossem feitos no estilo  "gótico-abatido" como queria o construtor José Etelvino.

E assim, os arcos foram levantados, com a assistência técnica do Pe. Everaldo. Os tijolos foram assentados e ligados em massa de concreto, sobre uma armação do arco feita em madeira, com espaço interno a receber o concreto e o ferro. Assim foram feitos todos os arcos da nave central. Os demais arcos, nas naves laterais, na entrada, sob o coro e nas janelas se fecham todos no estilo gótico normal. Só os da nave central ficaram no estilo "gótico-abatido", isto é, são mais abertos para os lados.

Quando o Pe. Augusto deixou a Paróquia, em 1935, a igreja já estava toda levantada e coberta, com a torre e cúpulas prontas. Na parte externa, só faltavam os acabamentos. E na interna, parte do forro (estuque) já estava pronta. Os encarregados sabiam o que deveria ser feito. A fase do faz-desmancha da parte estrutural já tinha terminado. Os vigários que o sucederam continuaram a obra, mas, todos tiveram que lutar muito, principalmente, no levantamento de fundos.

O dinheiro reservado tinha acabado antes do alicerce ficar pronto, mas mesmo assim a obra continuou graças a generosidade da população. Todos contribuíam, desde o mais rico ao mais pobre. A História registra que o povo bom-despachense arregaçou as mangas e lutou, durante quase 21 anos para construir seu majestoso templo, totalmente, fora da realidade local. Não se mediu esforços na obra, que consumiu mais de um milhão de tijolos, feitos, praticamente, só com mão-de-obra gratuita, em duas olarias fundadas para este fim, uma na chácara do Gontijo e outra nos terrenos do Antônio Assunção, atrás do cemitério.

E o povo participou, tanto angariando recursos financeiros para a obra, como pondo, literalmente, a mão na massa. Havia Procissão de Pedras: as menores eram carregadas no ombro, trazidas de pedreira próxima, existente quase dentro da cidade. Para isto, Pe. Augusto reunia os católicos, com os quais fazia procissões, rezando o terço, até o local da pedreira. Na volta, cada um trazia uma pedra, de acordo com suas possibilidades físicas. A pedras maiores eram transportadas por carros de bois, cedidos pelos fazendeiros.

Havia campanha do tijolo com as crianças do Grupo Escolar: cada criança doava o dinheiro equivalente a um tijolo. Havia campanha do dia de trabalho: lavadeiras, cozinheiras, passadeiras, costureiras, comerciários, funcionários públicos doavam o equivalente a um dia de serviço. Os mais ricos, ainda, socorriam o Pe. Augusto, quando faltava dinheiro para pagar os operários, no final de semana.

As Associações Paroquiais promoviam teatros amadores, rifas, leilões, quermesses e barraquinhas . Todos participavam destas promoções, até os mais pobres, que contribuíam com ovos, legumes, frutas, biscoitos. A tradicional Festa de são Sebastião, com os leilões de gado, porcos e galinhas doados pelos fazendeiros, também contribuiu muito para a obra.
D. Prosperina forneceu os bonecos de celulóide como moldes para as cabeças dos anjos que ornam o teto da capela-mor e da grande cúpula.  D. Elza Gontijo forneceu as imagens, já ampliadas, do trigo e do lírio, que ornam a fachada do coro. D. Carminha Gouthier, poetisa e esposa do 1º Juiz de Direito da Comarca, Dr. Hudson Gouthier, sugeriu o revestimento das janelas do alto da grande cúpula em quadros de puro vidro e muitas cores. As faixas com a inscrição "Sanctus, Santus, Sanctus" e o símbolo eucarístico central sobre o arco, na entrada da capela-mor, foram sugeridas pelo Pe. Afonso Hansch. O alemão Bruno Kohrnet fundiu e refundiu todas as ferramentas utilizadas na obra, e, ainda idealizou e confeccionou o elevador, movido pelo motor de um Ford antigo, usado para transportar material na construção da torre.

A Matriz, como toda igreja gótica, foi construída para receber luminosidade através dos vitrais, que são formados por placas translúcidas de vidros coloridos, dispostas de modo a difundir claridade harmoniosa, cheia de magia e beleza. Os vidros que formam os vitrais são pintados e queimados, numa técnica artesanal milenar, são feitos para filtrar a luz solar com harmonia e suavidade.  Os 50 vitrais originais da Matriz foram todos feitos no Brasil, pela Casa Conrado Sorgenicht de São Paulo, fundada em 1889.

Em 49 dos 50 vitrais da Matriz, estão registrados os nomes de seus doadores: na Capela-Mor: Pe. Augusto (Nossa Senhora); Alexandrina e Altino Theodoro da Costa (Cristo com o Cordeiro no ombro); Celuta e Pedro Marques Gontijo (Anunciação - escondido atrás do altar); Clara Cândido de São José (Cristo com o Cordeiro); Maria Theodoro da Costa (Sagrado Coração de Jesus). Na Grande Cúpula: Comércio de Bom Despacho; Liseta e Antônio Caetano Assunção; Rita e Flávio Cançado Filho; Gontijo e Filhos; Inhá e Cristiano Guimarães; Jerônimo Joaquim da Cunha e Família; Francisco Xavier, Filhos e Genros; Guerra e Filhos;

Nas Naves, os 12 apóstolos: à direita, Ritinha, Martinho Fidélis e Filhos; Maricas e Juca Assunção; Geny e Carlito; Ritinha e Benedito Pinto; Joana e Miguel Marques Gontijo; Maria, José, Vicente e Bernardo Costa. À esquerda: Francisca Maciel Gontijo e M. Lopes; Francisco Rosa, João Pedro e Maria; Mariquinhas e Bem Lopes do Couto; Olímpia e Gervásio; Tavares, Maria, Lucílio e Odete; A placa de um vitral  está  caída no  parapeito da  janela. E  os  04 vitrais  grandes: à direita, Francisca e Joaquim Eleuthério (meus bisavós); Margarida e Manoel José da Silva; à esquerda: Antônio Cardoso de Oliveira; Elza e Zezé.  

Sob o Coro: à direita, Chiquinha e Sinhô Assumpção; Maria e Alípio Braga do Couto; Maria e Corgozinho; à esquerda, Luíza e Martinho; Cena e Lygia; Dica Maria e Mena. No Coro: à direita, Josephina Maria e José M. Gontijo; Cléa e Rurik M. Gontijo; Quita Tavares Gontijo; à esquerda: Joana e José Cardoso de Oliveira; Diolina e Alexandre C. Oliveira; Genoveva Theodoro da Costa; Na Sacristia da direita: Maria e Joaquim Morais; Maria e Roberto de Queiroz Cançado; Virgínia e José Pedro Gontijo; Francisco de Paula Gontijo; na Sacristia da esquerda: Wernek Tavares Gontijo; Odete e José d’Avó Gontijo; Regina e Diogo José Neves; Cina e Chiquito; O vitral grande redondo sobre a porta principal, um dos mais belos da igreja, não teve doador particular. Infelizmente, 28 janelas da Matriz ficaram sem vitrais, para grande tristeza do Pe. Augusto.

A Matriz impressiona na grandiosidade, na imponência, na beleza de seu conjunto, e, ao mesmo tempo, na minúcia, na delicadeza do acabamento. Ela é extremamente harmoniosa, de qualquer ângulo que seja observada, interna ou externamente. É toda enfeitada por molduras e rendilhados em cimento, massa fina e gesso, difíceis de serem descritos, mas de grande beleza. Na parte externa, acima das janelas, é circundada, em toda sua extensão, palmo a palmo, nas paredes, inclusive das torres, por uma grega, em alto-relevo, formada por miniaturas de arcos cruzados que se sucedem, tendo na base folhas de laranjeira, que dá uma leveza surpreendente ao conjunto.

Todas as pilastras das paredes laterais terminam no teto em forma de agulhas e dão ao exterior do templo imponência e elegância, mas na parte interna, onde aparecem sob a forma de meias-pilastras, elas dão leveza. O mesmo acontece com a grande cúpula que se fecha em hastes circulares, em contraste com as agulhas das pequenas cúpulas e paredes laterais.

As cúpulas  e o cone da torre têm cobertura em relevo imitando escamas de peixe na cor prata. Em cada face quadrada da torre, as janelas são munidas de balaústres em curva (pequenas sacadas) que dão uma graça especial ao conjunto. No nicho gótico frontal, que fica na base do cone da torre, o construtor José de Etelvino, moldou em cimento e fundiu, a imagem de Nossa Senhora, no tamanho de uma pessoa, que permanece lá, abençoando a cidade.

Os capitéis de todas as colunas internas da igreja e as que ladeiam as janelas são no puro estilo coríntio-greco. As paredes que formam a porta principal se abrem de dentro para fora, alargando-se em arestas, em alto relevo, à maneira das entradas das catedrais góticas da Europa. Logo acima, tem um vitral redondo, com estampa de Nossa Senhora, belíssimo. Na parte interna, na ligação das colunas da nave central, entre si, e com as meias-colunas das paredes laterais, o forro forma abóbadas, no estilo gótico, edificadas em estuque (tela de aço revestida de massa de cimento) divididas por nervuras que terminam no centro por rosetas de onde pendem as lâmpadas.

Antes de concluída a igreja, foi realizada a cerimônia de Sagração do Altar-Mor de maneira definitiva ao culto divino, presidida por D. Cabral, arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, no dia 16 de dezembro de 1945. A Igreja só ficou pronta em 1948, toda pintada de branco, por dentro e por fora, tanto as partes lisas como os relevos. As coberturas das cúpulas, do cone da torre e as ferragens das janelas receberam a cor prata. Estas cores foram mantidas até 1977.

O atual altar-mor de mármore construído pelo Pe. Afonso Hansch, em 1944. Mas quem terminou a Matriz foi o Pe. Henrique Hesse  (1945-1951), que, também, acrescentou, em 1950, os 4 altares laterais: O altar do Sagrado Coração de Maria doado pelo Coronel Faustino Assunção; o da Sagrada Família pelo Sr. Altino Theodoro da Costa; o de São Sebastião pelo Sr. José Marques Gontijo; e o  do Sagrado Coração de Jesus pelo Sr. Pedro Marques Gontijo.

O Pe. João Heffels, em 1955, colocou a mesa da comunhão mais para baixo, entre a grande cúpula e o corpo da igreja, construiu a grade da Pia Batismal e instalou os cofres de metal nas paredes, e, em 1956, construiu as rampas  laterais.

Em 1977, o Pe. Henrique mudou as cores originais da Matriz, retirou o púlpito, a mesa de comunhão e as portas de madeira originais das laterais e da frente.

       


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