Turismo e preservação nos parques repletos de cachoeiras em Ibitipoca


  Cachoeira em Ibitipoca. Fotografia de Valdir Codinhoto

As montanhas mineiras, que antes escondiam riquezas, hoje guardam belezas que valem ouro. Pertinho de Juiz de Fora, a Serra do Ibitipoca, uma formação rochosa moldada pela movimentação tectônica e constantemente retocada pela força dos ventos e das águas, é pedra preciosa que brilha para todos. Ali foi criado, em 1973, o Parque Estadual do Ibitipoca, no município de Lima Duarte, na Zona da Mata. Nas caminhadas por trilhas bem cuidadas logo se identifica a zona de transição entre dois biomas distintos: os campos rupestres de altitude e a mata atlântica.

No primeiro, uma vegetação rasteira e candeias retorcidas cobertas de barba-de-velho, um líquen verde claro, que pende dos galhos das árvores. No segundo, bromélias, orquídeas e a exuberância da floresta. Nessas paragens vivem animais raros, como a onça parda, o logo-guará e o urubu-rei. Poucos têm a sorte de ver tais bichos, mas nem faz falta. Há tantas atrações no parque que os olhos não cansam de acompanhar o deslizar das típicas águas coloridas fluindo por rios, cascatas, cachoeiras e embrenhando-se nas grutas.

Dependendo do ângulo e da luz, a água passa do âmbar à coca-cola. Graças a onipresença do quartzito, a matéria orgânica em decomposição não é absorvida pelo leito dos rios, o que propicia a peculiar coloração avermelhada. Tem gente que garante que a água é cicatrizante – e esse efeito terapêutico pode vir a ser comprovado, pois hoje uma das pesquisas realizadas no parque é de análise das propriedades das águas. O certo é que é puríssima e mergulhar o corpo nessas águas faz um bem danado à alma.

Com a severa limitação de 300 visitantes por dia durante a semana e 800 nos finais de semana e feriados, o parque é surpreendentemente bem cuidado e sinalizado. “Lixo não é problema: o visitante vê a natureza intacta, se sente bem e respeita o meio ambiente”, diz o biólogo João Carlos Lima, gerente do parque.

Para conciliar o turismo com a preservação, ele recomenda que todos conheçam o Centro de Visitantes. Entrar ali não é obrigatório por lei, mas é irresistível para quem gosta de se situar e tem sede de saber. O espaço homenageia Auguste de Saint Hilaire – naturalista francês que em 1822 fez precioso relato científico do que viu –, e traz informações sobre fauna, flora e geologia do parque.

Uma maquete cheia de tecnologia ajuda a explicar a inusitada formação do lugar que, ao que tudo indica, surgiu de um fenômeno chamado soerguimento do solo. Esse movimento tectônico trouxe à superfície uma farta camada de quartzito e fez de Ibitipoca a segunda maior reserva desse minério na Terra. O quartzito é responsável pela paisagem ímpar e ajuda a fazer do parque um lugar mágico, porém perigoso: é um composto mineral muito frágil, que se desfaz com facilidade.

Um exemplo? O paredão de Santo Antonio, formação mais imponente da região e coração do parque, recebeu esse nome porque ali se vislumbrava uma imagem de santo. Hoje, só mesmo os muito devotos são capazes de visualizá-la. Em compensação, novos desenhos são formados de tempos em tempos. A erosão constante também causa o acúmulo de areia nas praias – e os mineiros aproveitam para matar a saudade do litoral. Areias brancas, limpas e finas margeiam lagoas dentro do parque e espalham-se pelos vales chegando até Bias Fortes, que faz divisa com o parque e tem por atração a Serra das Areias. O lugar é conhecido como Areião e atrai pelas inusitadas dunas das Gerais.

Água mole, pedra mole
Parque Estadual de IbitipocaPara minimizar os impactos do turista frente à tendência erosiva do terreno, foram construídas contenções ao longo das trilhas, instalados sólidos mirantes nos pontos de interesse e proibidas as práticas de rapel e escalada.

Um garoto subiu metro e meio num desses paredões, apenas para fazer graça para a namorada e tirar uma foto. Um bloco de pedra se soltou, ele perdeu os dedos e a peraltice virou exemplo.

Essa é uma história recente, contada por Gabriel Fortes, condutor ambiental que conhece as trilhas do parque como as linhas da própria mão. Ele revela outra história, de eras antigas: uma bela índia da tribo Araci (de etnia tupi), era disputada por dois bravos guerreiros, mas tinha o coração já conquistado por um deles. Quando seu amado perdeu o duelo, a jovem atirou-se do alto do paredão de Santo Antonio e caiu no lago das Miragens. Inconsolável, o índio pulou atrás. Hoje, reza a lenda, o casal volta a se encontrar naquele lago em noites enluaradas.

Contando causos, mostrando plantas endêmicas e descrevendo da geologia do lugar, Gabriel ameniza com sua boa companhia a subida de quase 5 km até a Janela do Céu, alvo preferido dos que chegam a Ibitipoca. “Olhe para trás, curta o visual, descanse um pouquinho”, aconselha o guia. O avô de Gabriel foi o primeiro guia do parque e trabalhou na construção da capela (hoje em ruínas) que fica no topo do Pico do Pião, a 1.724 metros.

Mais alto do que ele só mesmo o pico da Lombada (1.784 metros), que fica a caminho da Janela do Céu, um mirante de inebriar os sentidos. Para chegar, é preciso andar por dentro do leito do Rio Vermelho – através de um túnel natural de arbustos e trepadeiras –, que termina abruptamente, em queda, como uma piscina natural de borda infinita a mais de 1.300 metros de altitude.

Para chegar lá você precisa ter fôlego para ao menos oito horas de caminhada (ida e volta). No trajeto, paradas indispensáveis: a Cachoeirinha e as fantásticas grutas da Cruz e dos Três Arcos. Essas e outras 28 cavernas certamente serviram de refúgio aos índios araci e, mais tarde, aos escravos que trabalhavam nas minas de ouro. “Os escravos, antigamente, faziam dessa furna magnífico esconderijo onde podiam resistir bem à fúria dos bárbaros senhores”, escreveu o pesquisador Álvaro da Silveira, em 1922. Hoje as cavernas de quartzito atraem espeleológos de várias partes do mundo.

Ao voltar da Janela do Céu tudo que se almeja é comida, banho e cama. Mas se o passeio for o circuito das águas – 6 quilômetros de ida e volta; ou seja, três horas de caminhada sem pressa – dá para tomar uma cervejinha na lanchonete do parque, onde o self-service é básico e a vista, majestosa. Aliás, eis algo que toda a região de Ibiti esbanja: horizonte amplo, que convida a curtir o pôr-do-sol. Ou o nascer da lua. De quase todo canto você tem quase 360 graus de céu aberto: do parque, do vilarejo e em inúmeros morros do entorno.

Poesia e beleza garantidas, mas essa vastidão tem seu porém... Como os gauleses de Asterix, o maior receio dos moradores é que o céu lhes caia sobre a cabeça. Não à toa, pois a maior incidência de descargas atmosféricas no Brasil encontra-se aqui – são dez raios por quilômetro quadrado, enquanto a média mundial é de apenas dois. Os índios araci sabiam disso e batizaram o local com o nome de Ibitipoca, “pedra que estala”.


Simples assim

Janela do Céu - Fotografia de Jerez Costa 

Janela do céu - Ibitioca

Uma igreja centenária, ruas calçadas com pedras irregulares, bares com mesas na calçada, lojinhas despretensiosas, meia dúzia de restaurantes com cardápios variados, pousadinhas gostosas, dois cafés, uma padaria: eis o arraial de Conceição do Ibitipoca. César de Souza, que trocou São Paulo (SP) pelo sossego da serra, faz questão de ressaltar a simplicidade como marca registrada de Ibiti. “Não podemos perder a noção do simples. O lugar é mais antigo que Ouro Preto e Petrópolis, mas nunca foi glamouroso. Se não foi no passado, por que ser agora?” De fato, o primeiro registro da presença de bandeirantes data de 1692, mas no vilarejo criado com o intuito de impedir o contrabando de ouro, a coroa portuguesa nunca se estabeleceu. Em vez dos clássicos casarões coloniais, as casas eram de pau-a-pique – e algumas resistem ao tempo para contar essa história.

Há 15 anos, César comanda, ao lado da esposa, Márcia Macambira, a pousada Janela do Céu, onde o ambiente é marcado pelo vermelho das paredes, decoração rústico-chique e uma música sempre agradável, contemplando todos os sentidos. No restaurante da pousada, o Janela dos Sabores, um cardápio enxuto com discretos toques de chef convida a trutas e massas. A truta, aliás, mesmo sem ser produzida na região, é o carro-chefe dos restaurantes mais transados, talvez por combinar com o clima serrano. Por R$ 25, uma caprichada truta ao molho de amêndoas pode ser degustada, por exemplo, no restaurante Via Veneto, no amplo salão do hotel Serra do Ibitipoca, que conta também com uma adega bem cuidada e uma charmosa cafeteria.


Pão de canela. Orar, admirar e comer... - Ibitioca


Foto: www.ufjf.br

A comida típica, porém, é a mineira, com seus tutus, caldos, farofas e inesquecíveis tira-gostos. Merece destaque nesse quesito o farto menu do restaurante Ibitilua e as porções e caldos do Cleusa's. “O caldo de pato é receita de família e faz um sucesso danado”, garante Cleusa, que valoriza o resgate de tradições culinárias e incentiva a produção orgânica. “Muitos pequenos produtores dizem que plantam exclusivamente para a gente”, comenta orgulhosa. Pudera: num feriado a casa consome até cem quilos de mandioca. Ali, o pastel de fubá recheado com torresmo é fina iguaria e combina, que nem queijo-com-goiabada, com a chiboquinha, uma cachaça de alambique, curtida com mel e canela em pau.

Lado a lado, os estabelecimentos tocados por Cleusa e a irmã, Flávia, são também referência festiva. Na propriedade, que era do bisavô, promovem anualmente o Ibitipoca Blues, noitada musical que chega a reunir até três mil pessoas. Flávia ainda agita o Luau e o Arraiá do Ibitilua.

A vocação musical da vila também se evidencia nas rodas de violão e no som ambiente de pousadas e bares, como o inusitado Candeia Blues, mais conhecido como bar do Firma. Numa casa rústica, iluminada por dezenas de velas, um escultural emaranhado de raízes penduradas no teto esconde enfeites mil, vinhos, capas de discos e garrafas de cachaças curtidas no cedro ou na candeia, com abacaxi, menta ou mel.

Firma Boa, o irreverente dono do bar, não precisa servir o cliente: manejando cordas e roldanas, faz descer as garrafas diretamente nas mesas. Melhor que a decoração à la Krajcberg só mesmo a trilha sonora: os Beatles são hóspedes freqüentes, seguidos de Doors, Rush, Zeppellin e Hendrix. “Meu maior concorrente é São Pedro”, diz Firma, referindo-se ao quilômetro e meio de estrada de terra, duro de vencer em noites chuvosas. Para completar o menu musical, o hotel Serra do Ibitipoca promove, em julho, o Ibitipoca Jazz, que reúne nomes tarimbados do instrumental brasileiro para alegria de quatrocentos ávidos espectadores.


Comer, beber... e orar

Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Vila de Conceição do Ibitipoca, distrito de Lima Duarte na Zona da Mata

Como falar de um típico vilarejo mineiro sem citar sua construção mais gloriosa? Na época em que o arraial de Conceição do Ibitipoca mais angariou impostos para a coroa portuguesa, foi construída a igreja de Nossa Senhora da Conceição. Erguida no estilo barroco, cercada por muro de pedra, exibe na fachada a data de fundação: 1768. Na frente, uma praça, o cruzeiro de madeira e uma enorme figueira, conhecida como árvore dos enforcados. Na rua de baixo, outra igreja chama a atenção, a Nossa Senhora do Rosário, construída em pau-a-pique, no século 19, pelos negros proibidos de freqüentar o templo dos brancos.

Descendente de escravos, Antonio Quirino de Souza, também usa as mãos para elevar a fé. Há 26 anos recolhe restos de árvores e, com seu formão, cria tatu, onça, macaco, cobra e outros bichos. “Aquele lá em cima é que me deu o dom de trabalhar”, diz enquanto exibe sua obra preferida: o símbolo do Espírito Santo.

A caminho do parque, pouco depois do ateliê de seu Antonio, outra “celebridade” da terra merece uma visita, dona Maria, criadora da guloseima mais falada na região: o pão-de-canela. Ela conta que preparou um pão, tradicionalmente consumido em festas de casamento, e deixou na janela para esfriar. Um turista, atraído pelo aroma adocicado, perguntou se estava à venda. Não estava, mas passou a estar.

Com o dinheiro, fez mais pães e, aos poucos, ganhou fama. Trinta anos depois, dona Maria passou o bastão para a filha, que continua abrindo a massa com uma garrafa e assando no forno a lenha. Hoje, o pão-de-canela virou patrimônio local de domínio público e é vendido em toda parte, servido em todas as pousadas. Pode acreditar: é mesmo delicioso.

Provar o pão de canela e a chiboquinha, aproveitar as praias do parque, enfrentar caminhadas desafiadoras, curtir o pôr-do-sol e badalar pelo vilarejo. Em um final de semana você vive o melhor de Ibiti. O roteiro turístico, no entanto, não se encerra por aí. O Circuito Serras do Ibitipoca, fomentado pelo governo estadual e gerido por uma associação local, abraça seis municípios e vai muito além dos limites do parque.

Claro que chegar à Janela do Céu é o desejo de todos que sobem a serra, mas quando o numero de visitantes atinge o limite máximo, não tem choro nem vela. A entrada é barrada e ponto final. Voltar para a casa? Nem pensar.


Rio Salto - Poço de água - Ibitipoca

Fotografia de Valdir Codinhoto

Outros passeios a pé, a cavalo, num 4x4 ou de moto, atravessam sítios, fazendas e arraiais, onde um povo hospitaleiro recebe os visitantes com café e broa preparados no velho fogão a lenha. Como a sinalização é precária e alguns trechos da estrada são ruins, aconselha-se a contratar um guia e alugar um veiculo adequado.

Aos mais aventureiros a sugestão é o “abraço ao Parque”: três dias de caminhada, passando por fazendas, matas e cachoeiras. Aos que têm menos pique (ou menos tempo), uma subida as quedas d’água da parte baixa da Janela do Céu. São 15 km de carro e mais 2 km de uma subida leve beirando o rio. No caminho, poços perfeitos para mergulhos e a chance de ver barbados (macacos barulhentos e de grande porte), sagüis e a eclética passarinhada.

Na volta do tour, vale uma parada no Arraial dos Moreiras, para comprar goiabada, queijo, doces de leite e de abóbora, feitos por dona Luísa. E conhecer dona Dodora, uma das ultimas tecelãs da região. Aos 75 anos de idade, leva quatro dias para fazer uma única colcha em seu tear centenário. E não teria comprador para peça tão artesanal se não fosse a chegada de visitantes. “Nesses passeios temos um convívio maior com a cultura e a tradição”, diz Leonardo Costa, fotojornalista e incansável militante do turismo sustentável.

Parece que, depois do boom nos anos de 1990, quando, por mês, até quatro mil visitantes se acotovelavam em pousadinhas e campings, a Serra de Ibitipoca encontrou o caminho do turismo em harmonia com a natureza e com o povo local.


Texto: Raquel Ribeiro (Viaje.com.br)

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