Sinha Nega: a feiticeira


A vila ainda estava meio adormecida e o sino da capela num “manquejar dolente” fez espalhar a notícia: morreu sinhá Nega, a feiticeira.

A história de sinhá Nega é talvez um dos maiores mistérios da vila. Após uma noite de muita chuva, ventos, trovões e relâmpagos, a velha sinhá Nega apareceu morando em um rancho na beira da estrada. Nunca se soube de onde veio, e muito menos há que veio, apenas veio.
Para os supersticiosos, veio no vento que soprou enfurecido, no trovão, na chuva brava, no “raio que o parta”.

Para os agnósticos, apenas objetivamente veio.

Para os dialéticos, veio correndo da miséria, irmã da morte que campeã o norte deste país.

No rancho desocupado da beira do caminho fez sua morada. Ninguém protestou, nem mesmo o dono da terra, miserável e valentão, que calado ficou, apenas e certo, o caminho mudou, “encurvou”.

As poucas pessoas que tentaram penetrar-lhe a intimidade foram veemente repelidas. Trouxe-se um passado guardado a sete chaves ficou.

Na vila formou-se um contraste de opiniões a seu respeito: era boa, má, querida, detestada, amada, mal falada, mas unanimente respeitada.

Tornou-se meeira compulsória das roças, dos pomares e das redes de pescas. Não pedia, pegava e assim vivia ou sobrevivia.

Morreu como veio, de repente. Ninguém reivindicou seu corpo, nenhum parente, nenhuma lágrima. Na vila certo alívio se fez notar.

Restou ao coveiro o traslado a última morada. O enterro já a boca da noite, foi simples e rápido. Umas dez velhas rezadeiras, por dever do ofício, carpiram-lhe a alma. O som surdo da primeira pá de terra úmida sob o caixão barato varreu o silêncio da tarde... Parecia o começo do fim. Parecia.

De repente um vento fraco a princípio, e forte muito forte depois, carregou nuvens negras sobre a vila. Trovões pipocaram. Um raio em zig zag se desprendeu do escuro das nuvens cravando em cheio sobre o rancho da velha que explodiu como um barril de pólvora, sepultando os vestígios materiais de sua existência.

O coveiro jura que naquele momento a cova se abriu e dela brotou sinhá Nega que rindo a fartar partiu com o vento, enquanto que ao longe uma côa agourenta gritou forte e a noite se fez mais cedo naquele dia.

Até hoje ninguém quis averiguar a autenticidade da narrativa do coveiro.

Por Juscelino do Engenho. Advogado em Bom Despacho MG.
Publicado no Jornal Fazendo o Amanhã. 1996

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