Diamantina é uma cidade mineira conhecida como a histórica rota dos diamantes

Fotografia de Wilson Fortunato

Diamantina é bem diferente das outras cidades históricas das Minas Gerais. No mínimo, ela é bem menos contaminada pelo vírus do turismo, apesar da relativa fama, o que não deixa de ser ainda mais surpreendente. A razão é que lá o turismo de massa ainda não chegou. E ganha com isso quem for agora, antes que ele chegue pra valer.

Descubra Diamantina

Catedral de Santo Antônio - Fotografia de Wilson Fortunato 

Como no século 19: no centro histórico, há sempre uma torre de igreja na paisagemVocê começará a desconfiar de que o mundo ainda não descobriu Diamantina quando procurar por ônibus de excursões nas ruas da cidade e só encontrar um ou outro casal passeando tranqüilamente de mãos dadas. E terá certeza disso quando parar para conversar com os moradores da cidade (com exceção dos pães de queijo, não há nada mais gostoso em Diamantina...) e descobrir que nem agência de turismo existe por lá. Diamantina ainda não despertou do passado. E olha que estamos falando de uma das únicas seis cidades brasileiras que fazem parte da seleta lista dos Patrimônios Mundiais da Humanidade!

A razão disso está na combinação de dois pecados: a preguiça e a ignorância – um terceiro poderia ser incluído: não ter tido a curiosidade de conhecer Diamantina até hoje. A preguiça é a de encarar os 300 quilômetros (ou mais de quatro horas de viagem) que separam Diamantina de Belo Horizonte. E a ignorância em confundi-la sistematicamente com outra Diamantina, a da Chapada, lá na Bahia. Não, não é o mesmo lugar, embora tenham sido os mesmos diamantes que fizeram a fama das duas no passado.


História

Fotografia de Wilson Fortunato

Diamantina – a mineira – nasceu Arroio do Tijuco e foi uma das cidades mais ricas do Brasil no século 18, graças aos diamantes, que brotavam aos borbotões e eram colhidos à flor do chão, entre os cascalhos dos seus riachos. Entre 1714, quando alguém achou acidentalmente uma bonita pedra transparente, e 1870, quando a riqueza começou a rarear, estima-se que quase 2 milhões de quilates da mais preciosa das pedras saíram de lá, quase todo s para financiar os luxos da corte portuguesa, que, felizmente, porém, também deixaram marcas na encantadora arquitetura colonial da própria cidade, razão pela qual ela acabou transformada em Patrimônio da Humanidade.

Hoje, ainda existem diamantes na região. Dizem até que a rocha-fonte, de onde se originariam todas as pedras, nunca teria sido encontrada, embora isso esteja mais para lenda do que para fato. Mas há muito tempo que Diamantina deixou de viver de suas pedras preciosas para tentar a sorte com outra valiosa fonte de renda: o turismo. Só que este ainda não chegou por lá, embora a cidade esteja prontinha para recebê-lo, o que, por sinal, só aumenta o prazer de quem for agora.

Sobrados e casarões, quase todos dos séculos 18 e 19 e com simpáticos balcões de madeira e janelas coloridas, estão pintados como se fossem novos, não há postes à vista, porque toda a fiação foi transferida para debaixo do solo a fim de não comprometer a paisagem, e suas ruas conservam o mesmo calçamento de pedra-sabão do passado, com curiosas faixas de blocos longitudinais, por onde avançavam as carroças e passeavam, sem tropeços nem escorregões, as damas da sociedade da época. Diamantina parece um cenário de minissérie da Globo, à espera de espectadores para contar boas histórias
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A Terra de Chica da Silva e JK

Casa em que morou JK em Diamantina. Fotografia de Wilson Fortunato

Uma delas já passou na própria televisão e fala de uma negra de dentes alvos, curvas salientes e porte de rainha, que reinou debochadamente na cidade em plena época da escravidão, fazendo de gato e sapato seu amo e amante, o português João Fernandes de Oliveira, então um dos manda-chuvas locais. Seu nome: Cica da Silva. O poder de Cica era tão grande que gerou a única igreja com torre nos fundos do país, dizem que por duas razões: para ela poder freqüentá-la livremente (uma lei da Igreja impedia que os negros fossem além das torres, como forma de impedir seu acesso aos altares) e para que o badalar dos sinos não perturbasse seu sono, já que sua casa ficava – e está lá até hoje! – exatamente em frente à tal igreja. Uma das 18 de Diamantina, por sinal.

A outra história que Diamantina não se cansa de contar é a do seu filho mais ilustre, o ex-presidente da república Juscelino Kubitschek, o JK, ou, para eles que são íntimos, apenas o "Seu Nonô". O construtor de Brasília nasceu, cresceu e jamais se esqueceu de Diamantina. A tal ponto que convenceu o amigo Niemeyer a construir um hotel e uma escola na cidade com o mesmo estilo arquitetônico da Capital Federal – você os verá e imediatamente reconhecerá. Em contrapartida, foram os humildes arcos de madeira do antigo mercado central da cidade que inspiraram o artista nas formas no Palácio do Planalto. Brasília – quem diria? – imitou Diamantina.

Foi JK, também, o responsável pelo surgimento de outro hábito que se tornaria marca registrada da cidade: a musicalidade. Como ele gostava de serestas, todos passaram a tocá-las. E as melodias não pararam mais. Hoje, há mais de 90 grupos musicais na cidade, e é rara a família que não possui pelo menos um instrumento em casa. A coisa evoluiu de tal forma que, recentemente, surgiram as vesperatas, ou espetáculos únicos no país, onde bandas sinfônicas espalham-se pelas sacadas das casas, enquanto um maestro fica regendo tudo de baixo, em plena rua, ao lado do povo.


Curiosos Vilarejos

Vila de Biribiri - Fotografia de WDiniz

A vizinha Biribiri é uma minicidade onde só moram oito pessoas. Mas tem até igreja assimDiamantina ainda vive com um pé no passado e cercada por vilarejos de nomes curiosos, que pararam ainda mais no tempo. Como a simplória Milho Verde, com cavalos na frente das vendinhas e casas de pau-a-pique. Ou a graciosa São Gonçalo do Rio das Pedras, ainda com ruas calçadas pelos escravos e que é grande só no nome. Ambas fazem parte de um delicioso passeio pela região que tem o seu ponto alto em Biribiri (lá os nomes são mesmo assim!), uma antiga fábrica têxtil que parou de funcionar há décadas e virou uma minicidade habitada por apenas duas famílias e oito moradores, embora possua igreja, escola e uma dúzia de casas, todas vazias.

Se Diamantina lembra um cenário, Biribiri é como uma cidade cenográfica. Ali, muito provavelmente, você será o único (único mesmo!) visitante. É uma sensação, no mínimo, curiosa. E bem diferente daquela que qualquer turista experimentaria nas demais cidades históricas das Minas Gerais hoje em dia. Deve ter a ver com o nome daquela região. Porque diamantes são realmente raros.

As vesperatas acontecem num único fim de semana por mês e são responsáveis pelo principal movimento turístico da cidade. Se quiser ver Diamantina cheia, é só perguntar quando será a próxima vesperata. Caso contrário, qualquer dia serve. Porque a cidade ainda leva a mesma vidinha pacata e tranqüila de sempre. Nem mesmo o ambicioso projeto da Estrada Real, um caminho ainda não sinalizado que pretende reconstituir a rota usada para escoar as riquezas das cidades históricas de Minas até os portos do Rio de Janeiro e que começava justamente em Diamantina, conseguiu, por enquanto, alterar este quadro.


Texto: Viaje.com.br

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