Uvas em Minas Gerais


A plantação de uvas finas para a produção de vinhos no estado começou tímida. Hoje, agricultores já estão conseguindo bons rendimentos com o cultivo que complementa os ganhos das atividades tradicionais, como café e leite. Com a dupla poda foi possível passar a colheita das videiras para o inverno e as variedades syrah e sauvignon blanc se adaptaram bem ao solo mineiro. Como na Grécia, fazendas agora têm leite, café e vinhos, que levam os nomes das propriedades ou de temas que inspiram a região. O investimento é alto: varia de R$ 20 mil a R$ 30 mil por hectare. Mas já há quem consiga bons resultados com a produção própria da bebida preferida de Baco. O potencial do estado já atraiu até o interesse de japoneses, que firmaram parceria com a Secretaria da Agricultura.

Renda extra sofisticada



Na Fazenda Santa Fé, em Varginha, no Sul de Minas, a produção do vinho batizado com o nome da propriedade já consegue rentabilidade em torno de 20%, maior que a do café também plantado lá, revela o agricultor e produtor Miguel de Luca. Ele e sua esposa, Gisela de Luca, começaram a plantar uvas para vinho fino em 2007 e já vendem a produção há três safras. A fazenda produz, em média, 800 quilos de uva syrah por safra, que são transformados em 600 garrafas de vinho. Cada unidade de 750ml é vendida por cerca de R$ 20 na região. “Muita gente vem substituindo o vinho chileno pelo daqui de Varginha”, comemora Miguel de Luca.

Ele revela que o investimento na produção da videira é um pouco alto: costuma ser de R$ 20 mil a R$ 30 mil por hectare. “É preciso comprar os mourões de eucalipto ou estaca de aço. Além disso, é necessário fazer muitas pulverizações para não dar doença na produção”, afirma Miguel de Luca. A uva, diz, também leva tempo para começar a produzir: cerca de três anos. “E à medida que vai envelhecendo, melhor fica a bebida”, revela. O mercado consumidor, segundo ele, é crescente. “Só na propaganda boca a boca eu consigo vender toda a produção em dois ou três meses”, diz.

Em Cordislândia, a cerca de 300 quilômetros de Belo Horizonte, também no Sul do estado, a Fazenda do Porto vai começar a vender em outubro a primeira safra do vinho fino produzido na fazenda, os vinhos Luiz Porto. Inicialmente, serão produzidas 20 mil garrafas, que serão comercializadas em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e no Sul de Minas. O preço da garrafa de 750ml vai custar de R$ 25 a R$ 50.

O proprietário da fazenda, Luiz Roberto Monteiro Porto Júnior, conta que iniciou na atividade como forma de variar a fonte de renda e se proteger das oscilações dos preços das commodities, como café e leite. “Não dava para ficar só nas mãos dessas atividades”, diz. Em 2006, ele investiu cerca de R$ 100 mil no cultivo de uvas para vinhos finos. A primeira safra comercial ocorreu em 2012, com produção de 50 toneladas de uva ao ano, feitas ao ar livre. As principais variedades cultivadas na sua fazenda são a syrah e a carbenet sauvignon. “Aqui no Sul de Minas, aproveitamos a estiagem de inverno para ela atingir melhor maturação. Como nessa época não tem água no meio ambiente, a concentração de açúcar fica maior”, afirma Porto Júnior. A fazenda conta hoje com 600 vacas, 50 hectares de produção de café e 15 hectares de uva. “O café e o leite sempre dominaram a produção, mas a uva agora começa a ganhar espaço”, afirma o agricultor.

INSPIRAÇÃO MUSICAL



Em Três Pontas, a cerca de 350 quilômetros da capital, o vinho fino ganhou o nome de Maria, Maria, em homenagem à música do cantor Milton Nascimento, nativo da cidade e frequentador da região. A Fazenda Capetinga, produtora da marca, engarrafou entre 4,5 mil e 5 mil unidades na safra passada. A fazenda começou a plantar a uva em 2009 e fez a primeira colheita no ano passado. “A produção demora”, revela Eduardo Junqueira Nogueira Júnior, proprietário da Capetinga, que também produz café, soja e alface.

Na fazenda são cultivadas as variedades syrah e cabernet sauvignon para vinho tinto; a sauvignon blanc, para branco; e a chardonnay, para espumantes. As garrafas estão sendo vendidas informalmente em Três Pontas. Nesta safra serão colhidos 15 mil quilos de uva, quase o dobro do inverno passado, quando foram colhidos 8 mil quilos. “A venda ainda deve ser feita em oito meses, pois precisa passar pelo processo normal de fermentação da uva”, diz Eduardo Júnior. A forma como ele iniciou o cultivo de uvas em sua fazenda foi inusitada. Em 2006, o produtor teve problemas de saúde e o médico deu a receita: tomar uma taça de vinho por dia. “No ano seguinte, encontrei um amigo que trabalhava com videiras. Conversamos sobre o assunto e decidi plantar na minha fazenda. Hoje, estou muito satisfeito com o resultado”, afirma.

Até o Japão está de olho no estado



A produção de vinhos e uvas de mesa de Minas Gerais deve contar com a colaboração dos japoneses. A parceria foi proposta ao vice-governador da província de Yamanashi no Japão, Wataru Hiraide, durante encontro realizado no dia 6 na Seapa (Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento), na Cidade Administrativa, em Belo Horizonte. Yamanashi é a maior produtora de vinhos do Japão.
De acordo com o secretário adjunto da Agricultura, Paulo Romano, o intercâmbio vai ser feito por intermédio da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). “A cooperação terá ênfase na pesquisa para aprofundar o conhecimento das condições de produção de vinho no estado por intermédio dos especialistas japoneses, que têm conhecimentos avançados em biotecnologia e fermentação”, afirma Romano.

PIONEIRA



Em Três Corações, a cerca de 200 quilômetros da capital, a Fazenda da Fé foi a pioneira nos testes e cultivos de dupla poda feitos em parceria com a Epamig. O cultivo começou em 2001 e durante 12 anos a produção foi feita só para teste. Neste ano, a fazenda começou a vender a safra de 2010. “Fomos aperfeiçoando. A produção passa por fermentação, controle do desenvolvimento, vai para tonéis de carvalho e depois é engarrafada. O processo é demorado. Leva cerca de um ano entre a colheita e a produção”, explica Marcos Arruda Vieira, proprietário da fazenda.

Para desenvolver as videiras, a fazenda separou um hectare para ser uma espécie de laboratório. As variedades syrah (tinto) e sauvignon blanc (branco) foram as que melhor se adaptaram à produção do Primeira Estrada. Atualmente, a fazenda tem 12 hectares de uva plantada, mas foram reservados 30 hectares para a produção.

Vinhos finos à mineira 

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Minas Gerais quer ficar conhecida não apenas como terrinha da cachaça da boa ou do café de primeira linha. O estado começa a despontar também como produtor de uvas destinadas ao desenvolvimento de vinhos de fina qualidade, inclusive voltadas para a produção de espumantes. O estado já conta com cerca de 150 hectares de videiras plantadas com esse objetivo, responsáveis pela produção anual de 750 mil garrafas, que já estão chegando às prateleiras de supermercados e restaurantes. 

Para produzir uvas para vinhos em Minas está sendo usada no Sul do estado a técnica da dupla poda da videira, que implica a inversão do ciclo produtivo, alterando para o inverno o período de colheita das uvas destinadas à produção. O método consiste na realização de podas em janeiro, com colheita em agosto. A técnica foi trazida e adaptada da França pelo pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig),Murillo de Albuquerque Regina, coordenador do Núcleo Tecnológico Uva e Vinho de Caldas. “Em agosto o dia é ensolarado, a noite é fria e o solo seco. Essas condições são indispensáveis para que a uva concentre açúcar e dê qualidade ao vinho”, observa o pesquisador. 



A dupla poda é utilizada por mais de 20 viticultores para produção de vinhos finos de qualidade. Em Minas, vem sendo usada principalmente no Sul do estado, em cidades como Três Corações, Três Pontas, Cordislândia, Varginha, Andradas, Santo Antônio do Amparo, Diamantina, Santana dos Montes, entre outras. Também há iniciativas de cultivo no Campo das Vertentes, no município de Ritápolis. As pesquisas da Epamig começaram a ser desenvolvidas em 2000, em parceria com a Fazenda da Fé, em Três Corações, e financiada pela Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais). A produção acontece principalmente nas fazendas de café, que encontraram nas videiras uma forma de alternar a fonte de renda.

“A primeira pergunta que fizemos é se seria possível produzir vinho fino de qualidade em Minas Gerais. Para colher em janeiro e fevereiro, não daria, em função das chuvas e das altas temperaturas”, afirma Murillo Regina. Ele ressalta que essa combinação, além de diluir o açúcar e componentes de cor e aroma, pode ocasionar podridão nos cachos. A saída encontrada então foi fazer a poda em janeiro e a colheita em agosto. A variedade que mais tem sido usada no estado é a uva syrah, do Vale do Rio Rhone. “É um tipo de uva que aceita a inversão de ciclo com boa qualidade e produtividade”, observa o pesquisador. Para o vinho branco tem sido usada principalmente a sauvignon blanc.

GRATA SURPRESA



O primeiro vinho fino que começou a ser produzido – e comercializado – em Minas Gerais, o Primeira Estrada, está surpreendendo os especialistas nacionais e estrangeiros pela sua qualidade. O vinho, fabricado na Fazenda da Fé, em Três Corações, na capital mineira pode ser encontrado na Casa Rio Verde, Pizzaria Olegário e restaurantes de renome como o francês Taste Vin e o italiano Vecchio Sogno. A garrafa de 750 ml sai por R$ 70 nas lojas de vinho e por R$ 90 em restaurantes.

“Ele inaugurou o novo conceito de fazer vinho em Minas Gerais, com a colheita de inverno. E permite que o estado se posicione como um dos próximos polos de produção de vinho fino no Brasil”, afirma Murillo Regina. Até 2014, quatro ou cinco novas marcas produzidas em Minas já devem estar nas prateleiras.

O sommelier Agnaldo Rodrigues, da Casa Rio Verde, esteve em Três Corações para conhecer o Primeira Estrada, na época em que ainda não contava com rótulo. “Eles conseguiram, por meio de uma uva tintureira com bastante cor, produzir vinho que poderia ter características do solo mineiro. Essa variedade se adaptou bem à nossa terra”, afirma Rodrigues.



Fonte: Faemg

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