Tudo mudou- Por Arnaldo Silva*


Lembro quando era menino e vinha de Belo Horizonte passear em Bom Despacho, Centro Oeste de Minas. Antes de chegar ao povoado do Salitre, já ficava a imaginar os verdes campos, as casas erguidas em meio a suor e amor, no meio do mato, no povoado onde todos se conheciam.

Nesse lugar tinha muita gente, muita mesmo. As casas eram bem próximas umas das outras.

A cada manhã sentia uma renovação da vida. Os ipês lá estavam todos lindos: amarelo, roxo, branco, rosa. As garças cortavam o céu em vôos coletivos, papagaios, araras, maritacas, andorinhas, sofrê, quero-quero... voavam bem em nossa frente.

Nessa terra também tinha um lindo córrego, estreito, mas caudaloso que desaguava no Velho Chico. Terras férteis, fertilizaram muitas vidas.

Em todas as casas podíamos ver hortas belas e vistosas. Não havia uma casa onde não se fazia o queijo, doce de leite, mamão, figo, laranja da terra...

À noite, o povo todo se reunia nas casas para rezar o terço. Cada mês era numa casa diferente. Não tinha capela e nem padre. O povo, para manter viva sua fé, organizava por conta da tradição, a reza do terço. Depois era prosa e cantoria noite adentro.

Não tinha tratores, fertilizantes, venenos.... essas coisas que envenena a vida. Não precisava, o trabalho era em carros de bois e a terra produzia que fascinava. Tinha café, arroz, feijão, milho, mandioca, laranja, jabuticaba, mexerica, horta....

Lembro bem, às três ou quatro horas da madrugada, meu avô e tios levantavam e iam para a roça trabalhar. O trabalho era na enxada. E iam todos para a roça, de chapéu, enxada ao ombro. Num embornal levavam a comida num pequeno caldeirãozinho. Levavam ainda nas costas uma cabaça cheia de água e outra com café. Biscoitos tinha também.

A tardinha, ao pôr-do-sol, sentávamos embaixo de um enorme flamboyant para prosear sobre a roça, a vida e a natureza.


Dava gosto ver minha avó, com uma vassoura de alecrim do campo varrendo a casa, limpando o fogão. O cheiro do alecrim pela casa até hoje está impregnado em mim. A cozinha era de chão de terra batido, mas tudo era limpo, um brinco só. Acima do fogão, numa vara, ficavam toucinhos e lingüiça defumando no calor da lenha queimada. A comida era feita com carinho, e comíamos em pratos esmaltados. Doces não faltavam. Conversa também não. Na parede tinha uma tábua fixada, onde ficavam os queijos.

A noitinha, a luz de lamparina a querosene, ficávamos deslumbrados com os causos contatos. Entre um gole de café, um causo nouvo.


As vasilhas eram lavadas com sabão caseiro, com água da mina e secada num giral que ficava perto da janela da cozinha.


Íamos dormir sobre o som da noite. Sapos, gafanhotos entoavam a canção da natureza. Alguns pássaros cantavam. A casa era trancada, não com chaves ou cadeados, apenas tramela. O colchão era de palha seca, o barulho não incomodava. Sinto saudades de dormir nesse colchão até. O travesseiro era revestido com paina. Antes de dormir, tínhamos que rezar e tomar bênção dos pais, tios e avós.

Quando era época da colheita, a região parecia um tapete de ouro. Arrozais cobriam de amarelo ouro a terra fértil e os quintais, ficavam todos repletos de arroz e as vezes de café. Era ouro de arroz, era preto, de café. As vezes o chão ficava marrom, com tanto feijão.


Todas as casas se enchiam de vida. As comadres falavam da sua última ida à Aparecida, da missa, da visita a um parente distante.


Hoje cresci, e voltei, mas tudo mudou. O nome do povoado, Salitre, quase ninguém mais se lembra. O ribeirão caudaloso já está quase secando. Não se colhe mais, não se planta mais, não se sorri mais. Quase não tem mais gente. Foram embora para a cidade ou abandonaram o sonho.

Dizem que é progresso.

Hoje vejo tratores e máquinas desmatando matas virgens de Cerrado para formar pastagens – comida de boi. Adeus arrozais, cafezais, milharais, canaviais, onças, jaguatiricas, raposa, lobo-guará, pássaros, ninhos... homem. Adeus!

Andar por lá hoje é uma tristeza só. As casas antes cheias de vida estão vazias. Vazias de tudo.

Os caminhos que percorri, quando criança, agora são caminhos de boi. Os campos onde se colhia café, arroz, milho, feijão... não existem mais. Tem braquiária – comida de boi.


Onde eu pisava descalço, hoje vejo o sertanejo pisar com botas feitas de couro, do couro do boi.

É o homem, dono da máquina, dono do boi, que não vive mais para a comunidade, vive para o boi.

Isolado, sem vida, sem passado. Vida de boi.

Virou boi também.

*Arnaldo Silva é Fotojornalista e é natural de Bom Despacho no Centro Oeste de Minas. Este artigo, de sua autoria, foi publicado no Jornal Meio Ambiente em Jornal, da Sociedade Ornitológica Mineira, Ano 14, edição 147 de Junho de 2005.

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