Primeiro Alto-forno da América do Sul foi instado em Morro do Pilar/MG


Manuel Ferreira da Câmara Bethencourt e Sá, o Intendente Câmara, foi o primeiro brasileiro nato a assumir o cargo de intendente-geral das Minas e dos Diamantes do Distrito Diamantino e Comarca do Serro Frio, mas entrou para a história como o construtor do primeiro alto-forno para a produção de ferro na América do Sul. Ele implantou, no meio do nada, a Real Fábrica de Ferro do Morro do Pilar ou de Gaspar Soares, no longínquo ano de 1814. “Câmara realizou o ciclo completo da fundação da siderurgia em alta escala no Brasil”, afirma o biógrafo Marcos Carneiro de Mendonça, no livro O Intendente Câmara – Manoel Ferreira da Câmara Bethencourt e Sá, Intendente Geral das Minas e dos Diamantes.
Câmara, que estudou na Universidade de Coimbra, em Portugal, era contemporâneo de José Bonifácio, o Patriarca da Independência. Os dois, quando jovens, participaram de um grupo que percorreu minerações da Alemanha, Rússia, Suécia, Noruega, Escócia e País de Gales, às custas do governo português, para saber tudo do assunto. Pela especialização, tornou-se consultor do governo português para assuntos de mineração.
Na função de intendente, no Arraial do Tejuco (hoje Diamantina), Câmara foi um administrador com orientação “profundamente humanitária” e acabou conhecido como “Pai do Povo”, mesmo que, por vezes, tenha se deixado “empolgar pela sua situação de autoridade discricionária, a ponto de cometer, segundo é fama, atos de não pequena violência”, segundo Marcos Mendonça. Conforme o historiador Joaquim Felício dos Santos, quando ele deixou o Tejuco “foi um dia de tristeza no arraial; todos se lembravam com saudades do seu paternal governo”.
Marcos Mendonça considera que o intendente Câmara foi um dos homens que mais souberam concorrer para a fixação da nacionalidade brasileira. “Remodelou tudo. Modificou, por completo, as normas de trabalho. Valorizou o esforço do mineiro e aumentou-lhe a capacidade de produção, dando-lhe pela primeira vez guindastes, bombas, carrinhos de mão, sarrilhos, pólvora em abundância, planos inclinados, ferro barato e em quantidade, assistência capaz e permanente.”
E foi justamente a necessidade de ferro para a mineração que estimulou o intendente Câmara a investir suas energias e conhecimentos na fábrica com alto-forno em Morro do Pilar. Conseguiu autorização e recursos do governo e lançou mãos à obra. “Vencendo mil e uma dificuldades, fê-lo funcionar com êxito em janeiro de 1814”, informa o biógrafo. Para o trabalho, trouxe mestres e operários estrangeiros especializados na fabricação, moldagem e fundição de ferro. Como resultado, conseguiu baixar em quatro vezes o custo do ferro em Minas Gerais.
Mas o intendente queria mais. Preocupava-se com o escoamento da produção e conseguiu autorização para fazer uma estrada ligando a fábrica ao Rio Santo Antônio, afluente do Rio Doce. “Foi feita uma légua de estrada, mas os ciúmes provocados pelo seu prestígio crescente, pela ampla autonomia de que gozava a sua administração, e pelo fato de ter sido ele o encarregado de abri-la em terrenos fora de sua jurisdição administrativa, fizeram com que dessa sua interessante iniciativa lhe viessem picardias de toda sorte da parte do governador da província, Dom Manuel de Portugal e Castro, já nesse tempo mancomunado com o barão d’Eschwege que, desde 1811, se achava em Minas, comissionado pelo governo do Rio de Janeiro e trabalhando na fábrica de ferro de Congonhas”, diz Mendonça.
O barão d’Eschwege foi o primeiro a fabricar ferro, em 1812, na sua fábrica “Patriótica”, em Congonhas, mas coube ao intendente Câmara fabricar, pela primeira vez, ferro-gusa em alto-forno, em 1814. Câmara, foi, portanto, segundo Mendonça, “o maior propugnador da implantação da indústria do ferro em alta escala no Brasil”.
O historiador Silvio Romero sustenta que, por ser Câmara “um dos mais distintos representantes de sua geração”, pode ser feito um paralelo de sua trajetória com a de José Bonifácio, mas “o sábio mineiro sobrelevava o paulista em atividade prática, em energia de caráter, em solicitude pelo trabalho”.
De volta à Corte, o intendente Câmara lutou pela independência do Brasil e, como deputado constituinte, em 1823, esteve atento à riqueza mineral do solo brasileiro. Ele foi autor da emenda que dizia: “É patrimônio da Nação tudo quanto a terra encerra de precioso, e ninguém o poderá extrair sem seu expresso consentimento, e debaixo das condições que a lei determina.”
Autor: Maurício Lara
(Estado de Minas, 16/06/2008)
 Fonte: Infomet

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