segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A Santa Ceia de Aleijadinho

A Santa Ceia de Aleijadinho. Fotografia de Antônio F. M. Oliveira
Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814), maior artista brasileiro de todos os tempos, deixou no alto de um dos morros da cidade histórica de Congonhas, a 89 quilômetros de Belo Horizonte, sua obra-prima: os Passos da Paixão de Cristo. Por três anos, entre 1º de agosto de 1796 e 31 de dezembro de 1799, ele executou, ao lado dos ajudantes de seu ateliê, as 66 figuras em cedro instaladas em grupos: ceia, horto, prisão, flagelação, coroação de espinhos, cruz às costas e crucificação. À magistral missão de criar o conjunto de esculturas somaram-se outros dois talentos da época: os pintores Manuel da Costa Ataíde e Francisco Xavier Carneiro. O primeiro cuidou das policromias das imagens da ceia, flagelação e crucificação e o outro do restante das peças, trabalho só finalizado em 1819.
Detalhes da obra de Aleijadinho. Fotografia de Antônio F. M. Oliveira 
Muitos mistérios envolvem a criação dos passos, assim como a real participação dos ajudantes de Aleijadinho na empreitada e ainda a biografia do mestre escultor. Porém, nada conseguiu, quase dois séculos após a morte do artista, ofuscar a grandiosidade daquele feito, considerado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) como Patrimônio Cultural da Humanidade. O vocábulo “passo”, denominação para as estações da via-sacra, traz duplo sentido, como explica a pesquisadora Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, no livro 'Passos da paixão – O Aleijadinho' (Edições Alumbramento). É algo que serve para designar o episódio do passo do Cristo e ainda o deslocamento do peregrino entre esses marcos.

A devoção à via-sacra foi propagada no Brasil, sobretudo, pela atuação dos frades franciscanos, que possuíam, como explica a pesquisadora, o privilégio da guarda dos lugares santos em Jerusalém, onde também foram os criadores dos primeiros roteiros organizados para uso dos peregrinos. “Em seus conventos espalhados por todo o mundo quase sempre figura uma via-sacra a céu aberto, sendo particularmente notável, no Brasil, a série de Passos em painéis de azulejos do Convento de Santo Antônio, de João Pessoa”, exemplifica. Como os conventos de ordem religiosa foram proibidos em Minas, coube à irmandade do Senhor dos Passos das paróquias disseminar a devoção. Assim surgiram, nas antigas vilas coloniais mineiras, as capelinhas dos Passos, como em Ouro Preto e Tiradentes. Em Congonhas aconteceu diferente.

Coube ao português Feliciano Mendes, acometido por uma enfermidade incurável à época, realizar uma promessa a Bom Jesus de Matosinhos: caso se curasse, fundaria uma irmandade em Congonhas semelhante à do Norte de Portugal. Ele havia desbravado anos antes aquelas terras na Região Central de Minas e descoberto ouro. A doença veio junto com seu enriquecimento. Felizmente sua promessa surtiu efeito positivo. Como forma de gratidão, ele dedicou o resto da vida a fundar, naquele vilarejo, não só a irmandade a Bom Jesus de Matosinhos de Congonhas do Campo, como cuidou pessoalmente de angariar recursos para construção de uma igreja monumental no pico de uma das colinas mais altas do lugar, além dos Passos da Paixão com as 66 figuras em cedro e dos 12 profetas em pedra-sabão. Para a missão chamou Aleijadinho, o maior artista daqueles tempos. Desde 1780, aquela irmandade passou a organizar e promover a romaria e os jubileus atraindo, sempre em setembro, milhares de peregrinos.

As principais fontes para o estudo dos passos estão no lugar de origem, o arquivo do Santuário e Irmandade do Senhor Bom Jesus de Matosinhos de Congonhas. Os documentos foram transcritos em inúmeras publicações e citam como marco inicial o ano de 1796, quando começa a aparecer o nome de Aleijadinho nos registros. Mesmo estando o adro e as escadarias concluídos, o primeiro trabalho do escultor na região não foram os profetas, mas sim as imagens dos passos. As capelas, até então, não tinham sido iniciadas. Ao escultor, além da coordenação de todos os trabalhos do ateliê, cabia esculpir várias das estátuas. A distinção entre aquelas peças criadas pelo próprio mestre e as atribuídas aos seus assistentes é motivo de uma análise à parte. (abaixo, o retrato do Mestre Aleijadinho, pintado pelo artista Elias Layon)
ESTILO PRÓPRIO Não há como negar que existe uma superioridade entre as imagens criadas pelo artista e seus seguidores. Germain Bazin, um dos principais biógrafos de Aleijadinho, já enumerou lá atrás as características do estilo do artista, como os “panejamentos angulosos” e alguns aspectos peculiares à morfologia dos corpos, citados nos estudos de Myriam Andrade Ribeiro. São exemplos a estrutura robusta com músculos e veias salientes; a articulação em V do pescoço; a conformação especial do rosto com os malares altos e o queixo dividido em duas seções; os olhos rasgados com linha inferior em semicírculo; os lacrimais acentuados e a íris plana (quando da ausência dos olhos de vidro); as sobrancelhas altas e em linha contínua com o nariz; o contorno sinuoso dos lábios; os dedos alongados com as unhas quadrangulares e o defeito da má implantação do polegar. A distinção entre o que é ou não de autoria de Aleijadinho, apesar dos traços fortes do seu estilo, se dificulta, devido ao esforço imitativo dos seguidores.

Há várias peculiaridades nos Passos da Paixão em Congonhas que merecem atenção. Diretor de Patrimônio de Congonhas, o também escultor Luciomar de Jesus faz questão de ressaltar que este é o último grande trabalho de Aleijadinho. “Foi seu maior desafio também porque, embora tenha trabalhado em São Francisco em Ouro Preto e São João, até então, não havia realizado esculturas nessa proporção e quantidade.” Outra peculiaridade é o fato de o conjunto representar um dos últimos suspiros do estilo barroco. “Aleijadinho conseguiu realizar aqui nos Passos da Paixão a primeira manifestação artística genuinamente brasileira ao lançar mão de um repertório já desgastado na Europa e, com ele, imprimir sua genialidade”, enfatiza. A dramaticidade das cenas também merece atenção. “Ainda hoje quando os romeiros chegam até aqui eles se atêm ao objetivo devocional e não somente com o aspecto artístico.”

Linha do Tempo
1780 - Irmandade a Bom Jesus do Matosinhos começa a promover romarias e angariar recursos para a construção de uma igreja e dos Passos da Paixão
1796 - Aleijadinho e sua equipe iniciam a execução de 66 figuras em cedro da Paixão de Cristo
1813 a 1818 - É construída a Capela do Passo do Horto, ao lado esquerdo da rampa, perto da ceia
1819 - Termina o trabalho de policromia das imagens da ceia, flagelação e crucificação
1864 - Começa a construção da Capela da Flagelação e Coroação de Espinhos. As obras dos passos ficaram paralisadas durante meio século
1867 a 1875 - Construída a penúltima capela, que abriga o Passo da Subida ao Calvário
1939 - Conjunto é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
1985 - Passos da Paixão passam a ser Patrimônio Mundial da Unesco
Por Sérgio Rodrigo dos Reis - Jornal O Estado de Minas/Portal Uai.com.br Link original:https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2013/03/30/interna_gerais,365039/obra-de-aleijadinho-conta-historia-da-paixao-de-cristo-em-congonhas.shtml - Ilustrações nossa
CURIOSIDADE: Aleijadinho era supersticioso. Não gostava de números pares e nem do número 13. Por serem 12 apóstolos e com Jesus daria 13 na mesa, colocou 2 garçons. Se fosse um garçom, daria 14, ele não gostava de números pares, então, foram 2, dai são 15 figuras na Santa Ceia.

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