O Carro de Bois

Foto da bica d´água e orquídea, com painel ao fundo com carro de bois. Arnaldo Silva
Durantes séculos o Carro de Bois (no plural mesmo porque é puxado por juntas e não por um boi), foi o único veículo usado. Servia de lotação, de carro funerário, de ambulância, de transporte diverso na cidade e para serviços nas fazendas. Nos carros de bois as riquezas de Minas e do Brasil eram levadas para os portos e de lá embarcados para Portugal, a época do Brasil Colônia. Levavam e traziam mercadorias da Europa e de vários lugares do Brasil.    
Carro de bois no Engenho do Ribeiro, distrito de Bom Despacho/MG. Fotografia de Arnaldo Silva
Mas era bem desajeitado e barulhento para as cidades. Com o tempo, surgiram às carroças e carruagens e o carro de bois foi saindo das cidades, ficando restrito a trabalhos nas fazendas e transportes pesados em longas distâncias. Foi no carro de bois que o ouro de Minas foi transportado até Paraty e de lá para Portugal. O Carro de Bois impulsionou a economia do Brasil desde quando foi introduzido no país pelos portugueses. Não tem lugar que o carro de bois não vá. Forte e resistente, o carro de bois transportava nossas riquezas.
Carro de bois em estrada de Paraisópolis, Sul de Minas. Fotografia de Emerson Rossi
Com a ampliação das linhas férreas a atividade de longa distância dos carros de bois praticamente se encerrou, sendo usado basicamente em trabalhos rurais ou para buscar as mercadorias nas estações de trens. Por fim vieram os tratores agrícolas, ônibus, caminhões e carros com carrocerias como picapes e as facilidades para adquiri-los. Com isso, os velhos carros de bois ficaram no abandono e esquecimento, passando a ser somente objeto de enfeites em fazendas.           
Fotografia de Andréia D´Amato
Quem conhece o carro de bois lembra com saudades daqueles tempos e do seu choro que lembra uma cantiga de lamentos. Seu som é inesquecível. Faz parte da história e cultura brasileira e mineira. É parte da história e vida de muita gente. A música interiorana, a autêntica música caipira, retrata sempre em seus versos o carro de bois e suas histórias.      
Os parágrafos acima foram extraídos do livro Doces Momentos, de Arnaldo Silva. Página 52

Partes do carro de boi
Fotografia de Wilson Fortunato 
Canga: peça em que se prende o cabeçalho ou o cambão,e que é colocada sobre o pescoço de dois bois, responsável pela transferência de energia mecânica ao cabeçalho.
canzil: Peças em forma de estacas trabalhadas que atravessam a canga de cima para baixo em quatro pontos, de modo que o pescoço de cada boi fique entre duas dessas estacas;
arreia: suportes que atravessam transversalmente o cabeçalho, sobre os quais se apoiam as tábuas da mesa;
cabeçalho: a longa trave que liga o corpo do carro à canga, que se atrela aos bois;
cantadeira: parte do eixo que fica em contato com a parte inferior do chumaço. O contato entre eles produz o som característico do carro;
cheda: Prancha lateral do leito do carro de bois, na qual se metem os fueiros;
cocão: Cada uma das partes fixadas por baixo das chedas, que servem para fixar, duas de cada lado do carro, cada um dos chumaços;
fueiro: cada uma das estacas de madeira que servem para prender a carga ao carro;
mesa: a superfície onde se coloca a carga;
Recavém, ou requevém, é a parte traseira da mesa.
tambueiro: Tira de couro cru, curtido e torcido, que serve para prender o cabeçalho ou o cambão à canga;
brocha: Tira de couro cru, curtido e torcido, que serve para prender um canzil ao outro passando por baixo do pescoço do boi.
Roda: feita de madeira nobre (Jacarandá), constituí de três pranchas unidas por travas de madeira(cambota)colocadas internamente nas pranchas por furos retangulares, estas fixadas por grampos e chapas de ferro. A circunferência é coberta com chapa de aço fixada à madeira com grampos de aço cuja forma arredondada deixa um rastro característico.
palmatora: partes laterais do cabeçalho na parte anterior da mesa do carro de boi. 
(fonte:Dicionário de Caetitenês, de  André Koehne; Museu do carro de boi):

Festivais do carro de bois
Encontro de carreiros em Formiga/MG. Fotografia de Wilson Fortunato
Por seu valor cultural, o carro de bois é homenageado em diversos festivais e encontros, onde se reúnem os últimos usuários e colecionadores desse meio de transporte rústico e simbólico do meio rural brasileiro.
Desfile de Carro de Bois em Morro do Ferro, distrito de Oliveira MG por Saulo Guglielmelli
Em Minas Gerais, são conhecidos os festivais de carro de boi de Ibertioga, Engenho do Ribeiro, Formiga, Desterro de Entre Riso, Vazante, Congonhal, Matutina, Bueno Brandão, Resende Costa, Pará de Minas, São Pedro da União, Macuco de Minas e outras dezenas de cidades que organizam todos os anos as festas dos carros de bois, com carreatas pelas estradas rurais e nas cidades.

Na arte
Fotografia de Wilson Fortunato
Carro de Bois em São Gotardo MG por João da Silva Pereira
Os compositores e cantores sertanejos sempre retratam o Carro de bois e o cotidiano do carreiro em suas composições. Tonico e Tinoco foram os pioneiros e seguidos por uma infinidades de outros artista que cantam e retratam o carro de bois. As canções mais populares e cantadas são Boi de Carro de Anacleto Rosas Jr e Poeira, composição de Luiz Bonan/Serafim C. Gomes, que é um dos clássicos sertanejos mais gravados até hoje.

Poeira
(Luiz Bonan/Serafim C. Gomes)

O carro de boi lá vai
Gemendo lá no estradão
Suas grandes rodas fazendo
Profundas marcas no chão
Vai levantando poeira, poeira vermelha
Poeira, poeira do meu sertão.

Olha seu moço a boiada
Em busca do ribeirão
Vai mugindo e vai ruminando
Cabeças em confusão
Vai levantando poeira, poeira vermelha
Poeira, poeira do meu sertão.

Olha só o boiadeiro
Montado em seu alazão
Conduzindo toda a boiada
Com seu berrante na mão
Seu rosto é só poeira, poeira vermelha
Poeira, poeira do meu sertão.

Barulho de trovoada
Coriscos em profusão
A chuva caindo em cascata
Na terra fofa do chão
Virando em lama a poeira, poeira vermelha
Poeira, poeira do meu sertão.

Poeira entra em meus olhos
Não fico zangado não
Pois sei que quando eu morrer
Meu corpo irá para o chão
Se transformar em poeira, poeira vermelha
Poeira, poeira do meu sertão.

Poeira do meu sertão, poeira!
Poeira do meu sertão, poeira!

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