História: A Estação Ferroviária de Bom Despacho/MG

Maria Fumaça em Bom Despacho, Centro Oeste de Minas, hoje, faz parte do Museu Ferroviário da cidade. Fotografia de Arnaldo Silva 


ESTAÇÃO FERROVIÁRIA BOM DESPACHO
A Estrada de Ferro Paracatu (EFP) foi inaugurada na década de 1910 e incorporada à Estrada de Ferro Oeste de Minas em 1922. A Estrada de Ferro Paracatu iniciava na estação de Azurita no entroncamento com o Ramal de Garças. Após seguir sentido noroeste e cruzar a cidade de Pará de Minas, a EFP chegava a uma estação da Linha tronco de bitola de 762 mm da Estrada de Ferro Oeste de Minas (conhecida também como Ramal do Paraopeba) chamada "Velho da Taipa" no município de Pitangui-MG de onde começava um pequeno trecho ferroviário chamado de Ramal de Pitangui que servia exclusivamente para ligar as ferrovias EFP e Ramal do Paraopeba à cidade de Pitangui. A EFP avançou até Barra do Funchal na margem direita do Rio Indaiá sendo seu ponto final, abrangendo também os municípios de Leandro Ferreira, Bom Despacho, Dores do Indaiá e Serra da Saudade.
O projeto inicial visava alcançar a cidade de Paracatu-MG. Nos anos 60, o absurdo projeto brasileiro de erradicação de trechos ferroviários considerados "deficitários" em benefício dos transportes rodoviários considerados como "rápidos e econômicos" fez com que várias ferrovias do Brasil tivessem seu tráfego não somente interrompido, mas também os seus trilhos e dormentes arrancados. Até pontilhões de aço foram desmontados, outros trechos foram abandonados com os trilhos sem manutenção e bem enferrujados pela ação do tempo e tomados pela vegetação!
A EFP foi vítima desse criminoso desmonte e dela restaram apenas os cortes da estrada sem os trilhos, com pontilhões de aço e pontes de concreto sem os aterros nas cabeças ou sendo usadas como pontes de passagem para veículos, várias estações abandonadas e tomadas por cupins e vegetação, belos túneis e a invasão imobiliária no traçado da ferrovia nas áreas urbanas. Apenas a cidade de Bom Despacho possui um museu que funciona na antiga estação e é dedicado a história desta ferrovia com um belo exemplar de uma locomotiva a vapor n° 325 fabricada pela “Baldwin Locomotive Works”, em 1911 e importada pelo Brasil em 1918. Está localizada na antiga plataforma de embarque sobre uns 20 ou 30 metros de trilhos sobre dormentes no exato local onde passava a EFP.
A EFP foi importante para o desenvolvimento dessas cidades no Centro-Oeste Mineiro, principalmente para Bom Despacho. Neste município até hoje se mantém lá a antiga Vila dos Ferroviários, hoje Vila Militar (foi incorporada pela Polícia Militar do Estado de Minas Gerais).

EFP e a Consolidação do Município de Bom Despacho
A primeira Estação Ferroviária de Bom Despacho foi inaugurada em 1921, com a chegada da Estrada de Ferro Paracatu ao município. Sendo assim, torna-se necessário que se faça um breve relato histórico desta ferrovia, para uma melhor compreensão do assunto abordado.
A Estrada de Ferro Paracatu seria uma substituição das estradas de ferro que ligariam Curvelo à Serra das Araras e de Pitangui a Patos. Esta estrada estava prevista para cobrir o trecho que, partindo de Martinho Campos, posteriormente denominada Velho da Taipa (Pitangui), Bom Despacho, Dores do Indaiá, Carmo do Paranaíba, Patos, até atingir Alegre no município de Paracatu, para então finalizar na Serra das Araras na divisa de Minas com Goiás. A E. F. Paracatu tinha o objetivo de desenvolver uma vasta região do estado que ainda encontrava-se segregada dos centros comerciais. Acreditava-se que a estrada se sustentaria através do escoamento da produção da região servida por ela.
Segundo relatórios feitos pelo Governo da Província de Minas Gerais, denominados “Mensagens dos Presidentes das Províncias”, a concessão desta estrada foi feita através de contrato datado de 31 de janeiro de 1912, firmado entre o governo e a Companhia Norte de Minas, empresa encarregada de executar as obras de construção da ferrovia. Entretanto, as partes entraram em litígio e em 1920, o Estado declarou a caducidade da concessão, anulando o contrato. Para resolver a questão, foi firmado um acordo no qual o Estado adquiriu todo o patrimônio relativo à Estrada de Ferro Paracatu, pagando à Companhia Norte de Minas um valor baseado em avaliação feita na época. Assim, no início da década de vinte, todas as obras que estavam paralisadas foram retomadas, trazendo para a região crescimento e progresso. Para auxiliar na construção da ferrovia o governo incentivou a formação de colônias formadas por imigrantes, principalmente alemães. Na região de Bom Despacho foram criadas nesta época, as colônias de Álvaro da Silveira e David Campista.
Em 1921, os trilhos da Estrada de Ferro Paracatu chegam à Vila de Bom Despacho e em 21 de outubro deste mesmo ano, é inaugurada a Estação Ferroviária local. A década de vinte do século passado, não só foi testemunha, mas também agente do processo de desenvolvimento experimentado pela localidade. Nesta época são construídos o Escritório Central da Estrada de Ferro Paracatu, galpões para alojamento de funcionários, armazéns, oficinas de reparo das locomotivas além da Vila Operária e de várias outras edificações que até hoje são referências urbanas importantes para o município. Dentre elas, temos também, a Escola Coronel Praxedes, a Santa Casa e o Hotel Glória.
A evolução urbana, social e política do município de Bom Despacho estão intimamente ligadas à chegada das locomotivas ao município, nos trilhos da Estrada de Ferro Paracatu, na década de 20. 
A vinda do Escritório da Estrada de Ferro Paracatu concedeu à Vila de Bom Despacho uma importância regional naquela época. Em 11 de outubro de 1925, em artigo do jornal “O Bom Despacho”, Nicolau Teixeira Neto escreve sobre o Escritório Central da Estrada de Ferro Paracatu: ‘Depois de alguns meses de trabalho intenso, está finalmente terminada a grande esplanada para as oficinas e escritórios da Estrada de Ferro Paracatu. Mais de 20.000m2 é a área calculada, onde ficarão alojados com relativo conforto, todos os departamentos da administração da futura e já bem desenvolvida via férrea do Noroeste Mineiro. (...) é um Bom Despacho novo que nasce e cresce dia a dia robustecido por esta seiva nova e bendita do trabalho, da arte e do bom gosto.(...)’ 
A construção da ferrovia seguiu seu curso normalmente, inaugurando sucessivamente vários trechos e estações. A de Dores do Indaiá foi inaugurada em 1922 e em 1925 a de Melo Viana. Em 1927, ao atingir a Serra da Saudade, constatou-se que, dada a topografia local, a construção deste trecho seria muito onerosa, pois exigiria a abertura de inúmeros túneis e grande movimentação de terra. 
Como a situação financeira, tanto do estado, quanto das ferrovias mineiras, não era boa, cresce no âmbito governamental a ideia de se unificar as administrações das companhias ferroviárias atuantes no estado. Cabe aqui ressaltar, que vários fatores contribuíam para o agravamento da crise, entre eles estavam a multiplicidade de bitolas, a preferência pelos traçados sinuosos (mais dispendiosos para o governo, porém mais rentáveis para as empresas, que ganhavam por quilometragem) e a própria concorrência entre as ferrovias. Desta forma os serviços prestados iam sofrendo um processo de degradação contínua.
Após a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, a crise capitalista atinge o Brasil e também a esfera ferroviária. Com a produtividade em baixa, o escoamento das mercadorias diminuiu, prejudicando o faturamento das empresas.

Unificação das Estradas de Ferro: R.M.V.
Em 1931, foi feito pelo Governo Federal um contrato com o Governo de Minas Gerais para o arrendamento da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Ficou resolvido que a Oeste seria, como já estava sendo, explorada técnica e financeiramente, dentro de um aglomerado que englobaria três ferrovias: além da própria Oeste de Minas, a Estrada de Ferro Paracatu e a Rede de Viação Sul Mineira. A esta união deu-se a denominação de Rede Mineira de Viação. Com isso, Estrada de Ferro Paracatu se tornou Ramal de Paracatu, iniciando-se em Azurita e terminando em Barra do Funchal. Mesmo assim, as obras continuaram e, em 24 de abril de 1937 foi aberta ao tráfego o trecho entre Melo Viana e a estação de Barra do Funchal. Este trecho seria o último a ser concluído, pois devido à variados fatores, a construção da ferrovia foi interrompida neste ponto, para nunca mais ser retomada.
Em 1957, o processo de federalização ferroviária no Brasil se consolidou com a formação da Rede Ferroviária Federal S. A – RFFSA, que encampou, entre outras, a Rede Mineira de Viação.
A Estação Ferroviária de Bom Despacho funcionou por vários anos atuando no transporte de cargas mas, principalmente, no embarque e desembarque de passageiros. Mesmo com a interrupção da construção da linha férrea, o trecho correspondente ao Ramal Paracatu continuou a ser muito utilizado e por ele passavam centenas de passageiros e cargas variadas. 

Nova Estação
Na década de 60, a antiga estação, de arquitetura representativa das construções ferroviárias do início do século XX, foi derrubada para dar lugar ao atual prédio da estação. Esse, construído de acordo com o repertório formal moderno. Assim, a cobertura em duas águas anterior deu lugar à laje plana. Sobre a plataforma, o telhado cerâmico sustentado por mãos francesas, foi substituído por laje em balanço.
A circulação de locomotivas pela nova Estação de Bom Despacho continuou acontecendo, a despeito da decadência do transporte ferroviário no Brasil. Pela estação, passaram várias máquinas movidas a vapor, dentre elas a Maria Fumaça, que hoje se encontra estacionada na plataforma.
A Estrada de Ferro Paracatu não atingiu o objetivo de chegar à Serra das Araras, na divisa de Minas com Goiás. Portanto, foi de extrema importância para o desenvolvimento urbano, social, político, econômico e cultural do município. Para citar um exemplo, vários congadeiros chegaram ao município através da estrada de ferro.

A Praça da Estação
A Praça Olegário Maciel, mais conhecida pela comunidade, por Praça da Estação, é uma forte referência de um período bastante promissor para o município.
A vinda da Estrada de Ferro Paracatu trouxe o desenvolvimento social, urbano e também, o cultural para Bom Despacho. Porém, a saída das Oficinas e do Escritório Central da cidade, com a unificação das estradas férreas, deixou a incerteza no ar e também um esvaziamento populacional notado pela comunidade. 
O prefeito, Flávio Cançado Filho, conseguiu a vinda do 7º Batalhão de Caçadores Mineiros da Força Pública do Estado de Minas Gerais para ocupar o lugar dos ferroviários, em 1931.
Construída pelos Caçadores Mineiros, a Praça Olegário Maciel foi implantada num vazio urbano determinado por um desnível entre duas vias. A Praça estabelecia a ligação de quem chegava pela Estação com o município em si.
Hoje, porém, representa mais do que a conexão entre as vias públicas e desníveis, pois estabelece uma ponte entre o auge da consolidação urbanística do município (anos 20 e 30) e o presente, que necessita de diretrizes básicas para estabelecer critérios para a execução de novas edificações, sem interferir na ambiência ainda existente da Praça da Estação. 
Atualmente, representa um local de encontros e de vários eventos. A rua que divide a Praça da antiga Estação, quando fechada para veículos, é suporte para acontecimentos culturais, como Feiras de Artesanato e o Carnaval de rua. No entorno, o Museu Ferroviário, a Câmara Municipal, algumas residências do início do século passado estão de pé, marcando seu lugar no tempo e no espaço.
A locomotiva, meio de transporte rápido e possante, contribuiu com a circulação e escoamento de mercadorias gerando riquezas ao município auxiliando no desenvolvimento e na consolidação urbana de Bom Despacho.
Além da troca de mercadorias, o transporte de passageiros permitia o intercâmbio cultural entre capital e municípios.

O Tombamento da Maria Fumaça e Praça da Estação
Foi pensando nessa importância que o Conselho Municipal de Patrimônio Cultural, presidido por Nicozina Campos, em acordo com os 24 conselheiros e prefeito municipal, indicaram como bens culturais com interesse de preservação municipal a Praça Olegário Maciel e a Maria Fumaça. Através dos decretos Nº 2583/03 e Nº 2582/03 respectivamente, foram tombados na esfera municipal. Existe ainda na esfera federal, a lei nº 10.413/02 que determina que o acervo ferroviário passa a integrar o acervo histórico e artístico da União. Com isso, proteger e zelar pelo acervo ferroviário deveria ser prioridade também no Legislativo municipal.

A Locomotiva 325
A locomotiva a vapor nº 325, a Maria Fumaça é do tipo ‘Pacific’, construída pela “Baldwin Locomotive Works”, em 1911. Foi importada dos Estados Unidos em 1918, por ser uma possante locomotiva movida a lenha, carvão e água e atender ao crescente transporte de cargas e de passageiros. Foi importada com a numeração 80 e circulava nas estações de Velho da Taipa e posteriormente, Bom Despacho.
A numeração da locomotiva foi alterada para 151, e sua rota transferida para Ribeirão Vermelho, Lavras e Três Corações. Segundo Sr. Manoel Werneck, novas locomotivas foram adquiridas para a E. F. Oeste de Minas, e então, novamente a numeração da locomotiva foi alterada para nº325. As locomotivas mais possantes deveriam ter maior numeração. Parou de circular em 1977, juntamente com outras locomotivas, dando lugar `as diesel-elétricas, mais possantes e econômicas. Ficando, com isso, estacionada num galpão em Ribeirão Vermelho, por vários anos. Abandonada, ficou praticamente coberta pelas águas, após grande período de chuvas, na década de 80.
Hoje se encontra exposta na plataforma de embarque que restou da construção original da antiga Estação de Bom Despacho.
Representa um marco para a memória da comunidade, pois é o registro de uma época de fundamental importância na formação e consolidação do município.



Fontes:

2 comentários:

  1. Efp. Preciso volta passado de trem de passageiros azurita e bom despacho. A linha trem preciso avançar. Não pode parar

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  2. Efp. Preciso volta passado de trem de passageiros azurita e bom despacho. A linha trem preciso avançar. Não pode parar

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