Conheça Bom Despacho: a cidade Sorriso de Minas

 Bom Despacho/MG. Fotografia de Arnaldo Silva

Bom Despacho está localizada na região centro-oeste do Estado de Minas Gerais, a 147 km de Belo Horizonte, capital do Estado, tendo hoje 45.626 habitantes, de acordo com dados do IBGE, censo 2010. Sua vida bucólica e tranquila desenvolve-se em meio a campos, montanhas e cachoeiras ao longo dos seus 1212,7km2 de extensão.
 População de Bom Despacho

 Segundo levantamentos da Prefeitura atual, Bom Despacho tem 68 mil habitantes
Vista parcial do Centro de Bom Despacho. Fotografia de Arnaldo Silv a
            O município é constituído pelos distritos de Bom Despacho e Engenho do Ribeiro e pelas comunidades de Bom Retiro, Capivari dos Macedos, Capivari do Marçal, Córrego Areado, Extrema, Laranjeira, Falcão, Garça, Machado, Mato Seco, Passagem, Pulador, Retiro dos Agostinhos, Salitre e Vilaça. É banhada pela bacia dos rios São Francisco, Picão, Capivari, Machados e Lambari. (IBGE, 2008)

Mapa da microrregião de Bom Despacho:
 
Fonte: IBGE

 A Origem
            A história da sua origem é razão de divergência entre historiadores, no entanto é consenso em todas as versões a associação à chegada dos portugueses, tendo-se como pioneiro Manoel Picão Camacho, que teria lá chegado em 1730. O povoamento só teria ocorrido efetivamente por volta de 45 anos mais tarde, com a chegada em 1745, aproximadamente, de Domingos Luiz de Oliveira, Manoel Ribeiro da Silva e Pe. José Hermenegildo Vilaça, que teriam sido deportados por Pombal (Queiroz, 1998).
            De acordo com registro do Pe. Vilaça, seus dois contemporâneos teriam construído uma pequena capela que denominaram de Nossa Senhora do Bom Despacho do Picão, para homenagearem a santa a quem pediam proteção da freguesia, assim como interseção para o perdão do rei de Portugal e ao mesmo tempo prestavam homenagem em reconhecimento do pioneirismo de Picão Camacho.
            Outra referência ao nome da cidade, constante apenas da memória coletiva, estaria relacionada ao transporte da produção agrícola e dos minérios extraídos para que chegassem em boas condições ao seu destino: a metrópole portuguesa, o que lhes motivava recorrer à santa para que lhes desse um ‘bom despacho’.

 Ocupação do Território e Atividades Econômicas
              Contrapondo-se às narrativas orais, Laércio Rodrigues, fundamentado em registros históricos, relatou no seu livro História de Bom Despacho que o povoamento do arraial intensificou-se com o fim da mineração em Pitangui, cidade vizinha de estreitas relações a quem Bom Despacho pertenceu até 1880. Porém, somente em 1911 a cidade foi elevada à condição de município.
            O fim do ciclo do ouro provocou “a corrida para os sertões”, isto é, o deslocamento de trabalhadores em busca de novas formas de sobrevivência, gerando então o início da atividade pecuarista.
            Para incremento das atividades econômicas no período da colonização a principal fonte de mão de obra foi constituída pela adesão ao regime escravista, tal qual ocorria em outros lugares da colônia.
            No período da ocupação daquela região, parte considerável da população era de descendência africana, segundo Sônia Queiroz (1988), por um longo período do século XIX (entre 1813 e 1872) representava a maioria da população, o que é atestado pelo registro histórico da movimentação do mercado mais bem sucedido: compra e venda de escravos para a região que tempos depois constituiu o Estado de Minas Gerais.
            Se os negros cativos desempenharam papel importante no desenvolvimento da economia, é muito provável que os fugitivos tenham contribuído para o povoamento da região, aquilombando-se em territórios longínquos, de difícil acesso, expandindo, assim, a área povoada.
            Dadas as condições topográficas viáveis à mecanização agrícola e à criação de gado, Bom Despacho destaca-se na agricultura e na pecuária para a produção de leite, sendo um dos grandes produtores do Estado. Ainda como atividade econômica, o município possui reservas minerais, produz argila industrial e areia para a construção civil, de acordo com dados do IBGE,2008.
Corte de Reinado dos Marinheiros, da Tabatinga. Fotografia de Arnaldo Silva 
  
A presença dos Africanos
            A sesmaria mais antiga, segundo registro encontrado por Laércio Rodrigues, tinha como proprietário Antônio Rodrigues da Rocha, cuja solicitação relatava que em 1758 havia a presença de negros naquela região. Diante dessa constatação, Sônia Queiroz afirma que eles foram os primeiros a ocuparem aquelas terras. Vários outros documentos encontrados pelo referido historiador registravam a presença de escravos fugidos. A autora destaca que havia uma associação direta entre a concessão do benefício de doação de terra e a quantidade de escravos que o pleiteante possuísse. (Queiroz, 1988)
            A grande concentração de população africana em terras mineiras visava à exploração de ouro e diamante, primeiramente, e em seguida à produção de cana-de-açúcar.
            A presença africana na referida região é atestada também pelos quilombos que existiram, pelas tradições religiosas de origem africana e pela Língua do Negro da Costa, que são indicadores incontestes da remanescência africana. Todas essas manifestações culturais são ainda preservadas, sendo que, pelo contato com as crenças, tradições e imposições portuguesas, ganharam formato misto que caracterizam a diversidade cultural despachense.
            A convivência entre portugueses e africanos de diferentes etnias produziu uma cultura híbrida, observada na crença religiosa católica, mas adornada com festejos e rituais africanos.
            A respeito da constituição do povo despachense, consta da memória dos mais velhos nomes de africanos que lá teriam vivido, entre eles há referência ao nome de Dagoberto Tomás Pinto da Fonseca, mais conhecido como Dicoberto; um dos pioneiros e responsável pela introdução da língua; Zacaria, cuja referência é de negro forte e trabalhador também considerado um dos introdutores da Língua do Negro da Costa, ambos reconhecidos pela saúde forte que sempre demonstraram no trabalho pesado o que lhes garantiu viver por mais de cem anos (Queiroz, 1998).
            Ainda vive em BD uma das remanescentes da geração de desbravadores e uma das últimas depositárias do conhecimento da língua africana que ficou em Minas Gerais. Trata-se de Dona Fiota, cujo nome de registro é Maria Joaquina da Silva, neta de Zacaria. Fiotinha, como é carinhosamente chamada, guarda consigo um dos maiores tesouros do povo despachense que é o domínio da língua africana que lá se estabeleceu.
             Vale destacar que se tornou difícil, ao longo da pesquisa, recuperar a genealogia de Bom Despacho, por duas razões essencialmente: os arquivos, cartorários e da catequese não apresentarem informações organizadas, tanto pela dificuldade de registro na época, assim como pela praxe corrente de os escravos assumirem outros nomes como o do dono, por exemplo, o quê, por vezes, levava ao esquecimento dos seus nomes originais. A segunda razão seria a ausência de registro na memória coletiva da constituição das famílias pioneiras, além dos nomes mencionados anteriormente, acrescidos de mais dois ou três.
            Como marca da presença africana em Bom Despacho, ainda se observam as  manifestações remanescentes da colonização que são preservadas tanto pelos afro-descendentes quanto pela comunidade católica de Bom Despacho: é o caso das festas tradicionais do Congado, também chamada Reinado - festa religiosa em devoção à Nossa Senhora do Rosário, considerada a protetora dos escravos; festa de São Benedito e festa de Reis.
            Essas manifestações religiosas em conjunto com a Língua do Negro da Costa, conhecida como “gíria da Tabatinga”, compõem o acervo despachense do contato entre os portugueses e africanos,  e constituem um valioso tesouro da cultura mineira. Trata-se de  uma espécie de “arquivo vivo” da presença  e importância dos africanos na colonização do Brasil. 
A Língua da Tabatinga, A Língua do Negro da Costa 
Tipura, cuete! Tipura as ocaia do cumbaro avura, São Paulo

“Olha, rapaz! Olha só as garotas da cidade grande, São Paulo”.

            Era assim a recepção dos pesquisadores em um dos locais escolhidos pelo projeto-piloto IPHAN-USP: o bairro da Tabatinga em Bom Despacho-MG.

 Tabatinga e Cruz do Monte 
                São as ruas que constituem o ponto de partida da difusão da língua do negro da costa. Por nos faltarem informações suficientes a respeito do número de habitantes por rua, realizamos um “censo”, perguntando de casa em casa o número de habitantes, divididos entre homens, mulheres e crianças.

* localidades que antigamente constituíam a Tabatinga.

                 A região da Tabatinga abriga a chamada Língua do Negro da Costa (denominação mencionada por Sônia Queiroz em Pé Preto no Barro Branco,1998), ou como é mais conhecida pelos falantes, “gíria da Tabatinga” e é utilizada de modo corrente por pelo menos 130 pessoas.
            Sua origem é incerta, porém a análise do léxico leva a crer que a Língua do Negro da Costa é de origem banta, proveniente dos escravos que chegaram a Minas Gerais por conta da mineração na vila de Pitangui e é essa a versão conhecida pela grande maioria dos falantes, pois muitos afirmam que a língua da Tabatinga surgiu no tempo da escravidão.
            A história conta que a língua introduzida na região de Bom Despacho tinha o objetivo de ser uma língua secreta, para que os senhores brancos não compreendessem o que os negros falavam entre si. Assim, os escravos podiam avisar quando o patrão (cavinguero, na Língua do Negro da Costa) estava voltando (injirando) do descanso, por exemplo, a fim de que voltassem também a trabalhar, sem serem pegos descansando. O caráter de código secreto da língua não se perdeu, já que 40% dos entrevistados se valem dela primordialmente para não serem entendidos por pessoas de fora da comunidade e muitas vezes para brincar com essas pessoas sem que elas saibam.       Portanto, a Língua do Negro da Costa tem um caráter informal e ocorre exclusivamente em contextos sociais informais, como bares e festas tradicionais da região. A pesquisa realizada em 2010 atestou que raramente os falantes adquirem a língua com os pais. O aprendizado se dá basicamente na infância, em idade mais avançada, de 6 a 8 anos, entre as brincadeiras de rua. E a explicação para esse fenômeno é simples: como a língua é muito utilizada para conversas de cunho sexual, muitos pais preferem mantê-la fora do domínio das crianças. 
A “língua do Negro da Costa”, a “gíria” ou “dialeto” da Tabatinga mantém-se porque seu uso está hoje associado à identidade do grupo, que não se caracteriza mais por ser negro ou africano, mas por ser habitante de uma região pobre e outrora discriminada.
Mas também é marca registrada do comércio e serviços locais: 
Clínica veterinária  Cambuá (‘cachorro’)
Bar Avura (‘bonito, bom, grande’)
Laticínios  Mavero (‘leite, seio’)
Pousada do Cuete (‘homem’)
Pousada Camunin (‘criança’)
Conjolo das Artes (‘casa’) 
As palavras de origem africana presentes na língua da Tabatinga distribuem-se pelos seguintes campos semânticos: alimentação, nomes de animais, as partes do corpo, sexo e alguns vocábulos relacionados ao trabalho e às profissões.  A lista completa desse vocabulário, identificado por Sônia Queiroz em 1982, está publicada em sua obra de 1998 (Pé preto no Barro Branco: a língua dos negros da Tabatinga). Nas entrevistas feitas em 2010 e 2011, os termos mais frequentes nas entrevistas gravadas foram os seguintes:
OCAIA (mulher - 47 ocorrências), CUETE (homem - 34 ocorrências), AVURA (bonito, bom, grande - 26 ocorrências), CANAMBÓIA (galinha – 18 ocorrências), CAMBERELA (carne - 17 ocorrências), CAMONIM (criança – 15 ocorrências), ORUMO (carro – 14 ocorrências), INGURA (dinheiro – 14 ocorrências), ORANJÊ (cabelo – 12 ocorrências), TIBANGA (bobo – 11 ocorrências), TIPLOQUE (sapato – 10 ocorrências), TINHAME (pé, perna, braço – 9 ocorrências), CANGURA (porco – 9 ocorrências), CONJOLO (casa – 9 ocorrências), TIPURÁ (olhar, ver, pegar, saber, flertar – 9 ocorrências), GOMBÊ (boi – 9 ocorrências), ARONGÓ (cavalo – 9 ocorrências).           
 Outros termos, presentes no registro de Sônia Queiroz, não apareceram nas entrevistas, como:
ARUMUTA (abóbora), ATIAPO (pouco), BANJERÊ/CONJERÊ (comida), CAMBAJARA (ônibus), CAMBÓIA (locomotiva), CAMONA (criança), CATIOLÁ (roubar), CAVU (terno), CUMBA (sol), ERPIDO (pênis), FUTE (céu), IMBANJE (irmão), INDU (feijão), INGANGA (padre), INJARA (pênis), INSU (azedo), JEQUÊ (com significado de buraco), JEQUETIOTADA (esburacada), MARUCO (litro de cachaça), MISSONGUE (dinheiro), MONÁ (criança), PROTIUDA (nádegas), PUNGUÉ/BUGRE (milho), TATA (pai), TIMBUÁ (mão), TIPOMO (chapéu), UARRUFO (forte), UNDE (sol), URUFACO/URUVACO (sapato), VIANJÊ (cana), VIRU (defunto)
 Algumas palavras da língua da Tabatinga foram identificadas por Queiroz em outros trabalhos, como avura, que significa ‘grande, bonito, muito’ nessa região e que aparece registrado por Vogt e Fry no Cafundó, em São Paulo, sob a forma vavuro, significando ‘muito’. Trabalhos anteriores publicados no Brasil, como o de atestam a ocorrência de avuro ‘muito (a)’ (Dornas Filho, 1938)  e  Kiavutu ‘grande’ (Raimundo, 1933). Queiroz (1998) também aproxima este termo dos seguintes registros de Cannecattim (1859): iavúl, qu’iavúl (pl).) ‘muito (bundo) e  avúl ‘muito’.
As palavras da língua da Tabatinga se adaptam à morfossintaxe do português, concordando em gênero e número, como em: o cuete cassucarado ‘o homem casado’;  a ocaia cassucarada, ‘a mulher casada’.
O processo mais produtivo de criação lexical é a sufixação, como se pode observar em: ocainha, catitim; tibangão, tinhamão.
Observa-se muita variação fonética em alguns termos repertoriados, o que é comum em qualquer língua que circule principalmente  no meio falado, como:
Arufim~ orufim ~ orufino ~ouro fino ‘peixe’
Orongó~orongó~orongome~arongó~
arangome~aranguão ‘cavalo’. 

Fonte:http://www.fflch.usp.br/dl/indl/Extra/Bom_Despacho.htm

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